A deposição de Nicolás Maduro acendeu um sinal de alerta no Ministério de Minas e Energia (MME) e em influentes players do setor elétrico, a começar pela Âmbar Energia, dos irmãos Batista, e pelo BTG Pactual. O governo brasileiro e investidores privados já se movimentam nos bastidores com o objetivo de assegurar a continuidade do acordo de importação de energia da Venezuela. Por ora, é tudo um grande breu. A parceria bilateral se tornou uma insondável relação trilateral após a intervenção norte-americana. A derrubada de Maduro e a ascensão de um governo cujos condões serão movimentados pela Casa Branca lançam incertezas sobre a manutenção dos contratos. Ainda que o foco maior esteja no petróleo, a questão da energia como um todo ocupa uma posição de centralidade na captura da Venezuela pela gestão Trump. O país tem um enorme gap de investimentos em infraestrutura e sofre com a sua insegurança energética, não raramente com cortes no fornecimento de eletricidade. Sob a ótica trumpista, a exemplo da exploração e produção de petróleo, talvez o negócio de geração e distribuição de energia venha a ser um terreno fértil para a entrada de empresas norte-americanas, provocando mudanças na estratégia de gestão do insumo. Nesse contexto, Caracas, ou melhor, Washington até pode ter interesse em manter o acordo comercial com o Brasil, mas talvez o faça em outros termos. Hoje, a energia gerada pela hidrelétrica de Guri e importada por empresas brasileiras é bem mais barata do que a produzida dentro de nossas fronteiras.
Nesse tabuleiro, uma peça importante, só para não variar, é a onipresente dupla Joesley e Wesley Batista. Basta ligar os pontos. A Âmbar Energia, de propriedade dos irmãos Batista, é uma das dez empresas autorizadas pelo MME a importar energia da Venezuela. Ao mesmo tempo Washington-Caracas é uma rota na qual Joesley trafega com notória desenvoltura. Em setembro, o empresário foi recebido por Donald Trump na Casa Branca. Dois meses depois, reuniu-se, na capital venezuelana, com Nicolás Maduro com o objetivo de negociar sua renúncia. Some-se o fato de que a J&F, a holding dos irmãos Batista, é dona de poços de petróleo na Venezuela. Diante de tal quebra-cabeças, de encaixes perfeitos, difícil imaginar que qualquer assunto relacionado à compra de energia do país vizinho passe ao largo da mesa de Joesley e Wesley Batista. O RR encaminhou uma série de perguntas à Âmbar Energia, mas a empresa limitou-se a dizer que “nunca importou energia da Venezuela”. O que não diminuiu a sua importância em toda esta engrenagem. É sabido, com notícias publicadas à época (final de 2023), que o clã Batista participou das negociações em torno do acordo firmado entre os governos do Brasil e da Venezuela. No ano passado, inclusive, o governo chegou a destinar R$ 17 milhões da Conta de Consumo de Combustíveis (CCC) para a Âmbar comprar o insumo venezuelano, mas a operação não seguiu adiante.
A aquisição de energia da Venezuela se deu ininterruptamente durante 18 anos – entre 2001 e 2019, quando foi interrompida logo no primeiro ano de mandato de Jair Bolsonaro. A importação foi retomada em fevereiro do ano passado a partir de uma engenharia geoenergética na qual se cruzam – e se embolam – fios soberanos e privados. A operação foi costurada diretamente entre os governos Lula e Maduro. Na prática, no entanto, a União não compra um megawatt sequer. A importação é feita exclusivamente por tradings e grupos do setor elétrico. Posteriormente, o insumo é revendido com subsídio por meio da Conta de Consumo de Combustíveis (CCC). Entre as empresas autorizadas pelo Ministério merece destaque também a tríplice presença do BTG. Além do BTG Pactual Energia, estão na lista a Engelhart, trading controlada pelo banco, e Eneva, da qual a instituição financeira de André Esteves é um dos principais acionistas. Procurado, o BTG não quis comentar o assunto.
Há muito em jogo. A compra de energia da Venezuela é um negócio que pode ser duplamente precificado, a valor presente e a valor futuro. Hoje, a importação tem como objetivo exclusivo o suprimento de Roraima. Para todos os efeitos, em setembro do ano passado, o estado, até então um “eremita energético” dado o seu isolamento, foi finalmente conectado ao Sistema Interligado Nacional de Energia (SIN) com a energização da Linha de Transmissão Manaus-Boa Vista. Na prática, no entanto, a integração à vera ainda vai demorar. Há uma série de ajustes técnicos e adequações contratuais a serem feitas até que Roraima esteja acoplada ao SIN. Até lá, a energia venezuelana segue sendo vital para evitar o risco de desabastecimento no estado. É um negócio razoavelmente rentável para as empresas importadoras do insumo, dado o seu menor custo de produção na Venezuela, as margens impostas pela necessidade de suprimento de Roraima e os subsídios da CCC. Olhando-se para o porvir, a importação de energia da Venezuela pode vir a ser uma operação ainda mais lucrativa, justamente devido à integração do estado com o SIN. O próprio ministro Alexandre da Silveira já declarou que, com a nova linha de transmissão, o insumo venezuelano poderá ser despachado para outras regiões do país. Roraima precisa de apenas 250 MW ao passo que a rede de transmissão, quando estiver funcionando a plena capacidade, poderá transportar até 1 GW. Esse excedente seria jogado no SIN para abastecer outros estados. Mas, para que esse plano se materialize, é necessário esperar o que vem de Caracas. Ou melhor, de Washington.