BTG cresce sendo o curativo do PT para feridas bancárias

Destaque

BTG cresce sendo o curativo do PT para feridas bancárias

  • 13/07/2026
    • Share

O que o Banco PanAmericano, o Master e o Digimais têm em comum além de barbeiragens, fraudes e rombos bilionários? Ganhou um “Vale FGC” quem cravou o nome de André Esteves. O dono do BTG tornou-se uma espécie de “banqueiro-esparadrapo” das chagas de instituições financeiras. Coincidentemente, todas nas gestões do PT. É óbvio que é sempre um jogo de ganha-ganha. A cada bandagem equivalem novos ativos. O “queridinho” do PT tem uma entrada única nos corredores que vão do Ministério da Fazenda ao Banco Central e chegam até o Palácio do Planalto. A missão de momento é a cicatrização do banco do bispo Edir Macedo. Uma operação que carrega similitudes com o Master. Sem tanta luz, Esteves trabalha junto ao Banco Central e ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC) na montagem de uma engenharia financeira capaz de viabilizar a aquisição do controle do Digimais. O desenho conhecido é uma espécie de leilão, por ora com participante único. A proposta do BTG serviria de stalking horse, o lance de referência a ser submetido a um processo competitivo organizado com o acompanhamento do FGC. Outros bancos poderiam cobri-la; até agora, porém, nenhum concorrente apareceu publicamente. E nem deve aparecer. A fonte do RR diz que Esteves costura os termos sob medida. O riscado não tem um milímetro a mais na vestimenta perfeita para o banqueiro e o BC. No caso, também para o Bispo Edir Macedo e Lula.

A “Operação Curativo” do Digimais chama a atenção pela repetição do método. Nada muito diferente do que o BTG se dispôs a fazer recentemente com o Master – Esteves chegou a apresentar uma oferta simbólica de R$ 1 para assumir a instituição financeira, depois de arrematar ativos bons da instituição de Daniel Vorcaro sob o argumento de capitalização. Para não variar, foi o único que tentou ingressar no jogo. Tentou, tentou e tentou achar uma solução com o BC. Mas o Master é um buraco negro. Um jogo de perde-perde. Impossível colocar o tradicional band-aid. O Digimais não tem comparação com o furacão do Master, com suas fraudes apontadas pela Polícia Federal e pelo BC. A aquisição do banco evangélico será um esparadrapo que remete à arquitetura idealizada em 2011 para evitar a quebra do PanAmericano, de Silvio Santos – coincidentemente também um empresário da área de mídia, assim como Edir Macedo. Há 15 anos, o BTG ajudou a estancar a hemorragia do PanAmericano e livrar a gestão Dilma Rousseff de um problema de maiores proporções. À época, a interlocução mais intensa era com o então ministro da Fazenda, Guido Mantega. 

Para além da recorrente prestimosidade de Esteves com os governos do PT, há outra coincidência marcante: em todas as operações, o BTG costuma contar com o suporte financeiro alheio para concluir os negócios. Foi assim no caso do PanAmericano, quando teve o oportuno apoio da Caixa Econômica, que ficou com 49% das ações. Quando a crise do banco explodiu, o FGC emprestou inicialmente R$ 2,5 bilhões ao Grupo Sílvio Santos; Esteves desembolsou outros R$ 450 milhões para adquirir o controle. O preço foi baratinho, ainda mais contando o valor da ajuda política. Quase foi assim em relação ao Master e só será assim na eventual aquisição do Digimais, negociação condicionada a uma enxurrada de recursos do FGC para cobrir os CDBs do banco.

As operações são sempre labirínticas, entrecortadas por passagens com iluminação crepuscular. O BTG sabe por onde entra e como sai. Talvez por isso a ausência de concorrentes. A exemplo do que ocorre agora com o Digimais, o BTG também foi o único candidato à compra do PanAmericano. Por falar em padrões repetidos, tanto em 2011, quando a instituição de Silvio Santos quase foi à bancarrota, quanto agora, no iminente salvamento do banco de Edir Macedo, o “esparadrapo André Esteves” é acionado com extrema boa vontade e anuência do próprio Banco Central. Provavelmente nenhum outro banqueiro teve tantas reuniões com as autoridades fazendária e monetária nos últimos meses quanto Esteves, assim como nenhum outro coloca repetidamente os mandachuvas da economia do governo em seu palco de marketing. O banqueiro tem costurado a aquisição do Digimais em permanente diálogo com o presidente do BC, Gabriel Galípolo. A fronteira entre supervisão e engenharia de salvamento fica especialmente estreita nessas operações. 

