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“O conflito global favorece o Brasil em minerais críticos”. A recente declaração do CEO da Vale, Gustavo Pimenta, parece ter sido cuidadosamente calculada, tanto em relação ao lócus, sob os holofotes de Davos, quanto ao timing. A companhia é vista dentro do próprio governo como peça fundamental para a materialização do acordo firmado, há cerca de duas semanas, entre Brasil e Arábia Saudita para projetos conjuntos em minérios estratégicos. Caberia à empresa encabeçar os investimentos na extração de minerais voltados à transição energética. Todos os caminhos levam à Vale. A começar pelo vínculo societário já existentes entre a mineradora e Riad. Os árabes são sócios da Vale Base Metals, o braço de não-ferrosos da companhia, com 13% do capital. Significa dizer que o PIF, o colossal fundo soberano com mais de US$ 1 trilhão em ativos, e a Ma’aden, mineradora pertencente à família real, já têm um pé não apenas na Vale, mas no subsolo brasileiro. Ou seja: o acordo bilateral assinado durante a visita do ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, à Arábia em meados de janeiro não começaria do zero. Já teria como ponto de partida os ativos da mineradora brasileira em cobre (Salobo e Sossego) e níquel (Onça Puma). A partir daí, essa aliança tripartite poderia derivar para outros negócios, como terras raras, lítio e – por que não? – até mesmo minerais nucelares, como urânio e tório. Procurada pelo RR, a Vale não se pronunciou.
Não é de hoje, ressalte-se, que o próprio Palácio do Planalto enxerga na Vale o front para liderar projetos na produção de minérios estratégicos. Não só o Palácio do Planalto como investidores mais ariscos, que buscam frestas de entrada na companhia, como, por exemplo, André Esteves – ver RR. Curiosamente, a Arábia Saudita surge como a alavanca capaz de empurrar a mineradora nessa direção. Mais do que isso: os sauditas entram em cena trazendo a reboque sua singular e valiosa posição no tabuleiro geopolítico. Onde está escrito Riad, leia-se também Washington. Onde está escrito Mohamed bin Salman, príncipe herdeiro e primeiro-ministro do país asiático, leia-se também Donald Trump. A Arábia Saudita é uma aliada histórico dos Estados Unidos, com relações estratégicas profundas, sobretudo, na área de Defesa. Nenhum movimento dos sauditas no âmbito internacional é feito de costas para os norte-americanos.
Ao entrar como investidor e parceiro em projetos de minerais críticos no Brasil, a Arábia ofereceria uma solução que tende a ser vista com bons olhos pela Casa Branca. É notório, sabido, declarado e propalado o interesse de Donald Trump por terras raras e pelos minerais nucleares do Brasil. O acesso preferencial dos norte-americanos a essas riquezas é um ponto central das tratativas bilaterais para o equacionamento definitivo do tarifaço imposto pelo governo Trump. Nesse cenário, a Arábia Saudita seria um elemento de equilíbrio, um vértice importante de um triângulo mineral. Washington tem acelerado iniciativas explícitas para ganhar terreno na sua disputa particular com a China por minerais críticos. Ontem, por sinal, Trump anunciou o “Project Vault”, um investimento de US$ 12 bilhões para montar uma reserva de minérios estratégicos. O plano norte-americano é financiar grandes estoques de minerais para montadoras, empresas de tecnologia e outros fabricantes.
Nesse ambiente, uma rota Brasil–Vale–Arábia pode soar palatável aos EUA: seria um antídoto a uma captura chinesa de suprimento. A própria associação já existente entre a Arábia e a mineradora brasileira seria um facilitador e um atalho para dar forma a esse arranjo mínero-geopolítico. A parceria soberana firmada entre os dois países poderia se dar, por exemplo, mediante um aumento de capital do FIP e da Ma’aden na Vale Base Metals.
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