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Spoiler do que pode vir a ser um dos primeiros projetos de José Dirceu na Câmara caso venha a ser eleito deputado federal: o ex-ministro tem discutido com economistas do seu entorno a proposta de mudança na composição do Conselho Monetário Nacional (CMN). A ideia, segundo interlocutores próximos a Dirceu, é ampliar o colegiado responsável por decisões centrais da política econômica, a começar pela definição da meta de inflação. Hoje, o CMN é formado pelos ministros da Fazenda e do Planejamento e pelo presidente do Banco Central, conforme prevê a Lei nº 4.595/1964. De uma maneira geral, o presidente do BC é quem tem o cetro na mão. Ele é também aquele que tende a vocalizar mais as posições do mercado. O diagnóstico ao redor de Dirceu é que esse desenho acaba refletindo, na prática, uma visão excessivamente aderente à lógica das instituições financeiras. O ponto central – e maior motivador do projeto – é justamente a fixação da meta de inflação, em torno da qual orbita toda a política monetária. Na visão do ex-ministro da Casa Civil, da maneira como é a sua composição, o CMN não consegue captar todas as variantes políticas, institucionais e mesmo econômicas que deveriam ser contempladas na definição do inflation target – juros elevados, impacto sobre crédito, emprego, investimento e crescimento econômico. Tem sentido. A questão passou a ser tratada de forma canônica. É como se a inflação no Brasil tivesse que ser a mesma da Suíça, Inglaterra, Croácia e Bélgica independentemente das diferenças estruturais crônicas e circunstanciais. O atual índice de 3% parece ter sido fixado com um único propósito: o de inviabilizar o cumprimento da meta. Mais do que isso: o draconiano sarrafo engessa a política monetária e empurra o Banco Central contra a parede, forçando-o a ter uma atuação restritiva, com os juros reais permanentemente no top three do mundo.
A proposta em discussão no círculo próximo a José Dirceu não seria retomar o modelo antigo do CMN nos anos 70 e 80, quando o colegiado tinha uma composição ampla e sortida, com diversos representantes do setor privado.
Esse formato também produzia suas distorções, ao abrir espaço para interesses diretamente afetados pelas decisões monetárias e de crédito, o que também era uma forma de criar vieses setoriais ou mesmo corporativos. O que se discute agora é outra organização, que passaria pela inclusão de dois ou eventualmente mais membros da academia, escolhidos por notório saber, figuras capazes de ampliar o debate sem transformar o CMN em arena deste ou daquele grupo de interesse. Entre os nomes citados hipoteticamente por interlocutores dessa corrente estão, por exemplo, Armínio Fraga e Sergio Werlang. De fato, seria um luxo para qualquer governo ouvi-los.
Werlang, em especial, teria simbolismo adicional por ser o criador do regime de metas inflacionárias. E Fraga tem tido posições menos ortodoxas e levado em consideração outras demandas da sociedade. A fonte do RR disse que Fraga, quando era presidente do BC, e o então influente economista, Edward Amadeo, ex-ministro do Trabalho e secretário de política econômica do Ministério da Fazenda no governo FHC, também eram da opinião de que o CNN deveria ser remodelado, digamos assim. Werlang tem um pé no mercado financeiro, mas é extremamente técnico e com pruridos acadêmicos acentuados que impediriam, em tese, de defender causas da Faria Lima que fossem eminentemente contagiadas pela pressão dos grandes rentistas do país. A presença de economistas dessa estirpe certamente tornaria o CMN um ambiente formulador e decisório mais plural. Um ou outro economista de corrente distinta também poderia ser chamado, mantido o critério de alta respeitabilidade. Esse modelo não seria uma reinvenção da roda. Por longos anos, o professor Octávio Gouvêa de Bulhões foi membro permanente do CMN. Primeiro, entre 1964 e 1967, na condição de ministro da Fazenda. Posteriormente, teve cadeira cativa no Conselho, de forma ininterrupta, de 1974 a 1990.
