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Pela inconfiabilidade do autor, o afago de Donald Trump a Lula na ONU ainda é um gesto a ser devidamente decifrado. Mas talvez a tal “química” a que Trump se referiu seja o primeiro resultado visível de ações conduzidas não exatamente pelo Itamaraty e, sim, por “canais diplomáticos” paralelos, com conexão direta junto à Casa Branca.
Nos bastidores, esta chancelaria sem agréments é atribuída a dois personagens reconhecidos pela capacidade de conciliar o inconciliável: Henrique Meirelles e Mario Garnero. Ambos estariam trabalhando para remover ou ao menos reduzir as cercas de arame farpado que separam Trump e Lula e, consequentemente, abrandar as sanções impostas pelos Estados Unidos ao Brasil, seja no âmbito comercial, seja de ordem legal.
A proximidade entre Meirelles e Trump vem dos tempos em que o ex-presidente do Banco Central comandou o BankBoston e, posteriormente, o FleetBoston. Garnero, por sua vez, é notório pelo seu poder de interlocução junto a empresários e proeminentes figuras da política norte-americana, notadamente entre os Republicanos, como Bush Pai e Bush Filho e Dick Cheney, ex-vice-presidente.
Não é a primeira vez que chama para si a missão de apaziguar os ânimos entre os atuais chefes de Estado do Brasil e dos Estados Unidos. No início deste ano, tentou costurar um jantar entre Lula e Trump no resort de propriedade do presidente norte-americano em Mar-a-Lago, na Flórida. Havia até uma data-tentativa: 17 de fevereiro. Mas o encontro foi para a gaveta das boas intenções.
Ainda é cedo para dizer até onde vai essa proxy de distensionamento entre Lula e Donald Trump. A conversa telefônica programada para a próxima semana deve ser anódina e protocolar, conforme os cânones diplomáticos.
De toda a forma, a postura de Trump após os “39 segundos” de conversa na ONU é o primeiro sinal de pragmatismo do presidente norte-americano desde o início da sua virulenta ofensiva contra o Brasil. É possível inferir que as gestões conduzidas por Meirelles e Garnero tenham alguma influência.
Por mais intransigente que se mostre, Trump não deve estar de todo indiferente aos recados que lhe chegam de que, se insistir em avançar na questão das sobretaxas contra o Brasil, vai entregar de bandeja uma reeleição para Lula. Quanto mais o presidente norte-americano bate, mais o presidente brasileiro cresce.
Como bem pontou o embaixador Jorio Dauster, em artigo publicado ontem no RR. Trump “teria visto ao longo das últimas semanas que os maus conselhos de Steve Bannon e seus asseclas brasileiros, Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo, tinham constituído um tremendo tiro no pé ou, quem sabe, um pouco mais acima em parte bem sensível da anatomia masculina”.
As manifestações do domingo passado contra a anistia e, por consequência, contra o perdão a Jair Bolsonaro certamente não passaram em branco entre as paredes da Casa Branca.
Nesse cenário, caso os governos do Brasil e dos Estados Unidos engatem, de fato, uma rodada de negociações, o cardápio de demonstrações de “boa vontade” da parte de Trump poderia conter, por exemplo, uma sobretaxa seletiva, que incidiria apenas sobre um determinado rol de produtos brasileiros e não sobre metade da pauta de exportações, como é hoje.
Além disso, poderia haver uma calculada interrupção das punições a autoridades, notadamente a integrantes do STF, além da mulher de Alexandre de Moraes – a essa altura, ao menos em um primeiro momento, seria pedir demais de Trump um brusco recuo nas penalizações.
“Tudo vai, tudo torna; a roda da existência gira eternamente”. Assim falou Zaratustra. Enquanto o futuro das relações entre Brasil e Estados Unidos não chega, o presente traz um ar de déjà vu.
A roda girou e os caminhos de Lula, Mario Garnero e Henrique Meirelles. Em 2002, logo após a eleição do petista, Garnero teve um papel crucial para amainar a desconfiança dos investidores norte-americanos em relação à política econômica do futuro presidente e, assim, evitar um possível ataque especulativo contra o Brasil.
Na ocasião, o empresário ciceroneou Lula e José Dirceu em uma série de reuniões nos Estados Unidos, a começar pelo encontro com o então presidente George W. Bush na Casa Branca. Esse trabalho de distensão começara meses antes, em meados de 2002, quando Lula já liderava as pesquisas eleitorais.
Em um domingo, 23 de junho, no início do que viria a ser um dos verões mais secos do Centro-Oeste norte-americano, Garnero participou de um encontro das mais altas lideranças do Partido Republicano em Beaver Creek, no Colorado. Em uma sala reservada, entregou ao então vice-presidente Dick Cheney uma carta de José Dirceu, em que o petista enfatizava a disposição para abrir um canal de diálogo com os republicanos.
Naquele mesmo mês, Garnero foi o anfitrião, na sede de sua empresa, a Brasilinvest, em São Paulo, de um almoço entre Dirceu e Meirelles. Naquele momento, já havia persuadido o petista de que o então presidente do FleetBoston era o nome para assumir o Banco Central em um eventual governo Lula e tourear a desconfiança do mercado.
“Dependendo do resultado das eleições, o Brasil precisará de você”, disse Dirceu a Meirelles no almoço. O resto é história. A história do inabalável e mais longevo presidente do BC – Meirelles ficaria no cargo do primeiro ao último minuto dos oito anos de Lula na presidência.
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