De tão tortas que são, as linhas da geopolítica de Donald Trump conectam pontos que, a princípio, não teriam qualquer relação entre si. O que têm a ver, por exemplo, Venezuela, Cuba e o jogo no Brasil? Em teoria, nada; na prática, quase tudo. Ainda que por vias oblíquas, a discussão em torno da reabertura de cassinos em território brasileiro ganha novos contornos com os movimentos hostis de Trump na América Latina – os já realizados e, sobretudo, os que ainda estão por vir. A julgar pelo giro da roleta na região, se o Brasil pretende entrar na rota dos grandes investimentos internacionais no setor, já está passando da hora de o Congresso e o governo tratarem do assunto com a maturidade e a celeridade que ele exige. Sob risco de o país desperdiçar (mais) uma notória oportunidade de atração de capital externo. Basta interpretar as cartas na mão de Trump. Brilhante, como de hábito, o jornalista Elio Gaspari já enxergou o pôquer trumpista algumas mesas à frente – vide o artigo “O nome do jogo é Cuba”, publicado na Folha de S. Paulo e em O Globo no último dia 6: “A Venezuela tem petróleo, e a Colômbia tem um presidente de esquerda, mas a joia da coroa que Trump busca é Cuba. Derrubar o regime dos irmãos Castro é coisa que vários presidentes americanos perseguiram. Um regime comunista a 145 km da Flórida justifica malquerenças, mas, para Trump, um empresário do setor imobiliário, lá está um tesouro, maior do que todos os butins dos piratas que vicejavam no Caribe nos séculos passados”.
A queda do regime castrista – um fruto passado, que ainda se mantém presa à árvore sabe-se lá como – é o sonho de todos os grandes conglomerados que atuam no binômio hotelaria/cassino nos Estados Unidos. O imaginário desses investidores é povoado pela Cuba de Fulgêncio Batista, um grande salão de jogos e de entretenimento dos Estados Unidos. Se o então vice-presidente norte americano Dick Cheney era o braço da indústria petroleira na gestão de George W. Bush, Trump é a cabeça, corpo e membros do setor imobiliário e dos cassinos em seu próprio governo. A derrubada do que ainda sobrou do regime de Fidel e Raul Castro – depois que Nicolás Maduro foi arrancado de seus aposentos, tudo soa como factível – abriria caminho para uma invasão de dólares na ilha e uma das maiores ondas de investimento em turismo na história do Caribe. É aí que o Brasil entra nesse jackpot. Ou não. Quanto mais se posterga a discussão sobre a reabertura ou não dos cassinos, mais o país corre o risco de perder definitivamente o timing para a atração de recursos internacionais. Se Cuba entrar nesse game, talvez não sobrem nem as fichas mais miudinhas para o Brasil.
O que está em jogo, literalmente em jogo, são investimentos de R$ 150 bilhões, a geração de aproximadamente 1,5 milhão de empregos e uma arrecadação tributária da ordem de R$ 20 bilhões. Em tese, trata-se do potencial estimado das 34 licenças federais para a instalação de complexos hoteleiros integrados a cassinos previstas no projeto de lei 2.234/2022 – um empreendimento por estado, à exceção de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia, com até três concessões previstas. De todas as proposições relacionadas ao tema que já passaram pelo Congresso, o PL em questão é o mais madura e que mais avançou nos trilhos do Legislativo. Aprovado na Câmara e em tramitação no Senado, prevê não apenas a abertura de cassinos, exclusivamente vinculados a projetos hoteleiros, mas também o funcionamento de bingos e a legalização do jogo do bicho. Em conversa exclusiva com o RR, o senador Irajá (PSD-TO), relator do PL 2.234/2022, vai direto ao ponto ao alertar que o Brasil disputa investimentos em um terreno cada vez mais concorrido. “O Japão, uma cultura extremamente conservadora, recentemente flexibilizou sua legislação para atrair investimentos em resorts integrados. A Tailândia tem atraído bastante interesse. Nova York fez uma grande licença para a exploração três cassinos, com investimento de US$ 9 bilhões”.
O fato é que o Brasil é um território insular na geoeconomia do jogo, como bem ressalta o senador. Ao lado da Arábia Saudita, uma nação muçulmana, figura entre os dois únicos países do G-20 que não autorizam cassinos. O isolamento brasileiro se reflete na própria América do Sul. O Brasil tem apenas a companhia da Bolívia na proibição. “Enquanto isso, nossos vizinhos, Uruguai, Argentina e Chile, já vêm surfando nessa onda já há muito tempo”, diz o parlamentar. E, nesse cenário, há o fator Cuba à espreita. “Essa é uma hipótese pertinente. O tempo dirá. O capital vai onde é mais atrativo”, afirma o parlamentar. O senador Irajá chama a atenção ainda para um paradoxo: “É indefensável ter cassino no celular, acessível a qualquer pessoa, inclusive de baixa renda, e proibir o cassino físico, que é justamente o modelo que gera investimento, emprego e controle. A proibição não elimina o jogo, apenas o empurra para a clandestinidade. “Hoje, 100% desse mercado está ilegal”.
No Brasil, o principal entrave à liberação dos cassinos é de ordem moral, o que se reflete dentro do Congresso. A bancada evangélica se coloca como a frente de resistência à aprovação da proposta. No fim do ano passado, o Senado rejeitou o requerimento para que o PL 2.234 tramitasse em regime de urgência. Haverá um novo pedido nesse sentido? “Precisamos fazer uma avaliação voltando do recesso, para ver como estão os colegas do Senado e, então, tomar essa decisão. A partir dessa análise, veremos se é possível pautar o projeto no início do semestre ou se aguardamos para termos um ambiente favorável”, afirma o senador Irajá. Enquanto isso, Trump segue embaralhando as cartas, girando a roleta da geopolítica e olhando para Cuba, sem sequer precisar de binóculos.