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O Fundo Garantidor de Crédito (FGC) costuma ser apresentado ao público como um selo de tranquilidade. Um mecanismo quase automático que transforma qualquer CDB em investimento seguro. Mas essa é a versão simplificada, pensada para o investidor de varejo. Quando se observa o FGC pela ótica dos bancos que o financiam, a pergunta relevante muda completamente. Não é mais sobre proteção ao investidor. É sobre quem sustenta a estabilidade do sistema financeiro brasileiro e como esse custo é distribuído.
Como o FGC é financiado na prática
O FGC é mantido por contribuições mensais obrigatórias das instituições financeiras associadas. A base de cálculo são os saldos médios dos depósitos e instrumentos elegíveis à garantia, como CDBs, LCIs, LCAs e depósitos à vista. A alíquota é uniforme e incide sobre o volume captado. Isso significa que bancos com maior estoque de passivos garantidos contribuem mais em termos absolutos. Não há, no modelo brasileiro, um sistema plenamente ajustado ao risco individual de cada instituição.
Na prática, o rateio do custo da segurança sistêmica é proporcional ao tamanho do balanço, não ao risco assumido.
Esse desenho gera um efeito pouco discutido fora do meio técnico. Os grandes bancos, com balanços diversificados, governança robusta e histórico de solvência, são os principais financiadores do FGC. Eles concentram a maior parte dos depósitos do sistema e, por consequência, respondem pela maior parcela do montante que entra para permitir que o fundo cumpra seus objetivos.
Já bancos menores, que frequentemente adotam estratégias de crescimento acelerado via captação agressiva, contribuem menos em valor absoluto. Ainda assim, são eles que concentram a maior probabilidade estatística de eventos de insolvência.
O resultado é uma assimetria clara. Quem gera menos risco sustenta uma fatia maior do custo coletivo. Quem opera mais próximo da borda do risco paga proporcionalmente menos. Ou seja, na prática o FGC funciona como uma forma silenciosa de subsídio cruzado, por meio da qual instituições mais sólidas financiam a tolerância sistêmica a estratégias mais agressivas.
Em termos práticos, o sistema opera numa lógica próxima ao Princípio de Pareto, já que cerca de 20% das instituições respondem por quase 70% da contribuição financeira, enquanto 80% dos eventos de estresse se concentram no restante do sistema.
Tamanho não define risco sistêmico
Há uma confusão recorrente entre tamanho e risco sistêmico.
A quebra de um grande banco seria, sem dúvida, um evento sistêmico. Algo próximo do que o professor americano-libanês Nassim Taleb, célebre por criticar modelos econômicos e estatísticos tradicionais, define como um cisne negro: raro, extremo e potencialmente desorganizador do sistema. Mas justamente por isso é também um evento altamente improvável, cercado por camadas de supervisão, capital regulatório e intervenção preventiva. É o tipo de cenário que se discute em exercícios teóricos, não aquele que consome recursos do FGC no dia a dia.
Já a quebra de instituições menores é outra história. Não é um cisne negro no sentido talebiano. Pelo contrário: é um evento esperado, recorrente e estatisticamente observável ao longo do tempo. São essas quebras “ordinárias”, somadas ano após ano, que drenam o caixa do fundo.
O risco relevante para o FGC não está no colapso improvável de um gigante, mas na repetição previsível de falhas em instituições que operam com modelos mais frágeis, captação agressiva e margens estreitas.
O modelo brasileiro parte da premissa de que a diversificação do sistema dilui o risco agregado. Na prática, isso significa que os grandes bancos funcionam como pilares de estabilidade, enquanto parte do sistema opera sabendo que existe um colchão coletivo para absorver perdas frequentes, porém individualmente pequenas.
Quem deveria pagar mais: quem é maior ou quem gera mais risco?
Do ponto de vista econômico, a resposta é relativamente clara. O custo da segurança sistêmica deveria ser proporcional ao risco marginal gerado ao sistema, não apenas ao volume de captação.
Modelos baseados em risco criam incentivos mais eficientes. Penalizam estratégias excessivamente agressivas, desestimulam arbitragem regulatória e alinham melhor custo e comportamento. O Brasil ainda opera majoritariamente em um modelo baseado em volume. Simples, previsível, mas pouco preciso do ponto de vista de incentivos.