A atual composição do CMN é razoavelmente recente na história: o triunvirato Fazenda/Planejamento/BC é, de certa forma, um rebento do Plano Real, ao menos do ponto de vista cronológico. Passou a valer a partir de 1994, com a MP 542, posteriormente convertida na Lei 9.069/95. Nos seus primórdios, o Conselho contava ainda com os ministros da Indústria e Comércio, da Agricultura e do Interior, além dos presidentes do BNDES, do BNH (Banco Nacional de Habitação) e da CVM. Em determinado momento, entre os anos 80 e 90, chegou a abrigar ainda os ministros do Trabalho, do Desenvolvimento Urbano, da Infraestrutura e da Previdência Social. Mais fácil dizer quem não participava. Além disso, havia ainda a presença de representantes das classes trabalhadoras, do empresariado, como Abilio Diniz, Paulo Cunha e João Carlos Paes Mendonça, e do sistema financeiro – Amador Aguiar, Gastão Eduardo de Bueno Vidigal, Olavo Setubal e Angelo Calmon de Sá são alguns dos exemplos.
O debate tem alto potencial de combustão política. Mexer na composição do CMN significa alterar a engrenagem institucional que conecta Fazenda, Planejamento, Banco Central e regime de metas, ou mesmo transferir para sua alçada decisões que hoje estão alocadas a outras áreas, tais como o recolhimento compulsório dos depósitos bancário. Todas elas com repercussão forte impacto macroeconômico. Não se trata apenas de acrescentar cadeiras a um colegiado, mas de rediscutir quem participa da calibragem da política monetária no país. Para Dirceu e seus assessores para assuntos econômicos, o ponto é exatamente esse: se a independência do BC tornou a autoridade monetária onipresente, o CMN teria de ser redesenhado como contrapeso institucional ao poder de divindade terrena do BC, voltando a ser um órgão fundamental para a vascularidade das decisões econômicas que impactam crescimento, crédito, emprego e investimento. O risco, quando se trata de uma hipotética reeleição de Lula e de uma iniciativa de José Dirceu, comandante in pectore do PT, é entrar na recomposição do CMN um representante da classe trabalhadora ou da sociedade, levando para o Conselho um viés contaminado pela ideologia.
O RR apurou que a Aegea e a Orizon negociam uma associação na área de gestão de resíduos sólidos. Segundo fontes próximas às duas empresas, as tratativas envolvem a combinação de ativos de destinação final, notadamente aterros sanitários. O acordo contemplaria ainda projetos de valorização de resíduos, leia-se geração de energia a partir de biogás. Ou seja: alcançaria de ponta a ponta a cadeia econômica dos resíduos, da coleta e tratamento de lixo à sua monetização energética. Trata-se, portanto, de um negócio que, já na partida, pode chegar a uma receita líquida anualizada de R$ 3,6 bilhões e a um Ebitda da ordem de R$ 1,2 bilhão. A aproximação entre as duas companhias se dá em meio a um processo de consolidação de um setor já bastante concentrado. Que o digam os próprios controladores da Orizon, Milton Pilão Jr. e Ismar Assaly, respectivamente CEO e chairman da empresa. A companhia protagonizou, no último mês de dezembro, uma das maiores operações de M&A já realizadas nesse mercado: a compra da Vital, junto à Queiroz Galvão, por R$ 3 bilhões. Com a aquisição, a Orizon praticamente duplicou de tamanho: saiu de 18 para 30 aterros sanitários e atingiu cerca de R$ 3 bilhões de receita anual e Ebitda na casa de R$ 1 bilhão. Procurada pelo RR, a Aegea não quis comentar o assunto. Também consultada, a Orizon não retornou até o fechamento desta matéria.
