Redação RR - Relatório Reservado

Artigos: Redação RR

Quanto o “valuation” internacional de Lula pode render nas urnas?

3/03/2026
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O ministro-chefe da Secretaria de Comunicação, Sidônio Palmeira, tem se reunido com o assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, Celso Amorim, o vice-presidente, Geraldo Alckmin, e os ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, da Fazenda, Fernando Haddad, e da Casa Civil, Rui Costa – os dois últimos de saída do governo -, para discutir como valorizar a performance de Lula no exterior em sua campanha eleitoral. Missão difícil. Não porque os acertos do presidente nessa área sejam poucos. Não são, particularmente nesse seu terceiro mandato. A questão é até que ponto e, sobretudo, como transpor a política externa do governo Lula, algo mais árido e de comunicação pouco popular, para a campanha. Há algumas inegáveis vantagens nessa narrativa: a primeira é que o Itamaraty, capitaneado por Lula, acertou muito nessa terceira fase do seu governo, o que até a oposição reconhece; a segunda é que o registro desses fatos tem a vantagem de colocar o presidente bem no centro das iniciativas, o que do ponto de vista audiovisual é um valioso insumo para ações de marketing. O que não falta são imagens de Lula sendo incensado por chefes de Estado de todo o mundo. Sidônio pretende também explorar o relato das viagens, com os assuntos tratados, os acordos assinados e seu impacto para o país.

Segundo o RR apurou, há, inclusive, discussões no Palácio do Planalto sobre a produção de um livro, que seria assinado por Amorim, Haddad (neste caso, a publicação serviria também para sua própria campanha eleitoral em São Paulo) e Alckmin – o vice-presidente desfruta de prestígio junto a entidades empresariais internacionais e, por efeito rebote, a nacionais. Mais do que a obra em si, o trunfo da iniciativa seria gerar fatos e agendas, com a realização de lançamentos em capitais com maior densidade eleitoral e mesmo fora do Brasil. Como peça de propaganda, o livro seria uma espécie de continuidade do filho de Dona Lindu alçado ao status de “Ivanhoé do mundo”. Exagero por exagero, talvez faça mais sentido do que um enredo-exaltação na Marques de Sapucaí.

Os pontos acima refletem o lado positivo – e ufanista – das discussões travadas no Palácio do Planalto. Sidônio Palmeira está convicto de que o Lula que aparece lá fora pode ser um bom cabo eleitoral do Lula que pedirá voto aqui dentro. Mas a ideia tem suas contraindicações, ainda que potencialmente de menor alcance. Os tropeços de Lula na política externa certamente serão usados pela oposição. Uma das questões sensíveis que está no radar de Sidônio é a polêmica fala do presidente, em fevereiro de 2024, ao comparar as ações de Israel em Gaza ao Holocausto. O episódio levou o governo de Benjamin Netanyahu a declarar Lula persona non grata. Como resposta, o Brasil retirou seu embaixador de Israel. É um prato que muito provavelmente será requentado pela campanha de Flavio Bolsonaro.

Mas, prato por prato, Sidônio parte do princípio de que o cardápio de Lula na política externa é muito bem servido, o que justifica sua estratégia de dar uma dimensão maior ao tema na campanha eleitoral. A “química” com Donald Trump, até então um patrimônio político que o clã Bolsonaro evocava como seu, o consequente alívio do tarifaço sobre uma série de produtos brasileiros, o balão de ensaio do Nobel da Paz, as propostas de pacificação internacional… São todos ativos de Lula na agenda externa. O desafio de Sidônio é converter o “valuation” internacional do presidente no que realmente interessa: voto. Uma das mensagens que já pululam na Secom é mostrar como a diversificação do comércio exterior, a partir de conquistas diplomáticas do governo Lula, contribuíram para a queda da inflação.

A crescente confusão geopolítica e a disposição de Lula para manter interlocução permanente com seus pares internacionais serviriam para aumentar o fermento da narrativa em torno das conquistas do Brasil no exterior. O presidente avançou, e muito, ao optar pela defesa do multilateralismo, no momento em que ele sangra pelas punhaladas de Trump, das causas que incluem meio ambiente e pobreza, e da diversificação dos mercados mundiais, abrindo uma picada para reduzir em alguma parcela a dependência na balança comercial com a China.

