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Michelle Bolsonaro é hoje uma esfinge eleitoral, capaz de devorar a quem não consegue decifrá-la. A ex-primeira-dama está chacoalhando o imaginário não apenas do eleitorado, mas do próprio universo político. Mesmo experimentadas lideranças, em conversa com o RR, têm manifestado sua dificuldade de decodificar esse corpo de leoa com cabeça de mulher debruçado não sobre Gizé, mas, sim, sobre o Planalto Central. Ontem, em Brasília, corriam as mais diferentes interpretações acerca da sucessão de movimentos feitos por Michelle nos últimos dias – do vídeo de 26 minutos contra Flávio à renúncia à presidência do PL Mulher, passando pelo unfollow nos enteados nas redes sociais. A dispersão entre as distintas leituras já reflete, por si só, o desafio de destrinchar o enigma. A hipótese mais primitiva, pueril até, é que tudo não passou de uma catarse de Michelle em sua despedida da política. Por essa visão, a ex-primeira-dama teria percebido que não pertence a esse ofidiário e que seu destino é mesmo “se dedicar aos cuidados do meu marido e da minha filha”, conforme disse na última segunda-feira ao renunciar à presidência do PL Mulher.
Outra hipótese, aventada por aliados de Valdemar Costa Neto, presidente do PL, é que Michelle Bolsonaro estaria preparando terreno para um voo-solo na política. Nesse caso, é atribuída ao próprio Valdemar a coautoria do enredo. Teria sido dele a ideia da produção do filmete que abalou o Brasil. Não é de hoje que o presidente do PL demonstra simpatia pela possibilidade de Michelle disputar a eleição à Presidência. Em julho do ano passado, disse com todas as letras que, à exceção de Bolsonaro, a ex-primeira-dama seria a “única a bater em Lula no segundo turno”. Agora mesmo, com a eclosão dos ataques a Flávio, Valdemar declarou à Folha de S. Paulo: “Se perdermos a Michelle, vai ficar muito difícil para nós”.
Por ora, as intenções eleitorais da Sra. Bolsonaro não estão muito claras. Assim como não está claro como Jair Bolsonaro se encaixaria nessa hipótese de Michelle trilhar seu próprio caminho nas urnas. Diante da esfinge, mesmo os defensores dessa versão têm mais dúvidas do que certezas. Seria uma ruptura total em relação ao clã? Um afastamento calculado, com algum grau de anuência do próprio marido? Michelle estaria sendo preparada para assumir a candidatura da franquia Bolsonaro à Presidência da República diante da percepção de que o nome de Flávio ficou inviável após a revelação das promíscuas relações com Daniel Vorcaro? São muitos os devorados aos pés da colossal escultura de pedra que surgiu na política brasileira desde a semana passada. A favor da tese do rompimento, ao menos com Flávio, estaria a constatação de que há um passivo de ressentimentos acumulados entre madrasta e enteados. Se ampliada para o clã como um todo, a versão da ruptura encontraria motivação em um eventual motim da ex-primeira-dama ao papel de subordinação que sempre lhe coube no bolsonarismo, um condomínio masculino, ditado pela consanguinidade: historicamente, Bolsonaro e os filhos não toleram forasteiros. Pode ser, pode não ser.
Como não poderia deixar de ser, tratando-se de uma trama que envolve Brasília, política, difamação e humilhação das mulheres, além de fraudes financeiras, há um capítulo para maiores de 18 anos. Nessa versão, Flávio teria participado de uma das festas de Vorcaro com suas suecas e francesas. Existiriam registros comprobatórios de que o jovem Bolsonaro esteve presente na “orgia”. Pesado, não? Pois bem, a notícia chegou a Michelle. E, assim como chegou a ela, o que impediria de chegar também aos opositores da família em meio à campanha eleitoral? O vídeo, nessa apimentada versão, teria tido o tamanho e a ênfase que uma evangélica praticante, dedicada ao marido e à filha, julgou necessários. Nesse caso, sua reação foi proporcional ao enlameamento que um episódio como esse, entre o “01” e Vorcaro, poderia causar a sua própria vida pública.