A Aegea, leia-se Equipav, GIC, fundo soberano de Cingapura e a família Setúbal, também fez um movimento agudo ano passado: a aquisição da Ciclus Ambiental, até então pertencente à Simpar, de Fernando Simões, por R$ 1,9 bilhão – R$ 1,1 bilhão em equity value e R$ 800 milhões em dívidas. Com isso, assumiu o CTR Seropédica, o maior centro de tratamento de lixo do Brasil e uma planta responsável pela produção de 60% de todo o biometano de resíduos consumido no país. Um ótimo negócio? Sim, mas até a página 3. O que se diz no mercado é que a Aegea pagou caro pelo ativo e agora precisa remontar o negócio com um parceiro que entende do riscado, como é o caso da Orizon. Além disso, como se sabe, a empresa de saneamento do trio Equipav, GIC e Setúbal não vive um momento dos mais prósperos. Há muitos resíduos financeiros a serem removidos. A Aegea enfrenta uma crise de confiança no mercado, impulsionada, sobretudo, pela sua alavancagem. A relação dívida líquida/Ebitda bateu em 3,78 vezes no fim de 2025, aproximando-se do máximo de quatro vezes fixado nas cláusulas de financiamento. Nesse contexto, a eventual associação com a Orizon seria também uma forma de dividir a conta dos investimentos no negócio de aterros sanitários e preservar liquidez. Mais do que isso: seria uma maneira de a Aegea manter exposição a um ativo estratégico sem carregar sozinha não apenas o capex, mas também a curva de aprendizado e o risco de execução de um negócio que, embora adjacente ao saneamento, tem dinâmica própria. Para a Orizon, por sua vez, a associação teria outro apelo: acesso a um dos ativos mais cobiçados do setor e eventual reforço em uma frente de negócios — valorização energética dos resíduos — que pode se tornar cada vez mais relevante na composição de margem das empresas de destinação final. Ou seja: é um jogo de ganha-ganha.
Uma nova frente de batalha entre a Oi e seus credores está se abrindo. Os bondholders da companhia – leia-se o trio Pimco, Ashmore e SC Lowy – se articulam para contestar judicialmente a venda da Oi Soluções. A ideia é entrar com ações tanto na Justiça brasileira quanto em Nova York. A alegação é que o ativo está sendo subavaliado, o processo competitivo é insuficiente e, sobretudo, de que a destinação dos recursos pode ferir a ordem de prioridades prevista no plano de recuperação judicial. A Oi Soluções é vista como uma das últimas “joias da coroa” da companhia. A unidade reúne contratos com grandes empresas e órgãos públicos, além de operações em conectividade, nuvem e serviços digitais. Estimativas de mercado apontam valor de R$ 1,5 bilhão. O recebimento das propostas foi marcado para 17 de junho.
A venda está estruturada no modelo de UPI (Unidade Produtiva Isolada), mecanismo que permite a transferência sem sucessão de passivos. Embora isso aumente o interesse de potenciais compradores, também abre espaço para contestação, caso os credores entendam que o formato favorece determinados investidores ou reduz o valor de recuperação.
A ofensiva dos credores tem um certo ar de déjà vu – aliás, como quase tudo tratando-se de uma empresa que está na sua segunda recuperação judicial, como é o caso da Oi. A reação do trio Pimco, Ashmore e SC Lowy amplifica uma batalha judicial que perpassa também a venda da participação da operadora de telefonia na V.tal. Os bondholders tentam barrar a transferência da empresa de fibra óptica para o BTG.
O AL5 Amaggi, banco da família Maggi, está semeando os próximos passos do seu projeto de expansão. Depois de avançar no crédito ao agro e iniciar operações de CPR em dólar, a instituição avalia novas frentes de maior sofisticação financeira, sempre em áreas adjacentes à cadeia de atuação da Amaggi. O movimento mais natural passa por câmbio, hedge e proteção de preços. A CPR em dólar funciona como porta de entrada para esse mercado: ao alinhar o financiamento à moeda de comercialização da produção, o banco reduz o descasamento cambial do produtor e abre espaço para oferecer instrumentos de proteção mais rebuscados. É um solo fértil que os Maggi querem cultivar. Na prática, o AL5 pode ampliar sua atuação para travas de preço, soluções cambiais, derivativos simplificados e estruturas financeiras ligadas à exportação de soja, milho, algodão e café.
Outro flanco em análise seria o trade finance. A presença da Amaggi em originação, comercialização de grãos, processamento, logística fluvial, operações portuárias e insumos cria uma plataforma natural para o banco financiar não apenas o produtor, mas também os fluxos comerciais e físicos do agronegócio. O que se ouve no mercado é que nesse cardápio podem entrar operações de pré-pagamento de exportação, financiamento de estoques, recebíveis de exportação e crédito para empresas conectadas ao escoamento de commodities.
O avanço do AL5 Amaggi já começa a ganhar tração concreta nos números. Em 2025, o banco registrou crescimento de cerca de 34%, mesmo em um ambiente de crédito mais restritivo, tendo ultrapassado a marca de R$ 1 bilhão em desembolsos no agro. A instituição mantém um plano agressivo de expansão, com meta de atingir R$ 10 bilhões em carteira de crédito até 2030. Como parte dessa estratégia, iniciou operações de CPR em dólar, mirando cerca de R$ 300 milhões nessa modalidade apenas na safra 2026/27.
