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Pouco mais de um mês após o tarifaço de Trump entrar em vigor, o setor cafeeiro enxerga o futuro por meio de duas lentes. A primeira delas, focada no curto prazo, mostra um cenário razoavelmente sob controle.
Por ora, os agricultores estão hedgeados: a safra 2024/25 foi vendida antes da sobretaxa de 50% e, até o momento, os contratos de exportação para os Estados Unidos vêm sendo cumpridos, segundo uma fonte da área de comércio exterior.
Some-se a isso o fato de que os produtores brasileiros estão capitalizados. Os cafeicultores vêm de três anos seguidos com margens líquidas próximas de 100%, muito em função de “generosas” condições climáticas.
Somente no acumulado de 12 meses, os preços do café arábica, por exemplo, acumulam alta de 50%, no rastro da quebra de safra no país – em algumas regiões, a colheita em 2024/25 foi 30% menor.
Por quanto tempo o setor conseguirá ficar relativamente imune à fúria trumpista? Essa é a pergunta de US$ 2 bilhões – o valor das exportações anuais de café do Brasil para os Estados Unidos.
Para o médio e longo prazos, a lente está embaçada. A colheita da safra 2025/26 (julho/junho) terminou e até o momento os cafeicultores só venderam um terço da produção.
De acordo com a mesma fonte do RR, um ponto em especial tem causado apreensão entre os produtores: a falta de lobby da indústria de torrefação norte-americana junto ao governo Trump por um alívio nas tarifas de importação do Brasil.
Mesmo figurando entre os principais afetados pela sobretaxa, os grandes compradores de café dos Estados Unidos se mantêm em um silêncio intrigante. Essa mudez não estava no script dos cafeicultores brasileiros.
No mercado, pululam teorias sobre a posição defensiva dos grandes conglomerados de torrefação dos Estados Unidos. Uma delas é que a indústria estaria dando tempo ao tempo, apostando em uma revisão da tarifa imposta ao produto brasileiro.
Nos últimos dias, inclusive, surgiram no setor rumores de que Trump poderá estabelecer uma taxa única de 10% para as importações de café de todo o mundo, independentemente da origem.
Há quem veja, no entanto, um processo quase darwiniano no mercado norte-americano, que pode ter grave impacto sobre o setor cafeeiro no Brasil. Grandes compradores que recebem o café na “porta” estariam aproveitando a sobretaxa para asfixiar concorrentes que compram o produto FOB.
Os primeiros contam com uma proteção natural: contratos de longo prazo que empurram custos adicionais, inclusive tributários, para a conta do trader. Já as empresas que adquirem o produto no modelo FOB arcam com todas as despesas logísticas e para a internalização da mercadoria.
Ou seja: estas se encontram em uma posição de fragilidade, pois são responsáveis pelo pagamento da sobretaxa para a importação.
No médio e longo prazo, caso a tarifa de 50% seja mantida, grandes compradores de café brasileiro podem ter sérias dificuldades para honrar contratos ou até mesmo quebrar.
Ressalte-se que o modelo FOB responde por aproximadamente 60% dos embarques do produto do Brasil para os Estados Unidos.
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