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Há uma condicionante no processo de venda do laboratório Medley que está criando arestas nas negociações. Trata-se da exigência da francesa Sanofi de que o comprador mantenha os 850 funcionários da companhia por pelo menos um ano. A cláusula tem provocado resistência entre os interessados no ativo. Nos bastidores do processo, potenciais compradores argumentam que o dispositivo limita a possibilidade de capturar sinergias logo após a aquisição e reduz a flexibilidade para integrar a operação à estrutura já existente. O desconforto é especialmente visível no caso da EMS, principal fabricante de genéricos do país e um dos nomes apontados como candidato ao negócio. A empresa mantém uma grande planta industrial em Hortolândia, cidade vizinha a Campinas, onde fica a fábrica da Medley. Essa proximidade geográfica, que em princípio seria um trunfo logístico, também evidencia possíveis redundâncias administrativas, comerciais e operacionais que naturalmente seriam alvo de integração caso a compra se concretize. A obrigação de manter toda a força de trabalho por um período mínimo, dizem interlocutores do setor, atrasaria esse processo. São arestas que precisam ser aparadas até o dia 13, data estipulada pela Sanofi para receber as propostas pela Medley. Procurado pelo RR, o grupo francês informa que “está avaliando opções estratégicas para o negócio de genéricos Medley, com o objetivo de apoiar seu crescimento sustentável e sucesso de longo prazo. Desde o anúncio do processo de independência da Medley, em agosto de 2025, a companhia vem analisando oportunidades com potenciais parceiros estratégicos alinhados a essa visão”. Também consultada, a EMS não se manifestou.
A Tupy, uma das maiores indústrias de metalurgia da América Latina, se tornou uma frente de batalha entre investidores e, em última instância, o próprio governo. Segundo o RR apurou, a Charles River, dona de 6,7% do capital, está se articulando junto a outros acionistas, entre os quais dois grandes fundos de private equity, com o objetivo de confrontar o BNDESPar e a Previ, que detêm 57%. De acordo com a mesma fonte, a gestora pretende acionar a CVM com o objetivo de frear interferências diretas do governo na gestão da companhia. No mercado, há relatos de que os minoritários também discutem a possibilidade de entrar na Justiça, com base nos artigos 116 e 117 das Lei das S/A. O entendimento é que BNDESPar e Previ têm extrapolado limites do exercício regular do poder de controle, atuando de forma coordenada para impor decisões estratégicas e de governança. Mais do que isso: a Tupy teria virado um títere corporativo do governo.
Em contato com o RR, a Charles River confirmou que “novas medidas — como a eventual formação de bloco com outros acionistas minoritários ou ações no âmbito da CVM ou judicial — serão avaliadas caso a caso, à luz do mesmo princípio fiduciário e da busca de geração de valor para as companhias e para os nossos investidores”. A gestora disse ainda ao RR que “entende que seu dever fiduciário é atuar sempre no melhor interesse de seus investidores. Cabe lembrar que, nesse cabo de guerra com BNDESPar e Previ, a Charles River sofreu uma derrota recente. Na última assembleia geral de acionistas da Tupy, realizada na sexta-feira de Carnaval, os acionistas, leia-se o braço de participações do BNDES e o fundo de pensão, rejeitaram a proposta da gestora de incluir no estatuto da companhia “requisitos mínimos de elegibilidade” para administradores. Na prática, seria uma trava para restringir indicações políticas ao conselho de administração. Só que o cadeado foi arrancado pelos acionistas majoritários. A Tupy tem se revelado uma mini-Vale.
O paralelo se deve aos questionamentos dos acionistas à governança, ou talvez seja o caso de dizer “desgovernança”, da empresa. Os minoritários contestam as seguidas interferências do governo federal na companhia, notadamente na indicação de conselheiros. No último mês de dezembro, os acionistas aprovaram a nomeação dos ministros da Defesa, José Mucio, e da Controladoria Geral da União (CGU), Vicente Carvalho, para o Conselho de Administração, além do secretário-executivo da Secretaria de Comunicação Social da Presidência, Tiago Santos, para o Conselho Fiscal. Antes já tinham passado pelo board a ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, e o então ministro da Previdência Social, Carlos Lupi.