A derrota histórica de Lula, com a recusa do Senado à indicação de Jorge Messias para o STF, pode provocar uma implosão no núcleo da articulação política do governo. Ontem mesmo, poucas horas após a votação, já se falava à boca miúda no Palácio do Planalto da possibilidade de substituição de Randolfe Rodrigues (PT-AP) na liderança do governo no Congresso. A rejeição a Messias tende a funcionar como catalisador de uma insatisfação que já vinha se acumulando dentro e fora da base governista. Ele é visto por muitos como um líder que não lidera. O nome de Randolfe já havia sido alvo de críticas em outros episódios de desarticulação. O mais recente e ruidoso foi a CPMI do INSS, quando o governo perdeu o comando da comissão para a oposição. Carlos Viana, do Podemos de Minas Gerais, foi eleito presidente do colegiado por 17 votos a 14, em uma derrota que atingiu diretamente o Palácio do Planalto e o próprio presidente do Senado, Davi Alcolumbre. Na ocasião, Randolfe fez um mea-culpa público. Admitiu que a base governista “entrou de salto alto” e “subestimou o adversário”. Também assumiu responsabilidade pela falha de articulação.
A CPMI do INSS não foi um ponto fora da curva. Antes disso, Randolfe já havia sido criticado por dificuldades em construir acordos para a análise de vetos presidenciais. Parlamentares da própria base reclamam de “falta de traquejo político” do senador. Sua atuação também virou motivo de ironia entre bolsonaristas, com a provocação de que ele estaria ajudando mais a oposição do que o Executivo.
Nas fileiras petistas, a pressão sobre Randolfe tende a vir de mais de um flanco. O primeiro é o ministro da Secretaria de Relações Institucionais, José Guimarães, a quem cabe formalmente a articulação política do governo com o Congresso. Sabe-se que o ex-ministro da Casa Civil Rui Costa também não nutre simpatia pela permanência do senador na liderança.
Em meio à intensa corrida global por minerais críticos, praticamente todos os caminhos e players se cruzam em alguma esquina. É o caso da Vale e da J&F, holding controladora da JBS e dos demais negócios dos irmãos Batista. O RR apurou que os dois potentados empresariais têm mantido tratativas sobre possíveis investimentos conjuntos na exploração e processamento de minerais estratégicos, notadamente terras raras. Por ora, são conversas preliminares, que tendem a ganhar tração diante do crescente interesse de parte a parte pelo fornecimento de insumos minerais para a novíssima economia – de transição energética às cadeias industriais de alta tecnologia. Não é de hoje que a LHG Mining, braço de mineração de Joesley e Wesley, avalia entrar na produção de minerais críticos. Trata-se de um negócio que extrapola as fronteiras brasileiras e conversa com as ambições globais da J&F – ver RR. Já a Vale é a Vale. A empresa já tem dentro de casa um eldorado com notório potencial de crescimento, a Vale Base Metals, sua subsidiária voltada à produção de minérios estratégicos. A controlada vale quanto pesa e pesa quanto vale, seja pelo que já tem em seu portfólio – operações de cobalto, níquel e cobre no Brasil, Canadá e Indonésia -, seja pela possibilidade de avançar sobre outros minerais críticos e terras raras. Que o diga a Arábia Saudita. O país enxergou essa riqueza a valor presente e a valor futuro e pagou US$ 3,4 bilhões por 13% da Vale Base Metais, por meio da Manara Minerais, joint venture entre a Ma’aden e o PIF (Public Investment Fund), fundo soberano saudita. Cabe lembrar que o próprio presidente da Vale, Gustavo Pimenta, já disse publicamente que a companhia avalia investimentos em terras raras. Procuradas pelo RR, Vale e J&F não se manifestaram.
