A vida não anda muito feliz para a Hapvida

Mercado

A vida não anda muito feliz para a Hapvida

  • 3/07/2026
    • Share

A Hapvida enfrenta um trade-off entre crescimento e rentabilidade. Entre os próprios acionistas, a percepção é de que a reestruturação feita nos últimos três anos, baseada em um forte processo de corte de custos, perdeu fôlego. E pior: deixou efeitos colaterais que precisam ser tratados. A pressão agora é para recuperar a base de beneficiários e aumentar receita. Essa nova agenda exigirá investimentos na rede assistencial e uma estratégia comercial mais agressiva, medidas que tendem a reduzir parte das margens reconquistadas nos últimos anos. Segundo informações obtidas pelo RR, a gestão da Hapvida discute medidas para ampliar a atratividade dos produtos, fortalecer a rede assistencial em mercados estratégicos, reduzir o churn e voltar a disputar clientes em segmentos onde a empresa perdeu competitividade, especialmente em São Paulo. É justamente esse o trade-off: todas essas iniciativas caminham na direção oposta à da austeridade dos últimos anos. O ceticismo do mercado em relação à capacidade da companhia de iniciar esse novo ciclo de crescimento está refletido na Bolsa. As ações da Hapvida acumulam desvalorização de aproximadamente 72% nos últimos 12 meses, uma das maiores quedas entre as empresas de saúde listadas na B3.

Consultada, a empresa não se pronunciou até o fechamento desta matéria.

O mercado paulista resume o dilema da empresa de medicina de grupo. A Hapvida perdeu aproximadamente 146 mil beneficiários no estado nos doze meses encerrados em março, sendo cerca de 116 mil apenas na Região Metropolitana de São Paulo. Trata-se justamente da praça mais rentável do país para a saúde suplementar, onde predominam planos corporativos de maior valor agregado. Reconquistar espaço nesse mercado exigirá muito mais do que disciplina financeira.

O desafio é ainda maior porque o crescimento recente da companhia tem sido sustentado mais pelo aumento do tíquete médio do que pela expansão da carteira. No primeiro trimestre, a receita líquida avançou 5,2%, para R$ 7,89 bilhões, impulsionada principalmente pelo reajuste dos planos e pelo tíquete médio de R$ 305 por beneficiário, alta de 7,3% em relação ao mesmo período do ano passado. Em contrapartida, a base de usuários dos planos de saúde encolheu 1,3%, para 8,68 milhões de beneficiários, com perda líquida de 44,5 mil vidas apenas entre janeiro e março. Essa combinação indica que uma das principais alavancas da recuperação financeira começa a se aproximar do limite. Reajustes sucessivos de preços dificilmente conseguirão compensar indefinidamente a redução da carteira, sobretudo em um setor cuja receita depende fundamentalmente de escala. A equação torna-se ainda mais desafiadora porque a expansão da base exigirá um aumento das despesas comerciais e assistenciais, justamente quando a companhia começa a colher os frutos da disciplina de custos adotada nos últimos anos.

Como se não bastasse o desafio de voltar a crescer, a Hapvida ainda convive com outro fator de pressão sobre sua rentabilidade: a judicialização. Os depósitos relacionados a ações cíveis continuam avançando e pressionando as despesas administrativas da companhia, consumindo parte dos ganhos obtidos com a melhora operacional. Na prática, trata-se de mais um efeito colateral do processo de reestruturação. Ainda que tenha conseguido reduzir a sinistralidade e recuperar parte de suas margens, a operadora continua convivendo com um passivo judicial que limita a conversão desses ganhos em geração adicional de caixa.

Os próprios indicadores operacionais mostram que a margem para novos ganhos de eficiência se estreita. A sinistralidade caixa recuou para 72,2% no primeiro trimestre, contra 75,5% no trimestre imediatamente anterior, enquanto o EBITDA ajustado atingiu R$ 803 milhões, com margem de 10,2%. Embora os números indiquem melhora operacional, eles também sugerem que a fase de recuperação baseada quase exclusivamente na captura de sinergias e na redução de despesas se aproxima do esgotamento. A partir de agora, o desafio da Hapvida será provar ao mercado que consegue acelerar o crescimento da receita sem abrir mão da disciplina operacional que marcou os últimos três anos.

N.R. Após a publicação da matéria, a Hapvida encaminhou a seguinte nota ao RR: “A estratégia da companhia para 2026 está centrada na execução de um plano estruturado, que combina crescimento sustentável, disciplina financeira, evolução operacional e fortalecimento da qualidade assistencial. Essas frentes avançam de forma integrada, com iniciativas voltadas ao aprimoramento da experiência dos clientes, da atuação comercial, das operações, da tecnologia e dos processos internos, reforçando a eficiência, a previsibilidade e a consistência dos resultados.
No crescimento da carteira, a atuação está orientada pela expansão com rentabilidade, retenção de beneficiários e desenvolvimento de soluções alinhadas às características de cada mercado. Entre as iniciativas em andamento estão a revisão do portfólio de produtos, o fortalecimento da atuação regionalizada, o aprimoramento das estratégias de retenção e conversão e a ampliação da oferta de produtos em mercados estratégicos, como São Paulo.
A companhia também segue investindo na evolução de seus processos assistenciais e operacionais, fortalecendo o relacionamento com a rede própria e credenciada e ampliando o uso de tecnologia, inteligência de dados e automação para apoiar a tomada de decisão, qualificar a assistência e promover ganhos contínuos de eficiência.
Essa estratégia reflete a confiança da companhia na capacidade de execução de seu planejamento e no fortalecimento contínuo de uma operação cada vez mais sólida, eficiente e orientada à qualidade assistencial.”

#Hapvida

Leia Também

Todos os direitos reservados 1966-2026.

Rolar para cima