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Destaque
Se orange is the new black, André Esteves é o novo Eike Batista. O dono do BTG desponta como o que existe de mais próximo do que um dia o Mr. X representou para o capitalismo brasileiro. A semelhança passa pela disposição quase química para o risco, pela agressividade nos negócios, pela competência de venda e pelo acesso privilegiado a autoridades das mais diversas áreas, fundamental para desobstruir caminhos e fazer valer seus interesses – o que, em mais uma similaridade, acabou custando a ambos o dissabor de um par de algemas, coincidência que certamente os dois preferem esquecer. Entre tantos pontos em comum, talvez a diferença mais aguda esteja no método: se Eike era um “labrador farejador de trufas”, como ele mesmo gostava de se definir, Esteves é um caçador-coletador. O dono do antigo Conglomerado X se notabilizou por começar projetos greenfield – e fazer IPOs bilionários de maquetes; já o banqueiro, assim como os humanos predadores do Paleolítico, tem se notabilizado pela capacidade de identificar fragilidades em suas presas e pela voracidade cada vez maior ao atacá-las.
Eike Batista almejava erguer impérios do zero. Almejava, não, almeja. Tem propalado que sua próxima aventura será na área de minerais críticos, para não falar da supercana (a estimativa é produzir até três vezes mais etanol do que a convencional), com a qual promete voltar ao mercado de capitais ao lado de investidores sauditas. É melhor que ninguém duvide. Já André Esteves compra pedaços de territórios decadentes e trincados. É o anti-Warren Buffett. Mas não deixa de ser um oráculo. Suas movimentações normalmente sinalizam para uma segunda, terceira, quarta casa do xadrez. Se Eike encarnou o capitalismo da promessa e da oportunidade, Esteves opera no capitalismo da captura.
Neste momento, Esteves dá novas e inequívocas amostras de que é um Eike com outro estilo, avançando sobre domínios empresariais de terceiros. O banqueiro se movimenta em duas direções. Como um lobo em pele de credor, tomou ações da Light e da Alliança. Ao mesmo tempo, lança suas garras sobre a Raízen. Segundo informações que circulam no mercado, o BTG estaria disposto a colocar até R$ 10 bilhões no negócio, seja por meio de aporte direto, seja mediante a compra e a consequente conversão de créditos contra a empresa. De acordo com uma fonte ouvida pelo RR e ligada a um dos bancos credores, a instituição financeira de Esteves vem comprando dívidas da Raízen em mercado, aumentando seu poder de fogo para uma eventual troca de debt por equity. A depender da engenharia financeira da capitalização, o BTG poderia, inclusive, preparar o terreno para se tornar o principal acionista do grupo a médio prazo, com uma participação superior à dos atuais controladores, Cosan e Shell. Seria algo similar ao gatilho incluído no aporte de capital na própria Cosan. Pelo acordo firmado com Rubens Ometto, o BTG poderá assumir o controle da empresa dentro de cinco anos. Consultado sobre as tratativas para o aporte na Raízen, o BTG não quis comentar o assunto.
Onde a maioria não quer pisar aí mesmo é que André Esteves tem se refestelado. Em uma sequência impressionante, o banqueiro-coletador tem enfileirado aquisições de ativos tratados por muitos como moedas podres. Em maio de 2025, por exemplo, o BTG comprou um pacote de ativos de participações de Daniel Vorcaro, ao valor de aproximadamente R$ 1,5 bilhão. No lote estavam 15,17% da própria Light e de 8,12% na Méliuz, além de outros direitos e ativos financeiros. Também no ano passado, assumiu 49,71% da Veste, holding do varejo de moda dona de marcas como Dudalina e Le Lis. O BTG adquiriu recentemente créditos contra a Invepar, a endividada holding de infraestrutura controlada por Previ, Petros e Funcef, e também vislumbra a possibilidade de entrar em seu capital – como informou o RR. Nesta semana, o banco de Esteves anunciou também a compra de uma participação no Banamex, ao lado de uma série de outros investidores – entre os quais General Atlantic, Blackstone; Liberty Strategic Capital e Qatar Investment Authority (QIA). O padrão se repete: ativos pressionados por dívida, empresas em reorganização, estruturas societárias tensionadas. Onde o mercado vê contágio, o BTG vê desconto. Onde há desconfiança, ele enxerga assimetrias que lhe são favoráveis. Se Esteves não repete o exibicionismo histriônico quase caricato de Eike, tem sua boa dose vaidade e regozijo em relação ao seu modus operandi.
