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Opinião
Claudio Rial Fernandez, editor
Donald Trump subiu ao pódio da Copa do Mundo para entregar a taça à Espanha claramente disposto a capturar parte da celebração. O presidente da Fifa, Gianni Infantino, benevolente e submisso às seguidas ingerências trumpistas no evento, tentou conduzi-lo discretamente para fora do centro do palco. Trump resistiu por alguns instantes. Mikel Merino imitou com ironia o conhecido movimento de braços do presidente norte-americano, transformando a coreografia em deboche. Rodri, o capitão da Espanha, segurou a taça, olhou de soslaio para Trump e esperou que ele começasse a se retirar. Só então levantou o troféu. Minutos antes, a cerimônia de entrega das medalhas já havia registrado pequenos gestos de antipatia ao chefe de governo. Borja Iglesias apertou a mão do presidente sem encará-lo e aparentemente ignorou uma tentativa de interlocução. Unai Simón, que já o havia cumprimentado secamente ao receber a premiação de melhor goleiro da Copa, sequer repetiu a formalidade ao ganhar sua medalha de campeão. Lamine Yamal limitou-se a um contato rápido, que parte da imprensa e das redes interpretou como frieza. Nenhuma dessas atitudes, isoladamente, autoriza uma conclusão definitiva sobre a intenção dos jogadores. Reunidas no mesmo pódio, porém, elas formaram uma sequência política difícil de ignorar.
Não se tratava apenas de cinco atletas demonstrando maior ou menor simpatia por uma autoridade. Diante de Trump estavam cinco jogadores formados em cinco ambientes territoriais e sociais diferentes: a Galícia de Borja Iglesias, a Navarra de Mikel Merino, o País Basco de Unai Simón, a Comunidade de Madri de Rodri e a Catalunha metropolitana de Lamine Yamal. Regiões com histórias próprias, sistemas partidários distintos e relações muito diferentes com o poder central, a identidade espanhola, a autonomia, a imigração e a própria ideia de nação.
Seria simplista afirmar que os jogadores reagiram daquela forma porque nasceram nessas comunidades. Até porque nem tudo é o que parece. O comportamento dos referidos atletas carrega um volume de contradições maior do que a posse de bola da Espanha na decisão. Rodri cresceu em uma das áreas mais conservadoras da região madrilenha. A Galícia de Borja Iglesias é um dos principais redutos eleitorais do Partido Popular, de direita. Navarra foi historicamente um centro do tradicionalismo católico. O País Basco é politicamente plural e não pode ser confundido com uma única corrente nacionalista. As origens regionais não explicam sozinhas os gestos. Servem, porém, para revelar a densidade simbólica da cena de uma nação formada por muitas nações.
Borja Iglesias oferece a associação mais concreta porque sua posição pública não começou no encontro com Trump. Ao longo da carreira, o atacante se manifestou contra o racismo, a homofobia e os códigos rígidos de masculinidade ainda predominantes no futebol. Pintou as unhas, apoiou campanhas em defesa da diversidade e enfrentou ataques por se pronunciar sobre temas que muitos jogadores preferem evitar. Antes mesmo da final, já havia demonstrado desconforto diante da perspectiva de encontrar o presidente norte-americano. Seu cumprimento protocolar, sem contato visual e sem qualquer esforço para prolongar a interação, não foi, portanto, um episódio desconectado de sua trajetória.
Borja nasceu em Santiago de Compostela, cidade em que diferentes Galícias convivem. Há a Galícia conservadora, católica, rural e eleitoralmente fiel ao PP. Há também uma tradição galeguista, republicana, autonomista e de esquerda, construída em torno da defesa da língua, da cultura regional e da resistência à homogeneização vinda do centro. O próprio arranjo constitucional espanhol reconhece o galego como língua oficial da comunidade, uma das chamadas nacionalidades históricas do país. O atacante representa uma dissidência progressista dentro de uma região majoritariamente conservadora. Sua trajetória pública se aproxima da Galícia urbana, culturalmente heterodoxa e menos disposta a aceitar como naturais os padrões tradicionais de gênero, autoridade e comportamento.
Mikel Merino trouxe ao palco outra Espanha. Nascido em Pamplona, vem de um território que reúne tradições políticas aparentemente inconciliáveis. Navarra foi um dos grandes centros históricos do carlismo, movimento monarquista, católico e contrarrevolucionário. Ao mesmo tempo, o carlismo navarro incorporou a defesa dos fueros, os antigos direitos e instituições próprias da região. Essa combinação entre conservadorismo social e resistência ao centralismo ajudou a formar uma cultura política singular, que não cabe confortavelmente na divisão convencional entre direita e esquerda.
