Claudio Castro deu um ippon no governo Lula. O presidente e seus principais auxiliares parecem imobilizados, sem saber como se desvencilhar da chave de perna política aplicada por Castro com a megaoperação policial da última terça-feira no Rio. O governador do Rio alçou o tema da segurança pública à ordem do dia, assumindo o protagonismo à frente de uma agenda na qual a gestão federal tem muito pouco ou quase nada a mostrar. O impacto do golpe pode ser medido pela própria comunicação do Palácio do Planalto. O episódio impôs ao prestigiado Sidônio Palmeira, ministro-chefe da Secom, seu primeiro grande revés no cargo. E quem o diz, intramuros, são colaboradores diretos do presidente Lula. Em conversas reservadas ao longo do fim de semana, assessores palacianos dispararam críticas a Sidônio e à estratégia de comunicação adotada pelo governo em resposta à operação autorizada por Castro, por sua tibieza e por ter se revelado um tiro no pé.
Na quarta-feira, um dia após a ofensiva do governo do Rio contra o Comando Vermelho, a Secom lançou uma campanha nas redes sociais focada em segurança pública. Logo na primeira postagem (um vídeo curto no Instagram), mencionou que “matar 120 pessoas não adianta nada no combate ao crime” e que é preciso ter “mais inteligência e menos sangue”. Talvez Sidônio tenha se preocupado mais em fazer uma peça para aplacar pressões internas do PT, motivadas por discursos em defesa dos direitos humanos, do que em calibrar a mensagem de acordo com a pulsação da sociedade. O resultado foi desastroso. As pesquisas de opinião solaparam a narrativa do governo e escancaram a dessintonia entre a gestão Lula e o eleitorado na área de segurança pública. No Datafolha, 57% dos entrevistados aprovaram a megaoperação que resultou em 121 mortos. Na pesquisa Genial/Quaest, o endosso foi ainda maior: 64%. De acordo com a mesma sondagem, a popularidade de Claudio Castro subiu 10 pontos, de 43% para 53%. Dados do tracking diário recebidos pela Secom vão na mesma direção – segundo informações filtradas pelo RR, no estrato abaixo de cinco salários-mínimos, o índice de aprovação à incursão policial passou de 70%. Ao contrário do reclame publicitário do governo federal, tudo indica que a população, cansada de tanta violência, quer, sim, mais “sangue”.
A reação do governo à ofensiva da gestão Claudio Castro na área de segurança pública já provoca divisões entre os aliados mais próximos de Lula. No Planalto, o ministro Rui Costa é uma das vozes que se levanta em defesa de um discurso mais agressivo contra o crime. Uma mistura de pragmatismo político e track records. Durante a sua gestão, o governo baiano intensificou operações policiais mais duras e violentas, algo que foi seguido por seu sucessor, Jerônimo Rodrigues. A Polícia da Bahia é a segunda que mais mata no país, atrás apenas das forças de segurança do Amapá. Por ora, enquanto o Planalto modula sua posição, é sintomático que Lula tenha feito menção ao tema uma única vez – e, ainda assim, por meio de um post protocolar com 138 palavras. Do ponto de vista do desgaste político do governo, a parte boa é que o presidente da República não falou. A parte ruim é que o presidente da República não falou. Se o objetivo do Palácio do Planalto era esperar a repercussão da comunicação institucional e do discurso crítico à violenta operação no Rio para só, então, Lula se manifestar publicamente, as sondagens ajudaram a empurrar o presidente ainda mais para dentro da toca. As pesquisas de opinião, que já apontavam a segurança pública na frente da saúde, catapultaram esse quesito como prioridade do eleitorado. E a gestão Lula está mal na fita. Segundo levantamento da Paraná Pesquisas, 45,8% dos entrevistados afirmam que a segurança no Brasil piorou com o atual governo – somente 17,2% acreditam ter melhorado. Por mais que a enquete reflita o calor do momento – os dados foram divulgados na última quarta-feira, um dia após a operação policial do Rio -, parece claro que a um ano da eleição Lula foi arrastado para um corner. Castro envernizou e reempacotou um tema historicamente mais afeito à direita e com o qual a esquerda sempre se embananou.