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O litígio societário na Oncoclínicas deverá escalar mais um degrau. Segundo o RR apurou, a Latache, gestora de Renato Azevedo e dona de 14,6% do capital, e a Associação Brasileira de Investimento, Crédito e Consumo (Abraicc), que representa um conjunto de minoritários detentores de 16%, discutem medidas mais drásticas na disputa contra a norte-americana Centaurus Capital, controladora do fundo Josephina III – principal acionista da empresa, com 31,83%. O que está em jogo é a obrigatoriedade ou não de a Centaurus lançar uma OPA para a aquisição de todas as ações em mercado. A oferta, se realizada, teria valor estimado de aproximadamente R$ 6 bilhões (preço superior a R$ 16 por ação), enquanto as ações ONCO3 são negociadas a cerca de R$ 0,77. Latache e Abraicc avaliam a abertura de um processo arbitral ou mesmo de uma ação judicial. Nesta segunda hipótese, deve sobrar para a própria CVM. De acordo com a mesma fonte, os investidores partiriam para questionar na Justiça a condução do processo administrativo pela autarquia.
Ressalte-se que a Abraicc, em nome dos minoritários, já apresentou reclamações formais à Corregedoria da CVM e à Controladoria-Geral da União, além de pedir ao colegiado da autarquia o afastamento da Gerência de Registros 1 (GER-1), vinculada à Superintendência de Registro de Valores Mobiliários (SRE) da autarquia, da condução do caso. Essa solicitação foi protocolada em maio de 2026, mas a Procuradoria Federal Especializada da CVM rejeitou o pedido de avocação do processo. A associação alegou “quebra objetiva de imparcialidade”, citando, entre outros pontos, o envio de um ofício para endereço incorreto, a concessão de apenas 24 horas para resposta e a falta de acesso integral aos autos naquele momento. Procurada, a Latache não se manifestou. O RR também tentou contato com a Abraicc, mas não obteve retorno até o fechamento desta matéria. Por sua vez, a CVM limitou-se a dizer que “o tema objeto de sua demanda está sendo analisado no âmbito do processo CVM 19957.003474/2025-07” – e que “as áreas técnicas da CVM não comentam casos específicos”.
Segundo a fonte do RR, Latache e Abraicc já trabalham com o cenário de uma derrota no âmbito administrativo, no julgamento na CVM. A percepção da gestora de Renato Azevedo e da entidade é que o colegiado da Comissão deverá referendar o parecer da área técnica emitido em 30 de junho, contrário à necessidade de realização da OPA. O colegiado da CVM ainda julgará o recurso. A Superintendência de Registro de Valores Mobiliários concluiu que a reorganização envolvendo Goldman Sachs – que investiu na Oncoclínicas desde 2015, via fundos Josephina I e II -, Centaurus e seus respectivos fundos de investimento não acionou a cláusula estatutária que obriga a realização de uma oferta quando um investidor supera 15% do capital da Oncoclínicas. A Centaurus alega que já detinha, desde 2018, uma participação econômica indireta superior ao limite estatutário, por meio do fundo Josephina II, um veículo de coinvestimento controlado pelo Goldman Sachs (no qual a Centaurus figurava como sócia oculta com 31,8% de exposição econômica). Sob essa interpretação, a transferência das ações para um veículo exclusivo da gestora – o Josephina III – em novembro de 2024, não representou a entrada de um novo investidor, mas apenas a reorganização e a explicitação de uma posição preexistente. Os minoritários contestam justamente esse ponto. Até novembro de 2024, a Centaurus não aparecia diretamente como acionista da Oncoclínicas. Sua exposição estava abrigada em uma estrutura de coinvestimento comandada pelo Goldman Sachs, que detinha poderes discricionários sobre os ativos. O parecer da CVM reconheceu “zonas de fragilidade” nessa estrutura, mas entendeu que o estatuto não definia o conceito de “direitos sobre as ações” e que a exceção estatutária foi criada justamente para dispensar Centaurus e Goldman Sachs por serem grupos que já integravam a estrutura pré-IPO. A disputa societária ocorre em meio à grave crise financeira da Oncoclínicas. Na última segunda-feira, a empresa entrou com pedido de recuperação extrajudicial, com dívidas financeiras quirografárias da ordem de R$ 5,1 bilhões. É mais uma das tantas chagas abertas pelas fraudes do Master. Fundos ligados ao banco de Daniel Vorcaro chegaram a ter quase 12% da empresa de medicina. Em uma engrenagem financeira circular, que se tornaria marca recorrente das operações do Master, a Oncoclínicas aplicou quase meio bilhão de reais em CDBs da própria instituição.
A operação societária que deveria reforçar o capital da companhia produziu o efeito inverso: deixou dinheiro preso, aprofundou a escassez de liquidez e abriu uma disputa adicional sobre as ações mantidas pelos veículos ligados ao Master. O rolo se refere ao aumento de capital de R$ 1,5 bilhão homologado em maio de 2024, do qual o Master subscreveu R$ 1 bilhão e o investidor Bruno Ferrari, fundador da companhia, R$ 500 milhões. Desse montante, parte foi aplicada pela própria Oncoclínicas em CDBs do Master. Dona de mais de 140 unidades em 40 cidades e receita líquida próxima de R$ 5,7 bilhões em 2025, a maior rede privada de tratamento de câncer da América Latina tenta respirar, após registrar prejuízo de R$ 3,67 bilhões no ano passado e ver seu caixa ser comprimido pela inadimplência de clientes e pela restrição de crédito de fornecedores.
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