Uma eventual parceria entre Vale e J&F/LHG Mining teria forte potencial para ser um dos líderes dos investimentos em minerais estratégicos no subsolo brasileiro. Caso as conversas avancem, trata-se de um movimento que certamente será visto com muito bons olhos no governo Lula. A associação poderia dar escala a um projeto nacional de exploração e beneficiamento de terras raras. Este é um ponto central. No setor mineral, é como se o Brasil ainda estivesse parado em Ouro Preto, em 1760. O país segue preso a uma lógica meramente extrativista e de exportação de minério bruto. Em fevereiro, durante uma viagem à Índia, o próprio presidente Lula falou sobre a questão: “O que nós não vamos permitir mais é que as nossas terras raras sejam exploradas como foi o minério de ferro durante tantos anos. A gente só cava o buraco e manda o minério para fora para depois comprar produtos manufaturados”. Uma operação capitaneada por conglomerados do porte da Vale e da J&F abriria a oportunidade de o Brasil internalizar etapas críticas da cadeia produtiva de terras raras. As duas empresas carregariam para a parceria sua notória capacidade de financiamento no exterior e de atrair outros investidores, a exemplo de fundos soberanos. Some-se ainda o poder de articulação internacional dos dois grupos. Nesse quesito, hoje a JBS parece ser insuperável. Os irmãos Batista se tornaram a maior representação de diplomacia empresarial do Brasil no mundo, vide o bom trânsito de Joesley Batista junto a Donald Trump. É algo que conta muito no assunto em questão.
A disputa entre Estados Unidos e China por minerais estratégicos está no centro da “guerra fria” versão Século 21. Ambos têm duelado por cada centímetro de reservas minerais no mundo, especialmente terras raras. Pequim domina praticamente 80% da extração desses minérios, 89% da separação e mais de 90% da fabricação de superímãs. Washington vem tentando reduzir essa dependência por meio de incentivos, subsídios, acordos internacionais e de investimentos privados em mercados-chave. É o caso da recente e estratégica investida da USA Rare Earth, que, na semana passada, anunciou a compra da Serra Verde por US$ 2,8 bilhões. Localizado em Minuaçu (GO), trata-se do único polo de exploração de terras raras em escala comercial no Brasil. A empresa norte-americana estima que até o fim de 2027 a produção atingirá 6,4 mil toneladas métricas de óxidos de terras-raras por ano. A reserva tem vida útil estimada em aproximadamente 20 anos. A aquisição da Serra Verde foi um jogo de seis pontos para os Estados Unidos. Ao assumir o controle da mina, a USA Rare Earth conquistou um território que estava comercialmente dominado pelos chineses. Em 2025, a Serra Verde exportou 678 toneladas de terras raras para a China e míseros 51 kg para os Estados Unidos. Neste ano, antes mesmo da venda para a USA Rare Earth ser formalizada, o placar já começou a virar. Em fevereiro, houve um embarque de duas toneladas para os Estados Unidos, ao passo que até o momento não ocorreram exportações para a China. Em tempo: o projeto norte-americano para Minuaçu não deixa nem uma migalhinha de valor agregado no Brasil. A separação do concentrado de elementos será realizada em uma fábrica ainda em desenvolvimento nos Estados Unidos. Por sua vez, a produção de ligas metálicas, fase seguinte do processo, se dará no Reino Unido e, em menor escala na França. Já a fabricação dos superímãs ocorrerá integralmente nos Estados Unidos.
A aproximação entre Vale e J&F ocorre em meio a uma frenética movimentação geopolítica em torno dos minerais críticos, que abrange todas as economias centrais do Planeta. O Brasil ainda busca sua posição no tabuleiro. Nesse contexto, ganham tração as negociações com a União Europeia para a construção de uma agenda comum no setor. Segundo informações recentes, Brasil e bloco europeu vêm avançando em propostas de cooperação que envolvem desde investimentos diretos até parcerias em pesquisa, desenvolvimento tecnológico e processamento industrial de minerais críticos. A Europa, assim como os Estados Unidos, corre contra o tempo para reduzir sua dependência da China. O interesse não está apenas no acesso às reservas brasileiras, mas, sobretudo, na possibilidade de estruturar cadeias produtivas mais diversificadas e resilientes. Do lado brasileiro, o discurso oficial tem sido o de atrair capital estrangeiro sem repetir o padrão histórico de simples exportação de matéria-prima. A ideia é condicionar acordos à transferência de tecnologia e à internalização de etapas industriais, exatamente o elo em que o país tradicionalmente perde valor.