#Lula

Fundo saudita quer ampliar seus domínios na cadeia da proteína no Brasil

3/03/2026
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Em meio ao acirramento das tensões no Oriente Médio, espocam no mercado informações sobre o interesse do Saudi Agricultural and Livestock Investment Company (Salic) em aumentar sua participação no capital da Minerva Foods. O fundo ligado à família real da Arábia Saudita já é o maior acionista individual da companhia, com 30%, à frente dos Vilela de Queiroz, sócios fundadores, que concentram cerca de 22%. Além de questões de ordem geopolítica, qualquer movimento do Salic chama ainda mais atenção pela sua dupla presença no tabuleiro da proteína animal no Brasil. Além da fatia acionária da Minerva, o fundo árabe tem ligações econômicas com a MBRF, de Marcos Molina. O Salic detinha 11% da antiga BRF e trocou as ações por derivativos da nova empresa por ocasião da sua fusão com a Marfrig.

Essa dupla presença confere ao Salic uma posição singular no xadrez da proteína animal brasileira. Ao manter cerca de 30% da Minerva e exposição econômica relevante à MBRF por meio de derivativos, o fundo saudita passa a orbitar dois dos principais polos exportadores de carne do país — bovina, no caso da Minerva, e diversificada (aves, suínos e bovinos), no caso da nova companhia liderada por Marcos Molina. Trata-se de uma vantagem estratégica evidente: amplia o acesso a diferentes cadeias produtivas, dilui riscos operacionais e permite ao investidor capturar ganhos em ciclos distintos de preços e margens.

#Minerva Foods

Enquanto a venda não sai, Americanas enxuga operação do Hortifruti

3/03/2026
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Quanto mais a rede Hortifruti Natural da Terra encalha na gôndola, menor ela vai ficando. A Americanas, sua controladora, tem feito sucessivos cortes de lojas. De uma só tacada, fechou pontos de venda no Rio de Janeiro e encerrou a operação da rede varejista no Espírito Santo. No setor, há relatos de que o grupo poderá interromper também as atividades da rede varejista em Minas Gerais. Restariam sobre o balcão pouco mais de 60 lojas em São Paulo e Rio de Janeiro – há pouco mais de dois anos eram quase 80 unidades. Na prática, a Americanas está cortando nervos e gorduras para vender apenas o filé mignon da bandeira varejista que um dia pertenceu à dobradinha Bozano Investimentos/ Paulo Guedes. Até o momento, está difícil passar o ponto adiante. Desde o estouro da fraude contábil, em janeiro de 2023, a Americanas já abriu ao menos dois processos de venda da Hortifruti Natural da Terra. O segundo se desenrola desde agosto do ano passado. Pretendentes existem: Oba, Advent, Zona Sul, Pátria e a chilena Cencosud já sondaram o grupo. Esta última teria avançado mais nas conversas com a Americanas. O problema é que, ao menos até o momento, a companhia de Jorge Paulo Lemann, Beto Sicupira e Marcel Telles não conseguiu chegar nem perto do que pagou pelo controle do Hortifruti em 2021 – cerca de R$ 2,1 bilhões. Procurada pelo RR, a Americanas não se manifestou até o fechamento desta matéria.

#Hortifruti

Amin articula apoio a Ratinho Junior como vendeta aos Bolsonaro

3/03/2026
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O senador Espiridião Amin (PP-SC) tem se movimentado nos bastidores para costurar o apoio do PP, ao menos de lideranças do Sul, à eventual candidatura de Ratinho Junior (PSD) à Presidência da República. Seria uma vendeta a Jair Bolsonaro e sua prole. O clã lançou os nomes de Carol de Toni e de Carlos Bolsonaro, ambos do PL, na disputa ao Senado por Santa Catarina. Com isso, rompeu o acordo anterior que previa o apoio à candidatura de Amin à reeleição. De quebra, seria uma resposta do decano da política catarinense também ao governador Jorginho Mello (PL). Amin considera ter sido traído por Mello, que embarcou na manobra em prol de Carol de Toni e Carluxo. Amin e dirigentes da federação União Progressista (PP + União Brasil) avaliam que a aproximação com o projeto de Ratinho Júnior poderia fortalecer a coligação centro-direita no Sul. A ver.