Na Navarra contemporânea convivem o navarrismo conservador, o socialismo, o nacionalismo basco, o independentismo de esquerda e diferentes formas de autonomismo. A própria denominação oficial de Comunidade Foral conserva a memória de uma relação com o Estado espanhol baseada não apenas em submissão às decisões de Madri, mas em pactos, competências próprias e direitos históricos. O sistema territorial espanhol reconhece tanto em Navarra quanto no País Basco regimes forais que os diferenciam das demais comunidades autônomas.
Unai Simón acrescenta a esse quadro uma das identidades territoriais mais fortes da Espanha. Nascido em Vitoria-Gasteiz e criado em Murgia, na província de Álava, o goleiro chegou ainda adolescente ao Athletic Club e construiu toda a sua carreira profissional na equipe de Bilbao. Sua ligação com o País Basco não é apenas biográfica. Está inscrita também no clube que representa. O Athletic mantém uma política centenária de escalar somente jogadores nascidos ou formados futebolisticamente nos territórios bascos. Não há muitos clubes de elite no mundo cuja composição do elenco esteja tão diretamente associada a uma identidade territorial. No Athletic, a origem dos jogadores não é uma circunstância lateral. É parte da definição da instituição. Ao defender a seleção espanhola, Unai carrega simultaneamente duas pertenças que não precisam ser excludentes: é o goleiro da Espanha e um dos principais símbolos esportivos contemporâneos do País Basco.
Rodri desmonta qualquer interpretação determinista. Nascido em Madri e criado em Villanueva de la Cañada, o capitão vem de uma região governada pelo PP desde 1995 e de um ambiente eleitoral fortemente conservador. Sua biografia territorial não permite apresentá-lo como expressão natural de uma Espanha progressista ou antitrumpista. Exatamente por isso, seu comportamento talvez tenha sido o mais significativo. O gesto mais institucionalmente eficaz contra o excesso de protagonismo de Trump veio de um atleta formado na comunidade que se tornou o principal laboratório político da direita espanhola.
Lamine Yamal, por sua vez, oferece a imagem socialmente mais carregada. Nascido em Esplugues de Llobregat e criado em Rocafonda, em Mataró, é filho de pai marroquino e mãe da Guiné Equatorial. Cresceu em um bairro operário, de renda relativamente baixa e marcado pela presença de famílias vindas de outras partes da Espanha e, posteriormente, de vários países. Transformou os três últimos algarismos do código postal de Rocafonda, 304, em uma assinatura pessoal exibida nas comemorações. Rocafonda pertence à Catalunha metropolitana construída por sucessivas ondas migratórias. Primeiro chegaram trabalhadores da Andaluzia, Extremadura, Múrcia e de outras regiões espanholas para abastecer a industrialização catalã. Depois vieram marroquinos, latino-americanos, africanos subsaarianos e famílias de várias origens. Por isso, o breve encontro entre Lamine e Trump concentra um embate maior do que a expressão facial do jogador transparecia. De um lado estava um presidente que fez do fechamento de fronteiras, das deportações e da hostilidade à imigração pilares de sua identidade política. Do outro, um filho da imigração africana, convertido em símbolo nacional espanhol.
Com a subserviência de Infantino, Donald Trump mergulhou em um notório projeto de takeover da Copa. O presidente anulou o cartão vermelho de Balogun, impediu que a delegação do Irã permanecesse em território norte-americano antes e depois dos jogos, negou o visto ao árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, restringiu a entrada de torcedores iranianos, haitianos, marroquinos, egípcios, jordanianos, iraquianos e uzbeques. O ato final foi a tentativa de dividir as atenções com os campeões do mundo. Não conseguiu. Assim como o time da Argentina caiu na impressionante teia da Espanha, notável por aprisionar os adversários dentro do seu estilo de jogo, Trump também foi enredado. Perdeu a bola para as diversas Espanhas que estavam ao seu redor: a Galícia de Borja Iglesias, a Navarra de Merino, o País Basco de Unai Simón, a Madri de Rodri e a Catalunha imigrante de Lamine Yamal. As muitas Espanhas fecharam os espaços. Trump saiu de cena. A taça subiu.
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