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A “química” entre Lula e Donald Trump poderá render ao Brasil uma posição privilegiada para tirar proveito da “guerra fria” entre Estados Unidos e China. Entre as pautas que devem ser colocadas sobre a mesa de negociações entre Brasília e Washington para a redução do tarifaço está a hipótese de um acordo de cooperação nuclear.
No entendimento do governo Lula, os dois países têm importantes moedas de troca nessa área. A do Brasil está no seu subsolo. Os Estados Unidos cobiçam não apenas terras raras, mas os minerais nucleares brasileiros, especialmente o tório, que deverá ter uma crescente participação na geração de energia – ver RR.
O acesso preferencial a esses recursos seria uma das compensações para Donald Trump rever as tarifas impostas a uma série de produtos brasileiros. Contrapartida por contrapartida, o governo Lula vislumbra a possibilidade de estabelecer uma parceria mais ampla com os Estados Unidos, que seja capaz de turbinar o programa nuclear brasileiro.
Para começo de conversa, o Brasil tem uma usina para terminar de construir. A conclusão das obras de Angra 3, paradas há uma década, exige um investimento da ordem de R$ 23 bilhões, segundo estudos do BNDES. Um eventual acordo bilateral nessa área poderia interessar aos Estados Unidos, pela oportunidade de deslocar interesses chineses em um terreno tão estratégico e sensível quanto a energia nuclear.
O país asiático já deu alguns passos nesse campo. Em julho, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, assinou uma carta de intenções com a estatal chinesa CGN Energy voltada à cooperação técnico-científica em transição energética e ao uso de recursos minerais nucleares do Brasil. A China é também recorrentemente citada como um potencial parceiro para a conclusão de Angra 3. A aproximação com o Brasil nessa área seria uma forma de os Estados Unidos fecharem essa porta para o país asiático.
A parceria com os Estados Unidos poderia levar também à instalação de outras usinas nucleares no Brasil. O então Plano Nacional de Energia 2050, cuja última atualização remonta ao governo Bolsonaro, previa a ampliação dessa matriz energética no país em até 10GWh, o equivalente a nove geradoras do porte de Angra 3.
Porém, ao elaborar o seu Plano Nacional de Energia 2055, a gestão Lula praticamente sumiu com a energia nuclear. Nas 243 páginas do PNE 2050, havia 161 menções ao tema; nas 68 páginas do PNE 2055, existem apenas quatro citações à geração nuclear.
Esse “apagão”, no entanto, não deve ser interpretado como sinal de desinteresse do governo por ampliar o parque nuclear. Muito pelo contrário. Se o assunto esmaeceu no PNE 2055 foi pelo blecaute de recursos, a ponto da própria conclusão de Angra 3 estar sendo continuamente tirada da pauta de reuniões do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE).
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