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Como conter a depreciação dos ativos eleitorais de Lula que, historicamente, sempre fizeram diferença nas urnas? Esse é o dilema que ricocheteia no entorno do presidente, particularmente na cabeça do ministro chefe da Secom, Sidônio Palmeira. Pesquisas qualitativas encomendadas pelo Palácio do Planalto têm mostrado de forma dura e crua que o capital simbólico acumulado por Lula durante décadas já não opera como gerador automático de votos. Ao menos não na proporção necessária. Nas sondagens sobre as quais está debruçado, Sidônio identificou três pontos de preocupação para as hostes petistas. O primeiro deles é o esvaziamento do que sempre foi o núcleo celular do lulismo: as políticas sociais. Bolsa Família, BPC, Tarifa Social de Energia Elétrica, Minha Casa, Minha Vida, Farmácia Popular, Vale Gás, ProUni, Pé-de-Meia… Todas essas políticas compensatórias já são percebidas como direito adquirido. Ao se tornarem parte do “estado natural das coisas”, deixam de produzir gratidão política. Mesmo a ampliação dos repasses não se converte linearmente em fidelização porque o eleitor de baixa renda já internalizou o benefício. E narrativas terroristas, de que o adversário A ou B extinguirá determinada benesse, não colam mais. Jair Bolsonaro passou e as concessões sociais não foram cortadas. Pelo contrário.
Some-se o fato de que efeitos cumulativos de corrosão, como a inflação – especialmente de alimentos, energia e serviços básicos –, desidratam a percepção de prosperidade. Por outro lado, há o efeito de que, mesmo que Lula tenha dado de benefícios granel e Bolsonaro praticado políticas sociais de forma minúscula e muito eventualmente, o estoque de carências da população é tão grande e cresce com tanta rapidez que lembra a fábula do menino e o dique. Havia uma parede de contenção de um rio. De repente surgiu, um pequeno vazamento. O menino colocou o seu dedo para tampá-lo. Nisso, a pressão da água estourou outro vazamento ainda maior. O garoto colocou o outro dedo, e mais uma vez um novo buraco se abriu. E assim sucessivamente. O povo são as águas. Os buracos, a queda na aprovação popular e a perda de votos.
O segundo vetor escancarado nas pesquisas é o endurecimento ideológico. A polarização deixou de ser circunstancial e se tornou identitária. O jogo do “nós” contra “eles”, ou de “comunistas” x “fascistas” está dado. Com isso, há pouca margem para deslocamento de votos. A quantidade de eleitores que se oferecem para serem convencidos do contrário é cada vez menor. É um problema especialmente para Lula, que terá pouco espaço de crescimento do primeiro para o segundo turno. Ao contrário de Flavio Bolsonaro, que muito provavelmente terá na rodada decisiva o reforço maciço de votos que se espalharam por outros candidatos do campo da direita. Portanto, a eleição tende a ser menos sobre convencimento e mais sobre mobilização de base. O eleitorado disposto a atravessar o Rubicão ideológico encolheu drasticamente.
Essa variável se cruza com o terceiro vetor que emerge das pesquisas do Palácio do Planalto: Lula tem um problema de “brand”. À exceção de Leonel Brizola, com quem dividiu os votos da esquerda em 1989, e de FHC, o petista quase nunca precisou concorrer com marcas políticas à sua altura. Esse cenário mudou com a entrada em cena de Jair Bolsonaro. Queira-se ou não, o sobrenome Bolsonaro é uma grife eleitoral, vide a transferência de votos para Flavio Bolsonaro. O “01” já aparece na última pesquisa Genial/Quaest com 31% no primeiro turno e 38% no segundo, contra, respectivamente, 38% e 43% de Lula. Assim como o petista entregou um pacote fechado de votos para Fernando Haddad em 2018, Flavio já mostrou que a loja da Kopenhagen não é a única franquia em sua vida. Hoje, ele é o master-franqueado do brand Bolsonaro nas urnas, aparecendo como o recebedor dessa herança simbólica.
A maior evidência da erosão da marca Lula é a perda de popularidade no Nordeste. Na mesma pesquisa Genial/Quaest, divulgada no último dia 11, a aprovação do seu governo na região caiu para 61%, contra 67% no levantamento anterior, em janeiro. O fenômeno é atribuído a diversos fatores: avanço das igrejas evangélicas, maior penetração de redes sociais com discurso conservador, desgaste econômico e emergência de lideranças locais menos alinhadas automaticamente ao PT. A essa altura, o que menos importa para a campanha lulista é mapear as causas da infecção, mas reduzir seus sintomas. A questão é como? No Planalto, espera-se que, com uma taxa de juros real da ordem de 8% (projeção para dezembro de 2026), o cenário melhore um pouquinho em relação à atual taxa real da ordem de 10,5% a 11%. Mesmo caindo do atual patamar, a taxa básica ainda será a segunda ou maior terceira do mundo.
O que as pesquisas acompanhadas por Sidônio Palmeira sugerem é uma mudança de ciclo. Lula não perdeu seu patrimônio político, mas já não opera em regime de monopólio simbólico. Seu capital deixou de ser multiplicador automático. Em mercados competitivos, ativos não desvalorizam apenas por fracasso — desvalorizam quando o ambiente muda. E o ambiente eleitoral brasileiro mudou: menos transferência emocional, mais identidade rígida; menos gratidão retrospectiva, mais disputa de narrativa em tempo real. A eleição de 2026, nesse contexto, tende a ser menos uma reedição do passado e mais uma disputa por eficiência de marca e retenção de base. Lula ainda lidera, mas sob pressão estrutural. E Flávio Bolsonaro, é bom que se lembre, ainda não começou a fazer suas promessas eleitoreiras nem para os brasileiros e brasileiras, notadamente aos do Nordeste, curral eleitoral de Lula. Por ora, o que se tem é que o presidente da República começou sua “campanha” sambando com o pé esquerdo. A homenagem a Lula terminou no rebaixamento da Acadêmicos de Niterói no carnaval carioca.
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