Às vésperas da reunião do Copom, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, protagonizou uma comédia de erros. Em sua fala no evento Bloomberg Green 30, realizado na última terça-feira, Haddad estava irreconhecível. Com a feição nitidamente cansada, e longe da serenidade que o caracteriza, Haddad fuzilou Galípolo – como se o BC fosse só o seu ex-secretário executivo na Fazenda e não um colegiado – afirmando que era “inadmissível” a manutenção de uma taxa de juros de 15%, o que significava uma taxa real de 10%. Ora, a inflação está com tendência de baixa, segundo o boletim Focus; os recursos externos retornam ao país em volumes expressivos; o câmbio apreciou; os indicadores antecedentes da atividade econômica apontam para cima; os índices de expectativas da FGV melhoraram e até a farra fiscal foi contida, ainda que na margem. Além disso, a indústria, que vinha se recuperando, voltou a descer a ladeira. Haddad, portanto, poderia ter até razão. Mas o tom das suas palavras e o timing desastroso da entrevista politizaram de tal forma a deliberação do Comitê que a decisão não poderia ser outra se não manter os juros, sob pena de desmoralizar o BC independente.
Mas não foi somente esse o tiro pela culatra. Fernando Haddad abriu fogo contra a banca, afirmando que essa taxa somente serve às instituições financeiras, que as defendem com radicalidade. Pelo que se conhece de Haddad, ele simplesmente vocalizou Lula e não monologou tratados sobre política monetária. Não há dúvida de que o ministro já sabia da decisão, quer seja pelas atas anteriores do Copom, quer seja pela troca de informações com Galípolo. Os dois se falam pelo menos dia sim, dia não. Até porque as políticas fiscal e monetária nunca estiveram tão imbricadas. O que pegou realmente mal foi o momento das declarações. A unanimidade da diretoria na aprovação dos fatídicos 15% foi interpretada por muitos analistas como uma resposta institucional, até porque não foi concedido sequer o viés de baixa. A dura entrevista descortina uma possível fissura nas relações do ministro com o presidente do BC. A ênfase das críticas deixou o mercado na dúvida se o episódio é pontual e se deve ao estresse de Haddad ou se os prováveis seis meses em que a taxa deverá permanecer na faixa dos 15% provocarão novas divisões, gerando maior volatilidade dos ativos.
Fernando Haddad contratou uma derrota para si próprio, ao fazer uma aposta que já nascia perdida. E há um fator que não pode ser ignorado: a equipe econômica do ministro, escolhida a dedo pelo próprio, pensa com exatidão igual a ele. Não há contraponto no seu staff, assim como não há no time do BC. Por exemplo: se dependesse de Haddad e de sua equipe – e o RR tem certeza do que diz – a meta de inflação já teria sido trocada logo no início da sua gestão. Por sua vez, o BC, em vez de flexibilizar a política monetária, seria bem capaz de apertá-la ainda mais. Mas, no final, a gangorra do Copom foi uma só: Haddad desce, Galípolo sobe.