Chineses e norte-americanos espreitam a porta de entrada na Eletronuclear

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Chineses e norte-americanos espreitam a porta de entrada na Eletronuclear

  • 1/07/2025
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A disputa entre China e Estados Unidos por ativos em energia nuclear parece estar chegando no Brasil. Ao menos é o que indicam as movimentações da Eletrobras para a venda da sua participação acionária na Eletronuclear, equivalente a 36% do capital votante e a 68% do capital total. Pelos lados de Pequim, há conversações com a China National Nuclear e a China General Nuclear Power.

A investida dos chineses não chega a soar exatamente como novidade. Entre os 37 acordos bilaterais firmados durante a visita de Xi Jinping ao Brasil, em novembro do ano passado, consta uma cooperação estratégica em energia nuclear. O que mais chama a atenção é a entrada em cena de empresas norte-americanas.

Westinghouse e Holtec despontam como candidatas à compra da participação da Eletrobras na Eletronuclear. A primeira, não custa lembrar, está na raiz do programa nuclear brasileiro, sendo responsável pela construção da usina Angra 1.  A Holtec, por sua vez, tem conquistado nos últimos anos uma posição cada vez maior no tabuleiro do setor.

Neste momento está preparando o que promete ser o maior IPO de uma companhia da área nuclear em mais de uma década, com valuation superior a US$ 10 bilhões e uma oferta na casa de US$ 2 bilhões. A Holtec, ressalte-se, já atua na Eletronuclear como prestadora de serviço. A empresa concebeu, construiu e opera a solução a seco para armazenamento de combustível irradiado das usinas de Angra.

A entrada da Holtec na Eletronuclear poderia, inclusive, destravar um projeto do Ministério de Minas e Energia para ampliar essa matriz energética no país: o uso de SMRs (Small Modular Reactors). Conforme o próprio RR revelou, o governo brasileiro abriu tratativas com a França para a compra desses equipamentos, mas as conversas não andaram até o momento.

Os SMRs têm aproximadamente 10% do tamanho de um reator convencional de uma usina atômica. Como o nome sugere, são modulares, de fácil transporte, instalados diretamente no local onde a energia será gerada e consumida. A Holtec é uma das maiores fabricantes mundiais do equipamento. O uso de SMRs está em alta no mundo por conta do crescimento da IA.

Os data centers que suportam grandes computadores demandam enormes quantidades de energia. Por essa razão, a adoção dos Small Modular Reactors tem se tornado uma alternativa cada vez mais interessante para as big techs, como Google e congêneres.

A exemplo do que ocorre em tantos outros setores, Estados Unidos e China têm travado um duelo por maior influência no setor de energia nuclear, uma competição que passa por desenvolvimento tecnológico, cadeia de suprimentos e exportações. Um dos movimentos mais recentes dessa contenda se deu no início de junho, quando o governo Trump suspendeu as licenças para os fabricantes de equipamentos nucleares norte-americanos venderem para usinas chinesas. Em maio, um grupo de senadores dos Estados Unidos, formado tanto por democratas quanto por republicanos, apresentou um projeto propondo uma nova estratégia nacional para o setor.

O ponto central é a criação de mecanismos de financiamento com recursos públicos para impulsionar as exportações de tecnologia e de equipamentos para usinas nucleares. Esse é um flanco que Estados Unidos e China disputam palmo a palmo. Nesse contexto, tanto para os norte-americanos quanto para os chineses, a entrada no capital da Eletronuclear seria uma forma de fincar o pé no Brasil e engendrar um novo mercado para a venda de equipamentos e serviços.

Adquirir a fatia da Eletrobras significa se tornar sócio do Estado brasileiro e automaticamente influir nas políticas de governo para a geração de energia nuclear. Ressalte-se que há um fato novo com poder magnético suficiente para unir todas as peças espalhadas nesse tabuleiro – governo, Eletronuclear e players estrangeiros. Na semana passada, o Banco Mundial e a AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) assinaram um acordo para o financiamento de projetos de energia nuclear em países em desenvolvimento.

Será a volta do organismo multilateral ao setor depois de mais de 60 anos. A decisão abre uma nova perspectiva – talvez a possibilidade mais concreta – para a retomada da construção de Angra 3, paralisada há uma década. A parceria com o Banco Mundial e a garantia de funding para o projeto seriam um atrativo a mais para a entrada de um player estrangeiro no capital da Eletronuclear. Essa configuração, inclusive, aumentaria a probabilidade de associação com uma empresa norte-americana, devido à notória influência dos Estados Unidos na agência multilateral.

Por ora, são conjecturas a partir de movimentos que ocorrem quase que simultaneamente. De certeza mesmo, o que se tem é que, sem recursos externos, a obra de Angra 3 seguirá na prancheta das boas intenções e em discursos políticos vazios – na última quarta-feira, o presidente Lula voltou a “cobrar” o ministro Alexandre Silveira pela retomada do projeto. De acordo com estudo recente do BNDES, são necessários mais de R$ 23 bilhões para a conclusão de Angra 3.

O governo incluiu a usina no “Novo PAC” e nada aconteceu. A própria Eletrobras, que, por determinação do edital de privatização, tinha obrigação de investir na usina, livrou-se desse encosto atômico. O governo abriu mão dessa imposição no âmbito do recente acordo que lhe rendeu assentos a mais no Conselho da ex-estatal.

Aliás, o “compromisso” da gestão Lula com o aumento da produção de energia nuclear pode ser medido pela impressionante acefalia no setor. A presidência da ENBPar (Empresa Brasileira de Participações em Energia Nuclear e Binacional), controladora da Eletronuclear, está vaga após a eleição de Silas Rondeau como um dos representantes da União no conselho da Eletrobras. A Nuclep, que produz equipamentos, também tem uma cadeira vazia na sua presidência, após a demissão de Carlos Henrique Seixas. E a própria Eletronuclear está prestes a virar uma nau sem comandante – o atual presidente, Raul Lycurgo já anunciou sua saída.  

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