O BTG é também um devorador de precatórios, títulos podres, carteiras de crédito estressado, recebíveis inadimplentes, enfim junk bonds das mais diversas espécies. Sabe-se lá o que Esteves enxerga em tanta moeda putrefata – teriam elas algum valor, por exemplo, para a compra de concessões de infraestrutura em um futuro não muito distante? O fato é que nos últimos anos calcula-se que o banco tenha adquirido mais de R$ 20 bilhões desses papéis em special situation.
Como se vê, raspas e restos interessam ao predador André Esteves. Mas o banqueiro não se limita a eles, vide uma série de outras aquisições colecionadas por ele. Em julho de 2024, por exemplo, o BTG comprou 100% da Sertrading, criando uma frente estruturada em comércio exterior. Em janeiro de 2025, fechou a aquisição do negócio brasileiro do Julius Baer por cerca de R$ 615 milhões, incorporando aproximadamente R$ 61 bilhões em ativos sob gestão. Poucos meses depois, em abril de 2025, adquiriu 100% da área de wealth management da JGP, agregando cerca de R$ 18 bilhões em ativos sob gestão ao seu braço de gestão de fortunas. Em julho de 2025, anunciou a compra das operações do HSBC no Uruguai por US$ 175 milhões, reforçando sua presença regional na América do Sul. Mais recentemente, em janeiro, concluiu a incorporação do M.Y. Safra Bank, passando a ter uma licença bancária para operar nos Estados Unidos. No setor real, associou-se à família Maluf na Eucatex, tornando-se o segundo maior acionista da companhia. Se Eike buscava ser o maior empresário do Brasil e um dos maiores do mundo, Esteves parece satisfeito em ser “apenas” o maior financiador do Brasil — o que o deixa em posições privilegiadas e poderosas para impor seus interesses. Eike é um megalômano; Esteves, um very smart business man.
O que emerge dessa comparação não é uma coleção de investimentos dispersos, mas um desenho coerente: controlar fluxos financeiros, ocupar espaços em empresas descapitalizadas e posicionar-se como credor decisivo em setores estratégicos — energia, infraestrutura, varejo, agronegócio. Esteves não compra apenas ativos – ou os arranca do chão. Compra influência, domínio e poder. Como um caçador-coletador moderno, circunda o alvo, espera o momento certo e aplica o bote. É assim que tem recolhido participações, créditos, direitos, fatias societárias — pedaços que, isoladamente, parecem restos; juntos, formam território. No capitalismo brasileiro, enquanto muitos disputam as clareiras mais iluminadas, Esteves prefere a borda da floresta. É ali que ele caça. O Mr. X construiu seu espetáculo em torno da promessa de grandeza global na economia real – chegou a ser a quarta maior fortuna do mundo -, ao passo que o dono do BTG ergue um projeto de poder a partir de engrenagens financeiras. Eike quase matou banqueiros de raiva, entre os quais o próprio Esteves – existem processos judiciais de um contra o outro. Essas diferenças, dependendo do ângulo, mais os aproximam do que os distanciam. André Esteves é a reencarnação de Eike Batista no mito do empresário absoluto. Poder é a palavra que mais os une. Até mais do que dinheiro. Ambos causam medo, espanto e comparação inevitável. Mas não se iludam, Eike já morreu e ressuscitou várias vezes. Quem não se lembra das aventuras no garimpo, da TermoCeará, que ficou conhecida como “Termoluma, e do potentado do Porto do Açu. É uma competição de alta voltagem e velocidade. A ver o que vem por aí.
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