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Talvez seja o caso de se começar a calcular o “PIB JBS”. Há muito que o potentado dos irmãos Batista deixou de ser uma corporação para se tornar uma espécie de empresa-nação, tamanha a malha de interesses geoeconômicos do grupo que se estende por diversas latitudes. A JBS está se posicionando estrategicamente para ser um dos grandes supridores globais de matéria-prima. A proteína animal é jogo jogado. O olhar se volta agora para setores nos quais os irmãos Batista já operam, ainda de forma incipiente, ou pretendem entrar. No primeiro caso, está o segmento de óleo e gás, no qual a holding, J&F Investimentos, milita por meio da Fluxus. No segundo, desponta o setor de minerais críticos. Segundo informações filtradas pelo RR, a JBS pretende investir na extração de minérios estratégicos para transição energética.
Joesley e Wesley Batista chegaram a um ponto que já não negociam mais estritamente com empresários, mas também com entes soberanos. Tal qual um Estado, os irmãos Batista articulam “acordos bilaterais” com países centrais ou mesmo blocos econômicos, voltados ao suprimento de matérias-primas. Os interesses de Joesley e Wesley se espalham por uma ampla cartografia. O que começa a se desenhar é um mapa global de potenciais negócios que envolve energia, minerais estratégicos e infraestrutura — não por coincidências setores que estão no centro da disputa geopolítica contemporânea.
O Oriente Médio aparece como um dos primeiros e mais evidentes vértices desse mapa. A região concentra metade das reservas mundiais de petróleo e abriga alguns dos maiores fundos soberanos do planeta, responsáveis por trilhões de dólares em investimentos globais. Países como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Omã e Qatar vêm conduzindo programas agressivos de diversificação econômica, abrindo espaço para parcerias industriais e financeiras com grandes conglomerados internacionais. Para a J&F, esse ambiente pode representar uma porta de entrada para negócios ligados à energia e à petroquímica, seja por meio de joint ventures com fundos soberanos, seja por participações em projetos de refino, infraestrutura energética ou trading internacional de petróleo e derivados. A lógica é clara: aproximar-se de governos que buscam parceiros privados capazes de integrar cadeias estratégicas de alimentos, logística e energia.
Outro eixo potencial de expansão está no continente africano, onde se desenrola atualmente uma verdadeira corrida global por minerais críticos. A transição energética e a digitalização da economia aumentaram exponencialmente a demanda por insumos como cobre, lítio, níquel, cobalto e terras raras — elementos essenciais para baterias, turbinas eólicas, redes elétricas e semicondutores. A África concentra algumas das maiores reservas desses minerais. A República Democrática do Congo responde por grande parte da produção mundial de cobalto; a Zâmbia é um dos principais produtores de cobre; a Namíbia possui reservas relevantes de urânio e minerais estratégicos; e Moçambique desponta como fornecedor de grafite e gás natural. Para um grupo com acesso a capital global e interlocução política internacional, não seria surpreendente ver a J&F participar de consórcios de mineração, projetos de exploração mineral ou iniciativas de infraestrutura associadas à exportação desses recursos — como portos, ferrovias e corredores logísticos.
A América Latina, por sua vez, surge como uma fronteira natural para a expansão no setor energético. A região concentra algumas das maiores reservas de petróleo e gás do mundo, além de projetos de exploração ainda em fase inicial. A Venezuela, detentora das maiores reservas comprovadas de petróleo do planeta, pode voltar ao radar de investidores internacionais caso ocorra uma abertura econômica mais ampla no país. A Argentina abriga em Vaca Muerta uma das maiores formações de shale gas e shale oil fora da América do Norte. Nesse tabuleiro, a Fluxus — empresa de óleo e gás criada pela J&F — pode se tornar a plataforma para uma entrada mais consistente do grupo no setor energético.
Outro eixo geoeconômico relevante envolve a Ásia, especialmente China e Sudeste Asiático, regiões que dominam boa parte da cadeia global de processamento de minerais estratégicos. A China lidera mundialmente o refino de terras raras e o processamento de lítio, além de controlar grande parte da produção de baterias utilizadas em veículos elétricos e sistemas de armazenamento de energia. Países do Sudeste Asiático também ganharam protagonismo nesse mercado. A Indonésia tornou-se um dos maiores produtores mundiais de níquel, elemento central para baterias de alta densidade energética. A Malásia abriga importantes instalações de refino de terras raras. O Vietnã possui depósitos minerais relevantes e vem atraindo investimentos industriais voltados à cadeia de semicondutores e eletrônicos. Nesse contexto, uma aproximação da J&F com esse eixo asiático poderia envolver acordos de fornecimento de minerais, parcerias industriais ou investimentos conjuntos em mineração em terceiros países.
O Brasil e os Estados Unidos estão no epicentro dessa construção, seja pelo império empresarial já constituído pela J&F nos dois países, seja pela notória relação entre os irmãos Batista e os presidentes Lula e Donald Trump. Todos os movimentos estratégicos do grupo irradiam a partir dos territórios brasileiro e norte-americano, passando quase que obrigatoriamente pelo Palácio do Planalto e pela Casa Branca. Por sinal, se Trump e Lula desenvolveram uma química, no caso dos irmãos Batista parece haver uma relação quase telepática entre eles e o mandatário dos Estados Unidos. Não por acaso, nenhuma outra corporação brasileira está tão imersa na questão do Oriente Médio. A exemplo da Venezuela, mais uma vez os passos de Joesley e Wesley Batista seguem o tracejado das pegadas de Donald Trump e de sua belicosa política externa. Follow the money and follow the war. A J&F tem um vasto leque de negócios para ofertar.
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