Assessores de Lula já se preocupam com o “terceiro turno” das eleições

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Assessores de Lula já se preocupam com o “terceiro turno” das eleições

  • 17/07/2026
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Os assessores mais próximos de Lula estão preocupados com o primeiro, o segundo e o terceiro turno da votação. Tão importante quanto vencer nas urnas será ganhar o pós-eleição. Por ganhar o pós-eleição entenda-se uma virada no discurso que permita ao Lula IV sobreviver ao primeiro ano no eventual novo mandato. O ex-ministro Fernando Haddad, o chefe da Secom, Sidônio Palmeira, e o titular da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, estão convictos de que o presidente precisa de uma agenda e uma estratégia de comunicação para enfrentar a inexorável guinada de 2027. Não haverá pacote de bondades, aumento dos programas sociais, crédito direcionado, renegociações de dívidas, transferências de renda, concessões a categorias organizadas e gambiarras parafiscais. Ou seja: o picadeiro eleitoral armado para 2026 será desmontado, sem que isso prejudique o discurso para a malta de que teremos mais do mesmo. No lugar, uma vez reeleito, Lula terá pela frente um inexorável ajuste fiscal – ele próprio já prepara o terreno nessa direção, conforme o RR informou (Leia aqui). O aperto nas contas públicas é consensual dentro do núcleo duro político petista. E ninguém melhor do que o próprio Lula sabe que a saída é essa. Já está calejado do primeiro reinado.

A questão que mobiliza o entorno de Lula não é o que terá de ser feito, mas como fazê-lo. Há um entendimento de que o presidente precisará criar uma comunicação forte logo no início de seu eventual mandato. Um dos caminhos discutidos é buscar um grande acordo nacional, ou um “acórdão patriótico”, juntando as elites industrial, financeira, sindicatos e diferentes setores da sociedade em torno de projetos comuns. Uma espécie de “Pacto de Moncloa brasiliano”. Entre os assessores de Lula, há um certo consenso de que nem adianta mais espremer o “Conselhão”; dali não sobram nem mais gotas a favor do governo.  A agremiação foi criada em 2003 como Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES) e recriada em 2023 com a adição de um “Sustentável” a título de rebranding. No governo, a leitura é que esse colegiado já deu o que tinha de dar – ou melhor, não deu em nada. Desde o início de 2023, houve sete reuniões plenárias. O que foi discutido, decidido e implementado? Nada se viu, nada se ouviu. Repercussão zero. Com mais de 200 membros, o “Conselhão” virou um liquidificador que não gira nem faz barulho.

O certame ainda é um jogo aberto. A campanha sequer começou formalmente. Mas as seguidas turbulências na candidatura de Flávio Bolsonaro, sua recente queda nas pesquisas e a melhora na aprovação do governo Lula têm estimulado discussões nas hostes petistas sobre o day after eleitoral. Parece que falta muito. Mas há que se convir, como diria o pensador Florentino, que o mal se faz de uma vez só. E no início. Nesse contexto, a proposta de um pacto nacional desponta como uma forma de dividir a responsabilidade, o peso e o inevitável descontentamento com os cortes que serão feitos a partir de 2027. As medidas poderiam ser embaladas como uma decisão compartilhada, a partir de um amplo diálogo entre diferentes grupos de interesse. Mesmo que esse diálogo seja pura narrativa. E será…

A vulgata de concertação serviria também como uma espécie de colchão político para amortecer a reação dos grupos atingidos pelo ajuste. O governo sabe que parte relevante da correção fiscal terá de passar pela revisão de renúncias tributárias, subsídios, regimes especiais e vantagens setoriais acumuladas ao longo de anos. Cada benefício suprimido produzirá um foco de resistência; cada exceção eliminada colocará uma bancada, uma associação empresarial, um segmento econômico ou sindical em pé de guerra. O pacto permitiria diluir esse desgaste, pelo menos na primeira hora, enquadrando a retirada de privilégios não como uma decisão isolada do Planalto, mas como parcela de um esforço coletivo em torno da “manutenção do país no prumo, com crescimento, melhoria na renda e emprego”, só para citar os bordões de maior apelo. A estabilização das contas públicas é para ser sentida na pele e no bolso, mas não gritada em megafone. Em vez de Lula aparecer sozinho com a tesoura na mão, os cortes seriam apresentados como parte de uma travessia negociada, com compromissos distribuídos entre governo, capital, trabalho e sociedade. 

Lula IV entraria no jogo repetindo parte do esquema tático do Lula I. Só não há estelionato eleitoral porque ele não prometeu nada que esteja renegando. Nem programa de campanha tem. Ou precisa ter. A mensagem é que será necessário reduzir despesas ineficientes, podar subsídios e enfrentar privilégios, permitindo ao Estado gastar mais e melhor no futuro logo ali adiante sem continuar destinando uma parcela crescente de suas receitas ao pagamento de juros astronômicos e penduricalhos de toda a ordem. O candidato do PT tem cancha de sobra para criar a narrativa do “desperdício zero”. Lula entraria no campo de batalha com um trunfo fora da curva: o PIB do país. As previsões de crescimento, que não superavam em muito a casa do 1,5%, já foram revistas por ninguém menos do que o FMI para 2,4%. Como foi jogado muito dinheiro de helicóptero, cujos efeitos ainda não reverberaram na economia, pensar em um PIB de 2,8% é até razoável. E de 3% não seria nenhuma excentricidade. Se aconteceu em 2026, talvez não seja tão difícil convencer a choldra de que se repetirá em 2027 ou mesmo em 2028, com o jejum dos anos intercalados servindo para purificar o país das malditas despesas que nos amarram e empobrecem.

Sem um choque fiscal existe sempre o risco de rebaixamento pelas agências de rating caso não haja medidas de enfrentamento à deterioração das contas públicas, o que atrapalha na ponta da queda dos juros – hoje, o Brasil se encontra a dois níveis abaixo do grau de investimento nas avaliações da Fitch Ratings e da S&P e a um patamar pela Moody’s. Aliás, o discurso de Lula deve ser às avessas. Não que haja o risco de queda, mas, sim, que está sendo preparado o upgrade do rating. Tudo isso é algo simples de ser dito à Faria Lima, mas não a Marajá do Sena, no Maranhão.

#Lula

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