Tesouro naturaliza o ajuste fiscal de Lula antes da campanha eleitoral

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Tesouro naturaliza o ajuste fiscal de Lula antes da campanha eleitoral

  • 6/07/2026
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Caso seja reconduzido ao Palácio do Planalto, Lula poderá ser acusado de tudo, menos de promover um estelionato eleitoral contra os seus, notadamente o próprio PT. Há um rigoroso ajuste fiscal já engatilhado e devidamente sinalizado para 2027. A guinada no eventual Lula IV não está sendo urdida debaixo dos panos. Muito pelo contrário. Desta vez, nem será necessária uma Carta ao Povo Brasileiro, como em 2002, lançada de supetão pelo então candidato petista com compromissos solenes de preservação da estabilidade econômica a contragosto do PT. O governo já começou a preparar o terreno, às claras, para um inevitável corte de despesas a partir de 2027, diante do reconhecimento de que o atual desenho das contas públicas simplesmente não fecha mesmo. Os economistas do PT, com suas notórias heterodoxias, vão chiar? Bem, terão dois trabalhos: se descabelar e depois tirar o pente do bolso. A situação de Lula nunca foi tão “cômoda” para contrariar o partido, se não do ponto de vista das contas públicas, no aspecto político. Seu principal álibi é o próprio Tesouro Nacional.

Se ainda havia um véu sobre o desatino fiscal, ele foi retirado pelo Tesouro Nacional em relatório divulgado na semana passada. O trabalho tem o som de um alarme. E é para ser mesmo. O Tesouro mostra, por A mais B, que, mantidas as regras atuais e a legislação em vigor, o governo não conseguirá cumprir nem mesmo o piso da banda da meta de resultado primário entre 2028 e 2030, ou seja, praticamente todo o mandato presidencial. Trata-se de uma mudança relevante. Até então, o discurso oficial concentrava-se na defesa do arcabouço fiscal e na expectativa de que o crescimento econômico e o reforço da arrecadação seriam suficientes para sustentar a trajetória das contas públicas. Agora, o próprio Tesouro reconhece que isso não basta. E o diz de forma grave. Mesmo considerando contingenciamentos de R$ 66,6 bilhões em 2028, R$ 68,4 bilhões em 2029 e R$ 59,6 bilhões em 2030, o governo continuaria abaixo da meta. Para atingir apenas o limite inferior da banda, seriam necessárias medidas adicionais equivalentes a R$ 10 bilhões em 2028, R$ 80,6 bilhões em 2029 e R$ 136,4 bilhões em 2030.  O relatório do Tesouro coloca o dedo nas feridas. As despesas obrigatórias, especialmente Previdência, Benefício de Prestação Continuada (BPC), seguro-desemprego e os pisos constitucionais de saúde e educação, continuam crescendo acima do espaço permitido pelo regime fiscal. Na prática, sobra cada vez menos dinheiro para investimentos, manutenção da máquina pública e políticas discricionárias.  

Há um fator adicional de pressão, que torna o ajuste fiscal ainda mais inescapável: o aumento da dívida bruta. Segundo dados divulgados pelo Banco Central na semana passada, o endividamento alcançou 81,1% do PIB em maio, o nível mais alto em cinco anos. A projeção do Boletim Focus é que chegará a 83,36% do PIB ao fim deste ano, batendo no patamar de 100% do PIB em 2035. Pela metodologia do FMI, a dívida bruta fechará 2026 em 94,3% do PIB, com estimativa de atingir 106,5% do PIB em 2031. Basicamente, dívida bruta se reduz de três formas: superávit primário, expansão do PIB e juros mais baixos. As duas últimas hipóteses não parecem ser a mais prováveis. De acordo com o Focus, o PIB previsto para 2027 é de 1,68%, abaixo da estimativa de 1,99% para este ano. Na avaliação dos agentes financeiros, o crescimento da economia subiria apenas um tiquinho em 2028 e 2029 – 2% em cada um desses anos. Ainda de acordo com o Focus, a Selic chegará a 10% no fim de 2029, contra uma previsão de 14% para dezembro deste ano. Pode até representar um alívio em relação à taxa atual, mas os juros reais, pela estimativa do Focus, ainda seriam elevados em 2029 – 6,5%, o suficiente para manter o Brasil no segundo lugar do tenebroso ranking, atrás apenas da Rússia. Ou seja: restaria apenas a opção do superávit primário para a redução da dívida bruta. O próprio Lula tem sinalizado que haverá um ciclo contracionista logo ali na frente. Recentemente, por exemplo, ao sancionar o decreto que formalizou o bloqueio de R$ 23,7 bilhões do Orçamento, o presidente assumiu pessoalmente o custo da medida. O discurso tem sido reforçado por membros da equipe econômica. Em maio, ao anunciar um bloqueio adicional de R$ 22,1 bilhões no Orçamento — elevando para R$ 23,7 bilhões o total de recursos bloqueados em 2026 —, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, fez questão de afirmar que Lula orientou a equipe econômica a acompanhar “de maneira muito rigorosa” tanto as receitas quanto as despesas. No mesmo evento, o ministro do Planejamento, Bruno Moretti, foi ainda mais explícito ao afirmar que o bloqueio decorreu do avanço das despesas obrigatórias e que o governo dispõe hoje de instrumentos para garantir o cumprimento das regras fiscais, ressaltando que a contenção de gastos se tornou necessária para acomodar a expansão dessas despesas.  Dias depois, Durigan reforçou a mensagem ao defender que “as coisas têm que caber dentro do Orçamento” e advertir que o governo não pode continuar “contratando problemas para a frente”. Em outra oportunidade, usou uma expressão pouco comum em governos petistas: disse que seria preciso “cortar na própria carne”. Não são declarações isoladas. Elas fazem parte de uma estratégia de comunicação que prepara gradualmente o ambiente político para decisões mais duras. 

 

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