Os atritos societários na Tupy ganharam intensidade no ano passado com a controversa troca de comando da companhia. Após quase uma década à frente da empresa — e mais de 30 anos de carreira dentro do grupo — Fernando Rizzo foi substituído por Rafael Lucchesi, então presidente do Conselho de Administração do BNDES. A mudança foi articulada pelos dois principais acionistas da metalúrgica, BNDESPar e Previ. A decisão surpreendeu o mercado e provocou reação imediata de investidores minoritários, que questionaram tanto o processo de escolha quanto o perfil do substituto. Sob a gestão de Rizzo, a Tupy havia conduzido uma estratégia de internacionalização e diversificação relevante, incluindo aquisições como a da operação de fundição da Teksid, da Stellantis, e da fabricante de motores MWM, movimentos que reposicionaram a empresa em direção à transição energética e ampliaram sua presença global.
Em tempo: enquanto os acionistas se digladiam, os resultados da Tupy têm apresentado alguns pequenos pontos de corrosão. Entre janeiro e setembro de 2025 – último balanço disponível -, a receita líquida ficou em R$ 7,5 bilhões, queda de 8% em relação a igual período no ano anterior. A empresa registrou ainda prejuízo de R$ 28 milhões, frente a um lucro de R$ 180 milhões nos nove primeiros meses de 2024. O Ebitda, por sua vez, caiu quase à metade – de R$ 926 milhões para R$ 498 milhões. São números que em nada ajudam a desanuviar o ambiente societário.
O contencioso entre a família Bertin e Aneel deverá ganhar mais voltagem. O Grupo Bertin avalia uma ofensiva judicial contra a recente decisão da agência reguladora de manter a revogação de 22 outorgas de térmicas arrematadas em 2008. A estratégia, segundo interlocutores do setor, passa por questionar a proporcionalidade das penalidades, buscar a suspensão da execução de garantias contratuais e discutir o alcance das multas recalculadas pela agência. Mais do que tentar reverter a perda das autorizações, o foco agora é limitar danos patrimoniais e evitar que o caso se converta em um passivo estrutural de longo prazo.
A aposta jurídica pode envolver pedidos de tutela de urgência para travar efeitos imediatos da decisão regulatória, além de recursos para reabrir a discussão sobre cronogramas, obrigações contratuais e critérios de penalização. Advogados ouvidos reservadamente avaliam que o grupo deve sustentar tese de desproporcionalidade e eventual desequilíbrio regulatório, argumentando que circunstâncias operacionais e conjunturais afetaram os prazos originais dos projetos.
O pano de fundo é a recente decisão tomada pela Aneel. A diretoria da agência, ao cumprir determinação judicial que exigia reavaliação do caso, manteve a caducidade das outorgas das usinas térmicas do grupo. Paralelamente, deliberou pelo recálculo das multas aplicadas, ajustando critérios de penalidade, mas sem afastar a sanção principal — a perda das autorizações de geração. Com isso, a agência reafirmou o entendimento de que houve descumprimento contratual relevante, com atrasos considerados incompatíveis com o interesse público e com a segurança do planejamento do sistema elétrico. A manutenção da cassação sinaliza rigor regulatório e reforça a mensagem de que cronogramas de implantação são cláusulas centrais, não acessórios negociáveis.
A frustrada tentativa de fusão entre a Kepler Weber e a norte-americana GSI não se deveu apenas a desavenças com a Grain & Protein Technologies (GPT), controladora desta última. O que se diz no mercado é que a operação teria esbarrado também em divergências entre os próprios acionistas da empresa brasileira, a família Heller e a Trígono Capital. Nos bastidores da negociação, a falta de sintonia entre os dois investidores teria se acentuado nas semanas finais do processo. Há informações de que a GPT defendia um desenho societário ainda mais profundo para a operação, que poderia culminar no fechamento de capital da Kepler Weber, com a sua saída do Novo Mercado. A Trígono Capital, dona de 15,3% da empresa, era aliada na viabilização da transação. A proposta, no entanto, encontrou resistência relevante entre os Heller, detentores de 11,5% do capital. No entendimento da família, que historicamente mantêm ligação com a trajetória da Kepler Weber, o fechamento de capital reduziria significativamente a liquidez do investimento e concentraria ainda mais o poder de decisão nas mãos do novo controlador. Agora, porém, essa discussão já é página virada, assim como a fusão com a GSI, que criaria um grupo com mais de 40% da estrutura privada de armazenamento de grãos do Brasil sob o seu guarda-chuva. Com o colapso das negociações, a questão que passa a ocupar o radar do mercado é outra: como será a convivência entre os Heller e a Trígono, que demonstraram visões distintas sobre o futuro da companhia.
O ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, vem mantendo desde o fim de semana interlocução direta com grandes frigoríficos nacionais, notadamente JBS, MBRF e Minerva Foods, e com representações diplomáticas do Brasil no Oriente Médio. Fávaro discute com o setor privado e o Itamaraty medidas emergenciais na tentativa de mitigar o impacto dos conflitos na região sobre as exportações de carne bovina. Segundo informações filtradas pelo RR, entre as ações já em curso está a criação de um grupo de monitoramento logístico, com participação do próprio Ministério das Relações Exteriores, do Ministério dos Portos e Aeroportos e de armadores internacionais para avaliar as consequências do bloqueio do Estreito de Ormuz no fluxo do produto. Na Pasta da Agricultura se debate também a eventual adoção de mecanismos financeiros de apoio à cadeia da proteína animal, como a ampliação de cobertura de seguro de crédito à exportação via ABGF/Seguro de Crédito à Exportação (SCE) e eventual flexibilização de garantias pelo BNDES Exim para operações com importadores da região. Há receio de que o conflito afete sistemas de pagamento, prazos e custo de financiamento das tradings locais.
Também está no radar a possibilidade de negociações sanitárias e comerciais aceleradas com mercados alternativos dentro do próprio bloco islâmico, para compensar eventual retração de compradores diretamente afetados pelo conflito. Seria uma forma de manter o fluxo para o chamado mercado halal sem depender exclusivamente dos países mais expostos às tensões militares. Um dos exemplos mais claros é a Indonésia, apontada pela própria indústria como “novo mundo” para a carne brasileira: em 2025, os embarques ao país cresceram 176% em volume e 145,5% em valor na comparação com 2024, segundo dados do ComexStat/MDIC. Trata-se da maior população muçulmana do planeta, com forte dependência de importações de proteína.
Em 2025, as exportações brasileiras de carne bovina para os países árabes somaram US$ 1,79 bilhão. Egito respondeu por US$ 375,35 milhões (+24,5%), Arábia Saudita por US$ 333,10 milhões (+29,9%) e Argélia por US$ 286,58 milhões (+40,5%). Esses três mercados formam hoje um tripé capaz de absorver volumes adicionais por meio de ajustes no mix de cortes, reforço de estoques e maior previsibilidade contratual. Além disso, entram no radar países como Malásia, Bangladesh e Paquistão, que combinam população numerosa, certificação halal estruturada e menor correlação geopolítica com o Golfo. No Norte da África, Marrocos surge como alternativa complementar, especialmente se houver avanços tarifários e sanitários. A lógica é clara: pulverizar risco e reduzir a dependência de rotas concentradas no Estreito de Ormuz, mantendo o fluxo halal ativo mesmo sob tensão regional.
De acordo com as discussões conduzidas pelo Ministério da Agricultura, a necessidade e a dosimetria das medidas de apoio dependerão basicamente de duas variáveis: a intensidade e a duração do conflito no Oriente Médio. Desde já, a preocupação do Ministério da Agricultura e dos players do setor é potencializada pelo timing. Por uma perversa coincidência, os ataques se multiplicam justamente no momento em que o Brasil vem empreendendo um esforço comercial para aumentar as vendas de carne bovina na região como forma de compensar o novo regime de cotas anunciado pela China. Ou seja: a guerra no Oriente Médio desponta como o baque dentro do baque, diante da já precificada queda dos embarques para o mercado chinês. Neste ano, a carne bovina brasileira terá direito, naquele país, a uma janela da ordem de 1,1 milhão de toneladas sem tarifa adicional. Significa um queda de 35% em relação aos embarques totais feitos em 2025, cerca de 1,7 milhão de toneladas. Como o novo sistema imposto por Pequim, o excedente às cotas está sujeito a uma sobretaxa de 55%.
