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O que precisa ser dito
A China oferece para o mundo hoje o que os Estados Unidos ofereceram há mais de um século?
Há mais de cem anos, os Estados Unidos receberam grande contingente de cientistas, especialmente europeus, das mais variadas áreas. Até meados do século passado, Ciência, Tecnologia e Inovação (CTI) era predominantemente liderada pelos europeus. Esta migração para a América resultou em mudanças significativas. Estes cientistas auxiliaram a alavancar as universidades e centros de pesquisas norte-americanos para os patamares hegemônicos atuais.
Hoje, a China oferece muitas oportunidades para profissionais de CTI, como infraestrutura sólida, salários competitivos (acima de US$ 300 mil/ano) e ótimas condições de trabalho, com a montagem, por exemplo, de laboratórios milionários. Embora o país asiático seja produtor de óleo & gás, inclusive aqui no Brasil, não podemos o considerá-lo uma “Petronação” ou um exportador de comodities. Pelo contrário. A China investe pesadamente em soberania alimentar e energética, com crescimento da energia renovável (solar, biomassa). Desenvolvimento de novos medicamentos, 5G, inteligência artificial, aquicultura, biotecnologia, bioeconomia, ciências de foguetes, satélites, trem-bala, carros elétricos são alguns exemplos relevantes do protagonismo chinês na ciência e na inovação.
E o Brasil nesse tabuleiro? Alguns estados vêm tentando recrutar cientistas internacionais, mas ainda de forma tímida e em uma escala pequena. O país tem pelo menos cinco mil pós-docs sem bolsa (sem trabalho?). Neste contexto, existem evidentes oportunidades para brasileiros, centradas especialmente nos recém-doutores que buscam se estabelecer no mercado de trabalho. Recente edital do CNPQ absorveu apenas 10% dos candidatos com PhD. A China tem mais de 2.500 universidades. É, portanto, um destino natural para cientistas. Temos um contingente enorme de doutores formados no Brasil que não estão vinculados formalmente e poderiam aproveitar esta oportunidade do gigante chinês. Se cada universidade chinesa absorvesse dois pós-docs brasileiros, o problema estaria resolvido, ao menos temporariamente. Há diversas oportunidades para CTI, incluindo a recuperação de sistemas marinhos destruídos, por exemplo, por sistemas coralíneos.
A China usa basicamente o mandarim. Mesmo em megacidades, como Shanghai, o inglês não é muito utilizado. A cultura chinesa é outro aspecto que merece destaque. Bastante hierárquica e formal, especialmente na região norte do país, remontando aos preceitos do Confucionismo, ainda há uma estrutura bem tradicional nas universidades e centros de pesquisa. Líderes de grupo estrangeiros são raros. Por outro lado, muitas instituições ainda requerem uma modernização para padrões de internacional. A força de trabalho na China é impressionante. Assim como o é a longa jornada de trabalho, podendo exceder 50 horas semanais mesmo dentro das universidades.
Fabiano Thompson é professor da UFRJ, onde coordena o Laboratório de pesquisa (https://www.thompsonlab.com.br/). É membro da Academia Brasileira de Ciências.
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