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Há uma importante mudança climática em Brasília: a relação entre Fernando Haddad e Lula, uma das principais âncoras do atual governo, esfriou consideravelmente. Segundo interlocutores do ministro, Haddad está sensivelmente decepcionado com toda a dinâmica que cerca a sua já anunciada saída do cargo. Não era esse o script que ele esperava desempenhar ou sequer estava combinado. De acordo com informações filtradas pelo RR, o acordo era que Haddad deixaria o governo mais à frente, em uma data arbitrada por ele próprio e preferencialmente após uma conquista de inegável dimensão política, como, por exemplo, a regulamentação da reforma tributária, ainda pendente no Congresso.
Em dezembro, ele próprio chegou a indicar que fevereiro seria um timing “ideal” para a passagem do bastão. Mas o roteiro desandou. Haddad foi forçado a antecipar sua saída do Ministério da Fazenda pelo próprio Palácio do Planalto, notadamente os ministros Rui Costa e Gleisi Hoffmann, os dois principais vocalizadores do PT dentro do governo.
Resumo da ópera bufa: o “aviso prévio” pode até não ter partido diretamente de Lula, mas Haddad definitivamente não contou com a fidelidade do presidente da República, nem de qualquer prócer do PT, no desfecho da sua passagem pelo comando da economia. Na prática, Lula optou por assistir ao desgaste do seu ministro sem oferecer respaldo público, permitindo que o cerco político se fechasse ao redor de Haddad sem qualquer gesto de proteção ou mediação direta.
Como bem disse Dilma Rousseff no documentário “Democracia em Vertigem”, “Lula faz política por fato consumado”.
Fernando Haddad é sabidamente um dos quadros mais preparados do PT. À frente da Fazenda, lutou pelos projetos mais difíceis do governo, quase sempre tendo de transitar por territórios hostis, notadamente no Congresso. Desde a campanha, foi o grande fiador de Lula junto aos mercados. Por tudo, é mais do que natural que ele próprio alimente uma dose de mágoa em razão da forma como está deixando o Ministério, quase que sob “ordem de despejo”. O que mais incomoda Haddad é o argumento do PT de que ele conversava mais com a Faria Lima do que com o partido. Assim é se lhe parece. Pela ótica petista, trata-se de um “pecado” passível de ser administrado nos três primeiros anos de governo, mas não às vésperas de um eleição. Por essa razão, a ala política do governo resolveu “fechar a conta” antes: Haddad sai não quando entende que concluiu a missão, mas quando a política decide que a missão passou a atrapalhar a campanha.
Fontes palacianas ouvidas pelo RR corroboram as informações apuradas pela colunista Júlia Dualibi e publicadas hoje em O Globo. Haddad teria sido escanteado para cumprir em nome de Lula e do PT mais uma missão de derrota prévia. Seria candidato ao governo de São Paulo apenas para obter o quantum de votos considerados necessários no estado para a reeleição de Lula. Depois poderia ir para a Casa Civil, Secretaria de Assuntos Estratégicos, ou qualquer canto do governo – desde que não fosse a Pasta da Fazenda – e esperar quatro anos para ver se Lula apontaria o dedo em sua direção, ungindo-o como candidato a sua sucessão, em 2030.
É um velho aforismo que fidelidade e política não combinam. Haddad com certeza é uma exceção. Foi cumprir missão de concorrer à Presidência. Perdeu. Foi escalado para disputar o governo de São Paulo e perdeu novamente. Posteriormente, chamado para ser ministro da Fazenda, foi obrigado a ser o negociador do governo no Congresso, ou por acefalia ou por incompetência dos demais. Não bastassem tantas demonstrações de absoluto engajamento, sobram também provas de carinho ao mestre. Depois de Gleisi Hoffmann, Haddad foi o quadro do partido que mais visitou Lula em sua estadia no cárcere.
Em tempo: com a saída de Fernando Haddad, o PT quer fazer barba, cabelo e bigode. Rei posto, rei morto. Conforme o próprio RR já informou (https://relatorioreservado.com.br/noticias/os-candidatos-do-pt-ao-lugar-de-haddad-sim-mantega-esta-entre-eles/), o partido trabalha para emplacar na Fazenda um nome que reze pela sua cartilha econômica.
Mesmo que seja um fantoche para desempenhar o papel de ministro de araque nesses nove meses que faltam até as eleições. Caso o verdadeiro script seja esse, resta ver como a Faria Lima vai reagir a essa engenhosa trama.
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