Assim como no caso do PanAmericano, a eventual aquisição do Digimais ajudará o BTG a subir mais um degrau em sua escalada no varejo, por meio do Banco Pan. Ao incorporar o banco de Edir Macedo, o Pan sairia de R$ 75 bilhões para mais de R$ 85 bilhões em ativos, ultrapassando no ranking bancário instituições como ABC Brasil, PagSeguros, Daycoval e Banco Inter. Agregaria ainda uma carteira de crédito da ordem de R$ 2,5 bilhões – praticamente concentrada em veículos (R$ 1,4 bilhão) e consignados (R$ 900 milhões). Ressalte-se que o financiamento para a compra de automóveis é o grande motor do Pan na área de crédito: são mais de R$ 30 bilhões, ou quase 60% da carteira de empréstimos. Para além das cifras, o braço varejista de André Esteves ganharia uma base de 145 mil clientes. O número é modesto diante dos 31,5 milhões de clientes do Pan. Mas trata-se de uma base fiel. Literalmente fiel. Em sua maioria, a clientela do Digimais é composta por seguidores da Igreja Universal do Reino de Deus. Uma legião de eleitores que segue a religião. E é sempre bom ter o bispo Macedo como aliado.

Não custa lembrar que o BTG comprou junto ao Master cerca de R$ 1,1 bilhão em empréstimos consignados do Credcesta, a maior parte por meio do FIDC Alternative Assets I. No tempo, esses ativos eventualmente podem sair do guarda-chuva do BTG e ser transferidos para o Pan. É o mais provável, pois confirmaria a conhecida estratégia do banco de escalar no varejo. Pelo perfil, seria o habitat natural para essa massa de empréstimos. Mesmo porque o BTG incorporou as ações do Pan, transformando-o em subsidiária integral. O movimento, anunciado no fim de 2025 e refletido nos números consolidados de 2026, eliminou a distância societária entre o banco de investimento e seu braço popular. O Pan deixou de ser apenas uma participação estratégica e passou a integrar diretamente a máquina do BTG. No primeiro trimestre deste ano, o grupo criou formalmente a área de Consumer Finance & Banking, reunindo os negócios voltados ao consumidor. A nova frente já respondia por cerca de 11% da receita e, nos planos internos, pode chegar a 15% ou 20% em três anos. Não é mais uma aventura lateral. É uma das apostas centrais do conglomerado.

Há ainda outra peça nessa montagem: a MeuTudo, fintech de consignado controlada pelo BTG, com originação mensal próxima de R$ 2,5 bilhões. Pan, MeuTudo, carteiras do Credcesta e, eventualmente, o consignado do Digimais formam um conjunto de canais que podem disputar o mesmo cliente por portas diferentes, sem necessariamente operar dentro da mesma pessoa jurídica. A arquitetura societária é secundária. O que importa é que os dados, o funding, a tecnologia e o capital pertencem ao mesmo cérebro financeiro.

O BTG é um colosso da Faria Lima. Atualmente é sexto no ranking dos bancos em ativos totais e tem R$ 2,6 trilhões sob gestão. Gradativamente, o grupo vai esticando seus tentáculos também para o Tatuapé. Não é uma marcha de passos largos ou de grandes aquisições. A expansão de Esteves no varejo tem sido um projeto de paciência, baseado em um enorme senso de oportunidade. O BTG tornou-se o depositário quase oficial das raspas e restos de bancos feridos. André Esteves parece estar sempre no lugar certo na hora certa. E de preferência nos governos do PT. 

#BTG

Leia Também

Todos os direitos reservados 1966-2026.

Rolar para cima