Uma quarta hipótese está posicionada na esquina entre a conspiração, a ousadia e o estapafúrdio. Essa versão aproximaria a campanha presidencial de 2026 no Brasil de Florença na virada do século XV para XVI. Neste enredo ao feitio de Maquiavel, tudo não passaria de um grande teatro familiar. A briga seria encenada para produzir comoção, reorganizar o bolsonarismo e, depois, desembocar em uma reconciliação pública, quase épica: o “Dia do perdão”. Michelle, Flávio, os enteados e aliados apareceriam juntos, em nome de um “projeto maior”, da agenda conservadora e da união da direita. Desvario ou uma sofisticada fronteira da arquitetura política? Seria a esfinge dentro da esfinge. Os Bolsonaro se caracterizam por fazer pós-política na era da pós-verdade. Nestes tempos de hipercomunicação atomizada, quem desorganiza os fatos e os embaralha como símbolos costuma ter êxito em guiar a percepção da realidade. Na semiótica do bolsonarismo, o vídeo de Michelle, o unfollow nos enteados, a renúncia ao PL Mulher e, mais adiante, um eventual reencontro público poderiam compor capítulos sucessivos de uma mesma narrativa de queda, expiação e redenção. Nada mais bíblico.
Mas, para cada peça que parece se encaixar nessa tese há outras dez que não se conectam entre si. Para que esse roteiro funcionasse, Flávio teria de aceitar permanecer por dias ou semanas no papel do presidenciável – e filho – humilhado, suportando o desgaste de ver sua candidatura sangrar, sua autoridade ser corroída e sua imagem pública ser submetida a um processo de escárnio. Seria um sacrifício de proporções incomuns, mesmo para uma família acostumada a instrumentalizar a vida privada como ativo eleitoral. Talvez Brasília seja seca demais para essa brisa renascentista.
Este borbulhante caldeirão de versões, contraversões e reversões, ressalte-se, é condimentado por um tempero especial: o silêncio do próprio Jair Bolsonaro. Uma semana depois do vídeo de Michelle, não se tem qualquer notícia se o ex-presidente soube previamente ou não da postagem. Assim como não se sabe como ele reagiu à “superprodução” de sua mulher nas redes e o que disse a ela ou ao filho diante da repercussão que o caso tomou. Para todos os efeitos, Bolsonaro está preso e não pode falar de viva voz. Mas nada o impede de se pronunciar por meio da própria Michelle, de Flávio, de Eduardo ou de Carlos. Ou de próprio punho. Foi exatamente o que ele fez em março deste ano, quando escreveu e deu visibilidade a uma carta defendendo Michelle de críticas de aliados: “Dirijo-me a todos que comungam conosco dos mesmos valores — Deus, pátria, família e liberdade — para dizer que lamento as críticas da própria direita dirigidas a alguns colegas e à minha esposa”. Agora, em um episódio muito mais grave, Bolsonaro estranhamente – ou seria calculadamente? – silencia. O ex-presidente é a esfinge dentro da esfinge dentro da esfinge.
Em meio a tantas incertezas que se bifurcam, quando não se trifurcam, sobre alguns pontos não há dúvidas. Um deles é que Michelle Bolsonaro construiu um expressivo capital político, notadamente entre o eleitorado feminino e mais conservador. É ela – e não Jair e muito menos Flávio – a ponte mais sólida entre os Bolsonaro e os evangélicos. Há outro fato também incontestável. Ao atear fogo no circo da sucessão presidencial, a ex-primeira-dama atraiu os holofotes na sua direção. O furacão Michelle tem varrido a mídia e as redes, como mostra levantamento feito pelo próprio RR a partir do Google Analytics. A pesquisa tomou como base 12 temas ou expressões de maior repercussão nas mídias do Brasil nesse momento, a saber, por ordem alfabética: “Banco Master”, “Bets”, “Copa do Mundo”, “Daniel Vorcaro”, “Desenrola”, “Donald Trump”, “Flávio Bolsonaro”, “Jair Bolsonaro”, “Lula”, “Michelle Bolsonaro”, “Tarifas + Estados Unidos” e “Taxas de juros”. Nos sete dias que antecederam a postagem do vídeo contra Flávio Bolsonaro, “Michelle Bolsonaro” aparecia em último lugar na comparação com todos os demais temas da pesquisa. Entre 24 de junho e ontem, ou seja, nos sete dias após a publicação do vídeo, a ex-primeira-dama disparou. Tornou-se o quarto tema mais comentado nas redes, atrás apenas de “Copa do Mundo”, “Bets” e “Donald Trump” – com a ressalva de que este último tem um enorme efeito dispersivo, uma vez que é citado em milhares de categorias e circunstâncias. Ou seja: desde a semana passada, Michelle deixou Lula e Flávio para trás em termos de exposição. Enquanto ninguém a decifra, um monolito de pedra confunde todos os oráculos da política.
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