O assunto das terras raras também pesa sobre a mesa das relações entre Brasil e Estados Unidos. O então ministro Fernando Haddad foi o primeiro a acenar com a possibilidade de um acordo dando aos norte-americanos preferência na obtenção desses minérios em troca da flexibilização do tarifaço sobre produtos brasileiros. Embora a tal química entre Lula e Trump já não pareça ser a mesma – dada as recorrentes declarações do petista contra o presidente norte-americano -, o tema ainda pulula nas tratativas entre os dois países. E uma eventual parceria entre Vale e J&F pode ser um ponto de conexão com os Estados Unidos, ainda que com uma escala, por exemplo, na Arábia Saudita. A já mencionada presença dos sauditas no capital da Vale Base Metals é um detalhe que ganha ainda mais importância nesse mosaico geopolítico. Onde está escrito Arábia, sempre pode estar grafado Estados Unidos. Onde se lê Riad, sempre se pode enxergar Washington. Há décadas a Arábia Saudita é um dos aliados mais leais dos Estados Unidos, uma relação soldada a ferro e fogo com interesses comuns, cujos pilares principais são a cadeia do petróleo e a área de Defesa. No caso de uma parceria entre Vale e J&F, a associação já existente com a Vale Base Metals poderia fazer da Arábia Saudita um istmo dos interesses norte-americanos em terras raras no Brasil. O fato é que, por enquanto, apesar da movimentação diplomática em torno do tema, a investida dos Estados Unidos em território brasileiro não se tem se dado por meio de acordos entre governos e, sim, pela via do mercado. Com uma dose de subsídios, diga-se de passagem. Em janeiro, a USA Rare Earth recebeu um financiamento de US$ 1,6 bilhão do Departamento de Comércio dos Estados Unidos. Não está claro se parte desses recursos já estava vinculada a uma iminente aquisição da Serra Verde, mas certamente o empréstimo deu gás para a ofensiva da empresa norte-americana no Brasil. É igualmente curioso também que, em fevereiro, portanto dois meses antes do anúncio da venda para a USA Rare Earth, a própria Serra Verde tenha obtido um financiamento de US$ 565 milhões da Corporação Financeira dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (DFC), uma agência do governo dos Estados Unidos.
O RR apurou que os credores da Raízen pressionam a companhia a vender suas operações fora do Brasil. O pacote é composto por ativos na Argentina – a refinaria Dock Sud e aproximadamente 700 postos de combustíveis da bandeira Shell – e no Paraguai, leia-se a participação de 27% em uma rede com cerca de 300 postos. O que realmente atiça a voracidade dos credores são os negócios em território argentino, avaliados em US$ 1 bilhão. Os bancos, entre os quais Santander, BNP Paribas e Rabobank, já apresentaram à Raízen uma proposta pela qual 30% dos recursos amealhados com a venda da operação na Argentina seriam usados para o pagamento de dívidas. Consta, no entanto, que os bondholders, representados pela Moelis, querem abocanhar uma fatia maior. A negociação dos ativos na Argentina se arrasta desde o ano passado, antes mesmo da Raízen entrar em recuperação extrajudicial. No país vizinho, o consórcio formado pela suíça Mercuria Energy e pelos empresários argentinos José Luiz Manzano e Daniel Vila é apontado como o principal candidato à aquisição.
A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) costura um acordo com o presidente da Câmara, Hugo Motta, para que o Projeto de Lei 2.353/2011 seja votado até o mês de maio. O PL proíbe a compra de leite importado por órgãos públicos, estabelecendo, portanto, uma reserva de mercado para o agronegócio doméstico. A articulação reflete a pressão crescente da bancada ruralista, que trata o tema como prioritário diante da concorrência externa enfrentada pelos produtores nacionais. O pano de fundo é um fluxo ainda elevado de importações. Em 2024, o Brasil comprou no exterior cerca de 2,3 bilhões de litros em equivalente-leite, o maior volume da série histórica. Em 2025, houve um ligeiro recuo, de aproximadamente 6,1%, mas o país ainda registrou um déficit próximo de 2 bilhões de litros na balança de lácteos. Em termos de valor, apenas as importações de leite e nata somaram mais de US$ 600 milhões no ano passado. A leitura na FPA é de que o aumento das importações, sobretudo de países do Mercosul, tem comprimido a renda do produtor e ampliado a volatilidade do mercado interno.
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