Os números de 2025 ajudam a calibrar o tamanho do colchão disponível. Considerando os 22 países da Liga Árabe, as compras de carne bovina do Brasil somaram US$ 1,79 bilhão no ano, e os maiores destinos em valor foram Egito (US$ 375,35 milhões), Arábia Saudita (US$ 333,10 milhões) e Argélia (US$ 286,58 milhões). Embora Emirados e Catar apareçam com frequência como hubs comerciais e de redistribuição na região, o dado público mais consolidado para 2025, no recorte bovino, está concentrado nesses grandes compradores do bloco árabe — o que reforça porque Riad volta a ser prioridade sanitária e comercial no radar do governo e do setor privado.
A BRK Ambiental, leia-se Brookfield, é apontada no setor como forte candidata ao leilão de saneamento em Goiás marcado para o próximo dia 25. Ao todo, serão licitadas três PPPs englobando um pacotão de 216 municípios, com investimento somado de R$ 6,3 bilhões. Ressalte-se que a BRK já atua no estado, sendo responsável pela operação de água e esgoto nas cidades de Aparecida de Goiânia, Trindade, Jataí e Rio Verde. A possível ampliação dos domínios em Goiás acrescenta mais uma curva aos ziguezagues da companhia. Não é de hoje que a Brookfield, dona de 70% do capital, ensaia reduzir ou até mesmo vender integralmente a sua participação no negócio. No fim do ano passado, a BRK protocolou na CVM um pedido de IPO, que prevê tanto uma oferta primária quanto secundária de ações. É a segunda tentativa de abertura de capital em pouco mais de três anos. Ainda assim, mesmo com as incertezas que pairam sobre a permanência ou não do gigante canadense, a BRK tem enfileirado novas concessões. Mais do que isso: vem protagonizando alguns dos principais bids do setor. No fim de 2025, por exemplo, em consórcio com a espanhola Acciona, arrematou o maior lote no leilão de saneamento de Pernambuco, assumindo a operação em Recife, Fernando de Noronha e outros 149 cidades, com a obrigatoriedade de R$ 15,4 bilhões em investimentos.
O governo Lula anda a passos de quelônio no setor ferroviário. Enquanto a repactuação de grandes contratos de concessão, casos de Carajás e da Vitória Minas, com a Vale, e da Ferrovia Centro-Atlântica, leia-se VLI, empacam, resta se contentar com operações menores. Ao menos um contrato ferroviário parece estar bem engatilhado para atualização antes do fim de sua outorga. A Ferrovia Tereza Cristina (FTC), concessionária que opera 164 km de malha no Sul de Santa Catarina, entrou na fase de audiência pública da ANTT sobre prorrogação antecipada do contrato de concessão, indicando que uma renovação está sendo preparada antes mesmo do vencimento formal do prazo original, previsto para 2027. A FTC é controlada por um bloco de acionistas privados que inclui Santa Lúcia Concessões Públicas Ltda., Administração e Empreendimentos Vasone Ltda. e Apply Comércio e Empreendimentos Ltda.
Há um forte bochicho no mercado de que a BlackRock voltou a comprar ações da Marcopolo. A maior gestora de recursos do mundo, com mais de US$ 14 trilhões em ativos, já teria algo em torno de 6% do capital preferencial da fabricante de carrocerias brasileira. A tese de investimento dos norte-americanos se baseia na posição estratégica da Marcopolo diante do inexorável ciclo de renovação de frotas de transporte público no Brasil e na América Latina na esteira da descarbonização das frotas. Some-se o fato de que a empresa combina geração consistente de caixa, histórico de distribuição de dividendos e múltiplos considerados atrativos frente a pares internacionais do setor industrial. A perspectiva positiva faz com que a BlackRock passe por cima até mesmo de números um tanto quanto frustrantes da empresa no ano passado. O Ebitda somou R$ 1,506 bilhão, queda de 7,3% em relação a 2024. A margem Ebitda, por sua vez, recuou de 18,9% para 16,6% no mesmo intervalo de comparação.
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