#Jair Bolsonaro

O outro Paulo: Rabelo de Castro desponta como o “Posto Ipiranga” de Flavio

2/03/2026
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O elo perdido entre Flavio e Jair Bolsonaro, o novo Posto Ipiranga, parece ter sido encontrado. Segundo uma fonte do RR, umbilicalmente ligada à campanha do candidato de oposição à Presidência, o Paulo Guedes da vez é o economista Paulo Rabello de Castro, ex-presidente do BNDES e reputado consultor empresarial. De acordo com a mesma fonte, Rabello tem mantido conversas iniciais com Flavio, e há empatia entre ambos. Do ponto de vista da adequação às circunstâncias, o economista é quase um achado. É bem recebido pelo mercado e tem o apoio irrestrito do setor agropecuário. Foi flexível em sua passagem pelo BNDES para acariciar a indústria, assumindo que também aceita o papel fomentador do banco. Assim como Paulo Guedes, teve sua formação acadêmica na Universidade de Chicago, o que, por um certo fetiche, faz uma razoável diferença junto ao setor financeiro, vulgo Faria Lima. Rabello é quase um sinônimo de Guedes. A diferença gritante é o temperamento mercurial do Posto Ipiranga em sua versão original. Guedes é um sujeito explosivo, enquanto Rabello é jeitoso e se notabiliza por um discurso de acomodação das partes. Por isso mesmo, tem maior aderência à imagem e ao comportamento de Flavio, o mais contido dos integrantes do clã bolsonarista.

Se Rabello — ao contrário do verdadeiro Posto Ipiranga, o empresarial, que está sendo rifado pelo Grupo Ultra — se firmar como o grande candidato ao Ministério da Fazenda, pode ser um grande trunfo para a campanha de Flávio. O “01” daria continuidade à trajetória do pai, com um homônimo do ministro de Jair Bolsonaro. O ex-ministro Roberto Campos, mestre de ambos, dizia que a diferença entre os dois “Paulos” era somente o sobrenome. O “P” de ambas as nomenclaturas iniciais, por si só, já era uma extensão da sincronicidade do pensamento dos dois economistas.

#Flavio Bolsonaro

O avanço nada silencioso da Inpasa sobre a Vibra

2/03/2026
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Corre no mercado que o empresário José Odvar Lopes, dono da Inpasa, voltou a comprar volumes significativos de ações da Vibra em Bolsa. Por meio de diferentes veículos de investimento, Lopes já teria mais de 12% do capital, consolidando-se como o maior acionista individual da antiga BR Distribuidora. O que antes surgia sob forma de mera suposição agora já ganha contornos de algo inexorável: tudo leva a crer que o empresário planeja indicar integrantes para o Conselho e conquistar influência direta na gestão da Vibra.

Há, inclusive, relatos ouvidos pelo RR de que Lopes tem mantido tratativas com outros acionistas minoritários da Vibra na tentativa de articular um bloco de votos coordenado para assembleias gerais e disputas futuras de assentos no conselho de administração. Procurada pelo RR, a Inpasa não se manifestou.

José Odvar Lopes encontrou caminho aberto para avançar no capital da Vibra. Essa estrada foi pavimentada, sobretudo, pelo Cade. Em meados de fevereiro, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica aprovou sem restrições o investimento de Lopes na companhia. A área técnica do órgão antitruste entendeu que, não obstante a integração vertical entre produção de etanol e distribuição, não haveria capacidade nem incentivo econômico para fechamento de mercado ou discriminação de concorrentes. A linha é tênue. A Vibra é a maior distribuidora de etano do país; a Inpasa, por sua vez, é uma das maiores produtoras. Minoritários da Vibra já manifestaram preocupação à Comissão de Valores Mobiliários sobre possíveis conflitos de interesse e implicações de governança decorrentes da interseção societária entre as duas empresas.

Com a crescente escalada no capital da Vibra, José Odvar Lopes poderá costurar por dentro uma aproximação da companhia com a Inpasa, fazendo com que ambas avancem em sinergias comerciais e estratégicas no mercado de etanol e combustíveis renováveis. Se essa convergência se consolidar, o empresário poderá, na prática, dissolver o muro informal que hoje mantém as companhias em campos distintos, alinhando produção e distribuição sob uma lógica de coordenação estratégica cada vez mais estreita. Seria quase uma fusão. Aonde Lopes pretende chegar ao investir na Vibra? A resposta parece cada vez mais clara.

