A Rede D’Or está aumentando a dosagem do seu programa de investimentos. Segundo informações apuradas pelo RR, internamente a empresa já trabalha com a meta de abrir até 850 novos leitos ao longo deste ano, acima das próprias estimativas já apresentadas para 2026 (em torno de 780) e do número de unidades adicionadas em 2025 (aproximadamente 680). Os planos de expansão ainda mais agudos contrastam com o mau humor momentâneo do mercado após a recente divulgação dos resultados de 2025. O Ebitda e lucro líquido 5% abaixo das estimativas de consenso e o ligeiro aumento das despesas operacionais levaram a uma queda de 4,5% na ação da Rede D’Or em um único pregão. A julgar por um exame mais apurado dos números do grupo, talvez a reação negativa do mercado possa ser diagnosticada como uma sensibilidade exacerbada a ruídos trimestrais ou até mesmo um quadro de histeria. A resposta dos investidores não encontra justificativa nas projeções de médio e longo prazo da Rede D’Or, especialmente no que diz respeito à SulAmérica, que está por trás do “surto de decepção” nas bolsas.
A importância da SulAmérica dentro do grupo
O mercado ainda parece precificar a Rede D’Or isoladamente como uma operadora hospitalar premium, quando os números já mostram outra realidade. Em 2025, a SulAmérica registrou receita líquida de R$ 33,2 bilhões, crescimento de 10,5% sobre o ano anterior, enquanto a operação hospitalar somou R$ 35,5 bilhões de receita bruta. No consolidado, o grupo alcançou R$ 60,4 bilhões. Isso significa que o braço de seguros e previdência já representa uma das maiores — senão a maior — vertentes de receita dentro do ecossistema da companhia. Não se trata mais de um complemento estratégico, mas de um vetor central de escala e recorrência.
Tendência da sinistralidade
O indicador mais relevante para avaliar a qualidade técnica de uma seguradora é a sinistralidade, e aqui reside o principal argumento para desmontar a leitura pessimista. Em 2025, a sinistralidade consolidada média da SulAmérica caiu para 79,0%, melhora de 3,1 pontos percentuais em relação a 2024 e de 7,4 pontos frente a 2023. No quarto trimestre, a taxa ficou próxima de 76%, evidenciando uma trajetória consistente de ajuste técnico. Em uma base de receita superior a R$ 33 bilhões, cada ponto percentual de sinistralidade representa centenas de milhões de reais em potencial ganho operacional. A melhora não é marginal: é estrutural. Indica melhor precificação, maior disciplina atuarial e possível captura de sinergias com a rede própria hospitalar.
Crescimento com qualidade
Além da melhora técnica, a SulAmérica cresceu com qualidade. A base de beneficiários de saúde e odontologia superou 5,9 milhões de vidas, avanço de 11,3% em doze meses. A receita acompanhou essa expansão, reforçando que o crescimento não veio apenas de reajustes pontuais, mas de ganho efetivo de escala. No segmento odontológico, o crescimento foi ainda mais acelerado. Ao mesmo tempo, as despesas administrativas, desconsiderando provisões para contingências, permaneceram controladas em 4,5% da receita líquida, abaixo dos níveis observados no período pré-incorporação. Isso sugere eficiência crescente e captura real de sinergias operacionais.
Rentabilidade consolidada
O dado que mais contrasta com a reação negativa do mercado é a expansão da rentabilidade. O Ebitda da SulAmérica atingiu R$ 2,3 bilhões em 2025, crescimento de 75,7% sobre o ano anterior. Considerando o resultado financeiro dos ativos vinculados, o EBITDA ajustado alcançou R$ 3,8 bilhões, avanço de 65%. Trata-se de uma aceleração expressiva, que demonstra que a integração entre seguradora e rede hospitalar já começa a produzir ganhos concretos. Ainda que parte do resultado financeiro tenha sido beneficiada pelo ambiente de juros elevados, o crescimento operacional puro já é suficiente para indicar fortalecimento da geração de caixa recorrente.
Ruídos e como eles se diluem
É inegável que houve ruídos. Despesas comerciais cresceram acima da receita, provisões para contingências aumentaram e a leitura consolidada foi afetada por despesas financeiras mais altas. Contudo, esses elementos não alteram a tendência principal: queda consistente da sinistralidade, expansão da base e crescimento expressivo do Ebitda. Mesmo com a pressão em despesas específicas, a seguradora entregou forte avanço de resultado. O mercado reagiu ao trimestre; os fundamentos, porém, apontam para um ciclo mais longo de amadurecimento da operação.
Uma perspectiva mais ampla para 2026
O que os números de 2025 indicam é que a SulAmérica deixou de ser vista como um ativo em fase de ajuste pós-aquisição para se consolidar como um motor de rentabilidade dentro da Rede D’Or. Com sinistralidade em trajetória descendente, base crescente, eficiência administrativa preservada e Ebitda em expansão acelerada, o braço segurador tende a ganhar peso crescente na geração de caixa do grupo. Se a sinistralidade recuar mais um ponto percentual ao longo de 2026 — hipótese plausível diante da tendência recente — o impacto potencial no resultado operacional pode alcançar centenas de milhões de reais adicionais. Nesse cenário, a leitura negativa do mercado parece menos um diagnóstico estrutural e mais um reflexo de expectativas elevadas em um trimestre específico. A trajetória, quando observada em perspectiva, sugere fortalecimento do ecossistema integrado e ampliação do potencial de rentabilidade recorrente.