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Política
Valdemar da Costa Neto, presidente do PL, tem uma conversa marcada para hoje com Michelle Bolsonaro. Vai falar com a ex-primeira-dama antes mesmo de se reunir com o candidato de seu partido à Presidência da República, Flavio Bolsonaro. Segundo informações obtidas pelo RR, Marcos Pereira, dirigente-mor do Republicanos, também costura um encontro com Michelle até o fim desta semana. De acordo com a mesma fonte, Antônio Rueda, presidente do União Brasil, tem mantido intensa interlocução com a madrasta de Flavio. E o Partido Novo – não obstante ter candidato próprio, Romeu Zema – também enviou sinais de que almeja uma aproximação. Além das mais de 11 milhões de menções nas redes sociais, o vídeo de 26 minutos contra Flavio, postado pela Sra. Bolsonaro na semana passada, pode ter mudado a hidrografia da disputa eleitoral. Ao menos nos últimos dias, o rio passou a correr na direção de Michelle. E foi exatamente esse o ardiloso estratagema que moveu a ex-primeira-dama. Nas entrelinhas, foi como se Michelle tivesse dito: “Venha a mim o vosso reino”. E o reino da direita, ao que parece, está atendendo ao chamamento.
Michelle Bolsonaro cindiu por dentro a candidatura de Flavio Bolsonaro. O cavalo – mais precisamente um Dark Horse – passou encilhado a sua frente. A última e ameaçadora frase de seu inesperado vídeo – “Eu sei mais do que eles pensam” – deixou cartas-chave do baralho na sua mão. O que ela sabe tanto que os demais devem temer? Será sobre Flavio? Eduardo? Carlos? Quem? O quê? Talvez até a pendenga eleitoral no Ceará, motivo da explicação pública para a rachadura familiar, tenha dupla utilidade. Justificaria, como justificou até agora, a ousada rasteira na banda consanguínea do clã. Pode ser.
Mas não é de hoje que Michelle vem mostrando suas unhas para a petizada bolsonarista. Buscando um lugar na prateleira de cima. A situação que foi criada nas atuais circunstâncias leva a um enorme constrangimento. Até prova em contrário, ou seja, uma manifestação formal, tudo leva a crer que Jair sabia do vídeo, uma superprodução do gênero que não foi pensada, decidida e gravada de uma hora para outra. Ao contrário, Jair não saiu da toca para posicionar-se de qualquer maneira em relação ao feito – o que provavelmente seria feito pela voz de um dos filhos dada sua prisão. E deixou para Flávio e os atônitos “flavistas” uma única saída quando inquiridos sobre a inesperada mudança de rota e quem, eventualmente, deve ser ungido como o candidato da direita. “Não há mais o que dizer sobre isso. Bolsonaro já indicou publicamente o filho.”
É até bastante provável que Michelle não queira sair da confortável posição de senadora virtualmente eleita. Menos ainda assumir o papel de vice-presidente coadjuvante dos enteados que a tratam com desprezo. Aliás, com outras palavras, ela se queixa dessa atitude no fatídico vídeo. Mas desejaria se candidatar à Presidência a essa altura do jogo? Faria um movimento extremo de se lançar sem que o marido se manifestasse publicamente? Todas essas perguntas sequer poderiam ser cogitadas até o dia 24 de junho. Porém, ao se vitimizar de uma forma tão, digamos assim, politicamente profissional, trazer para si o papel de maior galvanizadora do eleitorado feminino – aquele que Flávio não tem -, e colar no enteado a pecha de machista e desrespeitoso, Michelle pode estar, sim, operando com maestria uma virada de mesa.
A ligação com Vorcaro mina a votação de Flavio entre o eleitorado feminino e conservador, leia-se evangélico, exatamente o terreno político por onde Michelle se movimenta com fluência e forte capacidade de sensibilização. Ao confrontar Flavio, com uma só cajadada, questionou sua autoridade política e sua capacidade de conduzir o espólio eleitoral de Jair Bolsonaro sem contaminar o projeto com seus próprios passivos. Mais do que isso: colocou uma pulga de algumas toneladas na balança da direita. Dirigentes partidários que até dias atrás orbitavam em torno de Flavio passaram a buscar Michelle, direta ou indiretamente. O movimento revela uma reacomodação silenciosa: a direita começa a testar se a ex-primeira-dama é apenas uma voz de veto ou se já se posiciona como potencial cabeça de chapa. As pesquisas parecem gostar da moça. Não por acaso, sondagens realizadas desde 2023 vêm mostrando Michelle como um dos nomes da direita com menor rejeição e melhor desempenho nesses grupos específicos. A ver se as próximas pesquisas, com a sua inclusão em novas comparações, confirmarão sua vantagem comparativa em relação ao enteado em um certame com Lula, o favorito na disputa eleitoral até agora.
A ascensão de Michelle desorganiza e reorganiza a direita e representa uma notícia desconcertante para a campanha de Lula. Ao longo dos últimos anos, o PT estruturou boa parte de sua estratégia eleitoral na reedição da polarização com o bolsonarismo em sua forma mais tradicional. Uma candidatura de Flavio preservaria essa lógica: seria possível associá-lo diretamente ao legado político e às controvérsias acumuladas pelo governo Jair Bolsonaro, mantendo a disputa no terreno em que o lulismo já travou e venceu uma eleição presidencial. Michelle, porém, desloca o eixo desse confronto. Sua imagem pública é construída sobre atributos distintos: mulher, mãe, liderança de grande influência entre os evangélicos e personagem menos identificada com o embate político cotidiano. Caso sua candidatura ganhe densidade, o Planalto será obrigado a reconstruir parte importante de sua estratégia eleitoral. O lulismo deixaria de enfrentar apenas um sobrenome para ter um confronto com um perfil político diferente, com capacidade de ampliar as fronteiras eleitorais do bolsonarismo e tornar muito mais complexa a narrativa de uma disputa baseada exclusivamente na rejeição ao legado do ex-presidente.
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