#Inpasa

Valora testa a “primavera” dos Fiagros

2/03/2026
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Após um período de forte estiagem – e de quase demonização -, os Fiagros (Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais) estão voltando a florescer. Que o diga a Valora. Há informações no mercado de que a gestora já teria assegurado demanda para o follow-on de R$ 400 milhões do seu fundo listado na B3, o VGIA11. Com isso, o patrimônio do veículo de investimento saltará para cerca de R$ 1,2 bilhão. Ressalte-se que a oferta ainda poderá subir mais R$ 100 milhões, com a emissão de cotas adicionais. E não é só: na paralela, a Valora lançou recentemente um novo Fiagro, o Valora Agro Pré I, com o objetivo de captar R$ 450 milhões. No caso do VGIA11, a carteira é composta majoritariamente por CRAs e outros títulos estruturados da cadeia produtiva, com foco em operações pulverizadas e garantias reais. Já o Valora Agro Pré I foi estruturado no modelo master-feeder, permitindo maior flexibilidade na alocação em diferentes instrumentos do agronegócio, como CRAs, LCAs e CPRs.

#Fiagros

Portas abertas para os infiéis partidários?

2/03/2026
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O STF vai retomar nos próximos dias o julgamento da ADI 6574, que discute se os detentores de cargos majoritários — presidente, governador, prefeito e senador — devem perder o mandato por infidelidade partidária quando se desfiliam sem justa causa do partido pelo qual foram eleitos. O que se ouve nos corredores do Supremo é que há uma inclinação entre os integrantes da Corte em acompanhar o voto do relator, o ex-ministro Luís Roberto Barroso. O ex-togado votou pela improcedência do pedido e pelo entendimento de que a regra de perda de mandato não se aplica aos eleitos pelo sistema majoritário, sob pena de violação da soberania popular e da vontade expressa pelo eleitor nas urnas. Ou seja: a cassação se restringe aos cargos proporcionais (deputados federais e estaduais e vereadores).

#Luis Roberto Barroso

Novidade: livros instigantes para 2027

27/02/2026
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Por falar na matéria comparativa entre André Esteves e Eike Batista publicada hoje pelo RR, ela enseja um comunicado institucional, no qual o espaço para divulgação parece perfeitamente cabível. A Insight Comunicação, que desde o início da sua trajetória se especializou também na publicação de livros de arte e nas biografias de grandes personalidades, notadamente os principais construtores do Estado Moderno Brasileiro – Eliezer Batista, Mario Henrique Simonsen, José Luiz Bulhões de Pedreira, Eugênio Gudin, Sobral Pinto e tantos outros – decidiu fazer um spin off dessa atividade. Com previsão para outubro, vai nascer a Insight Editorial. Esse novo braço surge com uma proposta inteiramente diferente de romancear os empresários, políticos e grandes autoridades que fizeram seu percurso de mãos dadas, colaborando um com o outro, e também se posicionando em um radical comportamento adverso. Uma novidade é que os livretos sempre acompanharão a performance de uma dupla. Sim, sempre dois gigantes que mudaram a história. Para o bem ou para o mal.
Desde sua criação, há mais de 40 anos, a Insight Comunicação soma um portfólio de mais de 80 livros e 20 títulos próprios, com aproximadamente 2.300 edições. Entre elas, está a conhecida Insight Inteligência, uma referência entre as publicações congêneres – se é que há uma publicação congênere no país. Para se ter uma ideia, Insight Inteligência é a revista com o maior número de qualificações no Qualis do Capes. Mais de 1.100 articulistas já escreveram na publicação. É a nata do pensamento brasileiro. É mais fácil perguntar quem não escreveu do que quem escreveu.
As histórias serão contadas em livretos de fácil leitura, centrados mais na trajetória romanesca de cada um do que em aspectos técnicos das suas vitórias e insucessos. A Insight Editorial já tem farto material para publicação dos seus pocket books. Um dos livretos, é possível adiantar desde já, contará a relação de articulações, gratidão e poder paralelo entre o general Golbery do Couto e Silva e o dono da Casa de Saúde Santa Lucia, o médico Guilherme Romano, que tratava da saúde frágil de Dona Esmeralda, esposa do bruxo do regime militar. Outro projeto em voga é uma dobradinha envolvendo Jorge Serpa e um mítico grande conspirador. Há material importante sobre o “lobisomem” – apelido de Serpa – disponibilizado pelo ex-ministro Raphael de Almeida Magalhaes, cuja biografia foi produzida por Insight Comunicação. Raphael deixou um portfólio de textos, além de relatos orais, capazes de reescrever trechos da história do Brasil.
Mas a análise comparativa de André Esteves e Eike Batista chama a atenção devido a sua contemporaneidade. É definitivamente um romance de capa e espada financeiro e de conquista superlativa de poder. Por isso, deverá ser o primeiro da fila das duplas que a nova Insight Editorial pretende publicar em seus livretos.
Aguardem os bons, curtos e palpitantes contos dessas dobradinhas imperdíveis, com verdadeiras aulas das conspirações vistas por dentro e revelações e informes que farão o leitor repensar a história brasileira.