Onde entram as fintechs nessa equação?
Aqui surge outro ponto relevante. Um ponto extremamente relevante.
Fintechs que não são bancos não contribuem diretamente para o FGC. Muitas operam por meio de estruturas regulatórias específicas, como IP, SCD e SEP. IP é a Instituição de Pagamento, que pode oferecer contas e meios de pagamento, mas não pode captar depósitos como um banco tradicional. SCD é a Sociedade de Crédito Direto, autorizada a conceder crédito com capital próprio, sem captar recursos do público.
SEP é a Sociedade de Empréstimo entre Pessoas.
Quando essas fintechs oferecem produtos com “FGC”, normalmente estão utilizando CDBs ou instrumentos emitidos por bancos parceiros. O risco pode ser originado na fintech, mas o custo da garantia recai sobre o banco emissor, que é quem contribui para o fundo.
Parte do risco é distribuída de forma indireta. O funding da proteção, não. O risco se descentraliza. O custo da estabilidade permanece concentrado.
Quem contribui efetivamente para o FGC
Apenas instituições financeiras associadas aportam recursos ao fundo. Bancos comerciais, bancos múltiplos, caixas econômicas e cooperativas de crédito associadas. Fundos de investimento, corretoras, plataformas digitais e fintechs puras não contribuem diretamente.
Isso reforça a concentração do custo da estabilidade no sistema bancário tradicional.
Como o modelo brasileiro se compara ao exterior
Nos Estados Unidos, o FDIC utiliza um sistema de contribuições ajustadas ao risco. Bancos mais arriscados pagam prêmios mais elevados. Instituições mais sólidas são recompensadas com alíquotas menores. Na Europa, o desenho é híbrido, combinando volume e risco, com ajustes progressivos conforme o perfil de cada banco.
O modelo brasileiro é mais simples, mas também mais permissivo. Ele privilegia simplicidade regulatória, mas sacrifica precisão na precificação do risco.
O dilema estrutural do FGC
O FGC brasileiro cumpre bem seu papel como amortecedor sistêmico. Ele reduz a probabilidade de pânico bancário e protege o pequeno investidor de perdas abruptas.
Mas ele não transforma risco em segurança. Não equaliza qualidade de crédito. E não elimina a necessidade de análise. O custo da estabilidade existe. Ele só não aparece de forma explícita para quem olha apenas para a taxa oferecida.
Segundo o último relatório semestral publicado em 2025, o FGC acumulava cerca de R$ 118 bilhões em patrimônio. Cerca de 70% desse volume foi aportado pelos grandes bancos, justamente aqueles que raramente recorrem ao fundo.
Ao mesmo tempo, a quase totalidade dos eventos de intervenção e liquidação se concentra em instituições pequenas e médias, criando um retrato clássico de assimetria: quem menos quebra financia quem mais quebra.
O que precisa ser dito
O FGC não é um selo de qualidade. É um mecanismo de socialização de perdas que não existe para lidar com cisnes negros.
Ele funciona porque alguém paga a conta para amortecer riscos conhecidos, recorrentes e amplamente mapeáveis. E, no Brasil, essa conta recai de forma desproporcional sobre quem menos gera risco.
Entender isso muda a leitura do sistema bancário, das taxas oferecidas e da real natureza do risco que se aceita quando se persegue alguns pontos percentuais a mais. E separa quem confia cegamente no selo de quem entende a engrenagem por trás dele.
O debate relevante, portanto, não é se o fundo funciona, pois sabemos que ele funciona. É quem financia essa estabilidade e quem opera sabendo que ela existe. Taleb alerta que sistemas frágeis não quebram por causa de eventos raros, mas por causa de incentivos mal distribuídos. Quando quem gera mais risco não paga proporcionalmente por ele, o sistema parece estável… até não estar mais.
Entender o FGC por essa ótica não muda apenas a leitura sobre proteção bancária. Muda a forma de enxergar spreads, taxas, fintechs e quem, silenciosamente, sustenta a engrenagem quando algo previsível dá errado.
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