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A contratação de Carlo Ancelotti como novo técnico da seleção brasileira ganhou ares de assunto de Estado. O presidente da CBF, Ednaldo Rodrigues, teve o cuidado de antecipar o acordo a diferentes instâncias de Poder da República, assim como já vinha fazendo ao longo das tratativas com o treinador italiano. Antes do anúncio oficial, o dirigente teria confidenciado a informação a parlamentares aliados e, principalmente, ao Palácio do Planalto.
Nesse jogo cruzado de interesses institucionais, é a segunda tabelinha que mais chama atenção. Segundo informações filtradas pelo RR, teria partido dos próprios assessores do presidente Lula a iniciativa de monitorar a reta final das negociações e de tomar conhecimento prévio do acerto com Ancelotti. Na paralela, o ministro da Secom, Sidônio Palmeira, foi colocado de plantão para estudar com a sua equipe ações na área de comunicação que permitam ao governo de alguma forma capitalizar o impacto da contratação.
Na Secom, tudo que envolve o Mundial de 2026 vem sendo tratado, desde já, não apenas como uma questão estritamente esportiva, mas, sobretudo, como um fato político. Há duas Copas em disputa no ano que vem: a primeira, em junho, nos gramados dos Estados Unidos, Canadá e México; a segunda, em outubro, nas urnas.
Ainda que por vias indiretas, Carlo Ancelotti desponta, desde já, como um potencial cabo eleitoral de Lula ou do candidato que ele vier a indicar, caso não dispute a reeleição. Trata-se de um jogo sutil, disputado não no terreno do concreto, mas no campo abstrato do psicossocial. Assessores de Lula vislumbram o efeito positivo que a eventual conquista do hexacampeonato poderia ter sobre o ânimo da população três meses antes da eleição. É algo extremamente subjetivo, pero no mucho.
Momentos catárticos como este costumam ter impacto sobre o estado geral da sociedade, seja como válvula de escape emocional, seja como um fator de coesão social. No pragmatismo da política, desde a Grécia antiga feitos esportivos costumam ser capturados por governantes. Lula não seria o primeiro. Muito menos no Brasil. Ancelotti serviria ao petista como um dia, mesmo que involuntariamente, Vicente Feola serviu a JK e Zagallo a Médici.
Em tempo: a Copa do Mundo de 2026 já está mais do que politizada. Vide o vazamento da tal camisa vermelha da seleção brasileira que teria sido planejada pela CBF e pela Nike para o ano que vem. Logo após o alvoroço nas redes sociais, a entidade soltou uma nota afirmando que a imagem não era oficial. Ficou a percepção de que tudo não passou de um balão de ensaio da própria CBF e da Nike para medir a aceitação de uma população polarizada a uma camisa “vermelho-comunista” em um momento da história em que o verde-amarelo foi apropriado pela extrema direita.
Por mais que tudo fique no âmbito da abstração, coincidência ou não, títulos de Copa do Mundo costumam rimar com melhora da economia brasileira. A série histórica não deixa mentir. Em 1958, o PIB cresceu 10,8%, contra uma média de 6,38% nos cinco anos anteriores. Em 1970, nos gramados do milagre econômico, o Produto Interno Bruto subiu 10,4% – a média do período 1965-69 foi de 6,52%.
Em 1994, no embalo do Plano Real, a economia avançou 5,8% – um assombro se comparado ao medíocre desempenho dos cinco anos antecedentes (média de 0,84%). Por sua vez, em 2022, a taxa do PIB aumentou 3,1%, acima da média de 2% no quinquênio anterior. O ponto fora da curva foi 1962, quando a economia cresceu 6,6%, abaixo da média de 9,26% registrada entre 1957 e 1961. Lula, mais do que ninguém, espera que tenha sido a exceção à regra.
Em tempo: guardadas as devidas proporções, o hexa pode valer a sobrevivência política não apenas de um, mas de dois presidentes. A conquista da Copa do Mundo seria a blindagem de que Ednaldo Rodrigues tanto precisa para assegurar sua permanência do cargo. Rodrigues, como se sabe, é um dirigente que caminha sobre areia movediça. Por ora, deve sua posição no comando da entidade ao STF, que já negou dois pedidos para afastá-lo da presidência da CBF.
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