#Insight Editorial #Livros

Eike 2.0: André Esteves reencarna o mito do empresário absoluto

27/02/2026
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Se orange is the new black, André Esteves é o novo Eike Batista. O dono do BTG desponta como o que existe de mais próximo do que um dia o Mr. X representou para o capitalismo brasileiro. A semelhança passa pela disposição quase química para o risco, pela agressividade nos negócios, pela competência de venda e pelo acesso privilegiado a autoridades das mais diversas áreas, fundamental para desobstruir caminhos e fazer valer seus interesses – o que, em mais uma similaridade, acabou custando a ambos o dissabor de um par de algemas, coincidência que certamente os dois preferem esquecer. Entre tantos pontos em comum, talvez a diferença mais aguda esteja no método: se Eike era um “labrador farejador de trufas”, como ele mesmo gostava de se definir, Esteves é um caçador-coletador. O dono do antigo Conglomerado X se notabilizou por começar projetos greenfield – e fazer IPOs bilionários de maquetes; já o banqueiro, assim como os humanos predadores do Paleolítico, tem se notabilizado pela capacidade de identificar fragilidades em suas presas e pela voracidade cada vez maior ao atacá-las.

Eike Batista almejava erguer impérios do zero. Almejava, não, almeja. Tem propalado que sua próxima aventura será na área de minerais críticos, para não falar da supercana (a estimativa é produzir até três vezes mais etanol do que a convencional), com a qual promete voltar ao mercado de capitais ao lado de investidores sauditas. É melhor que ninguém duvide. Já André Esteves compra pedaços de territórios decadentes e trincados. É o anti-Warren Buffett. Mas não deixa de ser um oráculo. Suas movimentações normalmente sinalizam para uma segunda, terceira, quarta casa do xadrez. Se Eike encarnou o capitalismo da promessa e da oportunidade, Esteves opera no capitalismo da captura.

Neste momento, Esteves dá novas e inequívocas amostras de que é um Eike com outro estilo, avançando sobre domínios empresariais de terceiros. O banqueiro se movimenta em duas direções. Como um lobo em pele de credor, tomou ações da Light e da Alliança. Ao mesmo tempo, lança suas garras sobre a Raízen. Segundo informações que circulam no mercado, o BTG estaria disposto a colocar até R$ 10 bilhões no negócio, seja por meio de aporte direto, seja mediante a compra e a consequente conversão de créditos contra a empresa. De acordo com uma fonte ouvida pelo RR e ligada a um dos bancos credores, a instituição financeira de Esteves vem comprando dívidas da Raízen em mercado, aumentando seu poder de fogo para uma eventual troca de debt por equity. A depender da engenharia financeira da capitalização, o BTG poderia, inclusive, preparar o terreno para se tornar o principal acionista do grupo a médio prazo, com uma participação superior à dos atuais controladores, Cosan e Shell. Seria algo similar ao gatilho incluído no aporte de capital na própria Cosan. Pelo acordo firmado com Rubens Ometto, o BTG poderá assumir o controle da empresa dentro de cinco anos. Consultado sobre as tratativas para o aporte na Raízen, o BTG não quis comentar o assunto.

Onde a maioria não quer pisar aí mesmo é que André Esteves tem se refestelado. Em uma sequência impressionante, o banqueiro-coletador tem enfileirado aquisições de ativos tratados por muitos como moedas podres. Em maio de 2025, por exemplo, o BTG comprou um pacote de ativos de participações de Daniel Vorcaro, ao valor de aproximadamente R$ 1,5 bilhão. No lote estavam 15,17% da própria Light e de 8,12% na Méliuz, além de outros direitos e ativos financeiros. Também no ano passado, assumiu 49,71% da Veste, holding do varejo de moda dona de marcas como Dudalina e Le Lis. O BTG adquiriu recentemente créditos contra a Invepar, a endividada holding de infraestrutura controlada por Previ, Petros e Funcef, e também vislumbra a possibilidade de entrar em seu capital – como informou o RR. Nesta semana, o banco de Esteves anunciou também a compra de uma participação no Banamex, ao lado de uma série de outros investidores – entre os quais General Atlantic, Blackstone; Liberty Strategic Capital e Qatar Investment Authority (QIA). O padrão se repete: ativos pressionados por dívida, empresas em reorganização, estruturas societárias tensionadas. Onde o mercado vê contágio, o BTG vê desconto. Onde há desconfiança, ele enxerga assimetrias que lhe são favoráveis. Se Esteves não repete o exibicionismo histriônico quase caricato de Eike, tem sua boa dose vaidade e regozijo em relação ao seu modus operandi.

O BTG é também um devorador de precatórios, títulos podres, carteiras de crédito estressado, recebíveis inadimplentes, enfim junk bonds das mais diversas espécies. Sabe-se lá o que Esteves enxerga em tanta moeda putrefata – teriam elas algum valor, por exemplo, para a compra de concessões de infraestrutura em um futuro não muito distante? O fato é que nos últimos anos calcula-se que o banco tenha adquirido mais de R$ 20 bilhões desses papéis em special situation.

Como se vê, raspas e restos interessam ao predador André Esteves. Mas o banqueiro não se limita a eles, vide uma série de outras aquisições colecionadas por ele. Em julho de 2024, por exemplo, o BTG comprou 100% da Sertrading, criando uma frente estruturada em comércio exterior. Em janeiro de 2025, fechou a aquisição do negócio brasileiro do Julius Baer por cerca de R$ 615 milhões, incorporando aproximadamente R$ 61 bilhões em ativos sob gestão. Poucos meses depois, em abril de 2025, adquiriu 100% da área de wealth management da JGP, agregando cerca de R$ 18 bilhões em ativos sob gestão ao seu braço de gestão de fortunas. Em julho de 2025, anunciou a compra das operações do HSBC no Uruguai por US$ 175 milhões, reforçando sua presença regional na América do Sul. Mais recentemente, em janeiro, concluiu a incorporação do M.Y. Safra Bank, passando a ter uma licença bancária para operar nos Estados Unidos. No setor real, associou-se à família Maluf na Eucatex, tornando-se o segundo maior acionista da companhia. Se Eike buscava ser o maior empresário do Brasil e um dos maiores do mundo, Esteves parece satisfeito em ser “apenas” o maior financiador do Brasil — o que o deixa em posições privilegiadas e poderosas para impor seus interesses. Eike é um megalômano; Esteves, um very smart business man.

O que emerge dessa comparação não é uma coleção de investimentos dispersos, mas um desenho coerente: controlar fluxos financeiros, ocupar espaços em empresas descapitalizadas e posicionar-se como credor decisivo em setores estratégicos — energia, infraestrutura, varejo, agronegócio. Esteves não compra apenas ativos – ou os arranca do chão. Compra influência, domínio e poder. Como um caçador-coletador moderno, circunda o alvo, espera o momento certo e aplica o bote. É assim que tem recolhido participações, créditos, direitos, fatias societárias — pedaços que, isoladamente, parecem restos; juntos, formam território. No capitalismo brasileiro, enquanto muitos disputam as clareiras mais iluminadas, Esteves prefere a borda da floresta. É ali que ele caça. O Mr. X construiu seu espetáculo em torno da promessa de grandeza global na economia real – chegou a ser a quarta maior fortuna do mundo -, ao passo que o dono do BTG ergue um projeto de poder a partir de engrenagens financeiras. Eike quase matou banqueiros de raiva, entre os quais o próprio Esteves – existem processos judiciais de um contra o outro. Essas diferenças, dependendo do ângulo, mais os aproximam do que os distanciam. André Esteves é a reencarnação de Eike Batista no mito do empresário absoluto. Poder é a palavra que mais os une. Até mais do que dinheiro. Ambos causam medo, espanto e comparação inevitável. Mas não se iludam, Eike já morreu e ressuscitou várias vezes. Quem não se lembra das aventuras no garimpo, da TermoCeará, que ficou conhecida como “Termoluma, e do potentado do Porto do Açu. É uma competição de alta voltagem e velocidade. A ver o que vem por aí.

#BTG Pactual

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