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6/02/2026
Disputa no governo trava definição sobre comando da cibersegurança no Brasil
6/02/2026Há uma disputa intestina dentro do governo em torno de um tema extremamente sensível: a segurança cibernética no Brasil. O Gabinete de Segurança Institucional (GSI), vinculado à própria Presidência da República, e o Ministério da Gestão e Inovação duelam entre si pela primazia na formulação, gestão e controle das políticas de proteção de dados no Brasil. O GSI joga em dobradinha com a Anatel, defendendo um modelo em que ambos assumam e compartilhem o mando sobre a segurança digital dentro da gestão federal. O próprio ministro chefe do Gabinete, general Marco Antonio Amaro, tem trabalhado pessoalmente em favor desse desenho. Como seria de se imaginar, vocaliza as Forças Armadas, que tratam a cibersegurança como um assunto de soberania e defesa nacional e consideram que o GSI deve ter um papel de protagonismo nessa questão. E, pouco a pouco, o Gabinete de Segurança Institucional vem conquistando terreno. Em dezembro, o Comitê Nacional de Cibersegurança (CNCiber) alçou a Anatel ao status de “Autoridade Nacional de Cibersegurança”. O CNCiber reúne nove representantes de entidades da sociedade civil, um indicado do Comitê Gestor da Internet no Brasil, além de 14 cadeiras divididas entre órgãos da administração pública federal. Mas, na prática, quem manda mesmo é o GSI, que nomeia o presidente. Para todos os efeitos, o upgrade da Anatel é uma decisão provisória, que ainda terá de ser referendada pelo Congresso Nacional. No entanto, o GSI fez um movimento contundente, que pode ser interpretado como uma tentativa de criar um fato consumado e pressionar o Legislativo a corroborar a determinação do CNCiber.
Toda ação provoca uma reação de força igual e contrária. No último dia 16 de janeiro, o Ministério de Gestão e Inovação editou uma Instrução Normativa (IN) regulamentando o ciclo de implantação do framework do Programa de Privacidade e Segurança da Informação (PPSI), a cargo da Secretaria de Governo Digital (SGD), vinculada à Pasta. Segundo o RR apurou, a elaboração e a publicação da IN se deram a toque de caixa, como uma resposta imediata à medida do CNCiber orquestrada pelo GSI. Com esse movimento, o Ministério de Esther Dweck lançou uma espécie de arcabouço normativo para a governança digital no país, com efeito transversal. Na prática, criou um muro de contenção aos avanços do GSI.
O Ministério da Gestão e Inovação tem aliados nesse cabo de guerra. É o caso do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), que tem reagido de forma crítica à costura para consagrar a Anatel como órgão federal central de cibersegurança. Segundo nota pública divulgada em novembro de 2025, o CGI.br defende que a governança da cibersegurança deve preservar o caráter multissetorial e cooperativo — com participação equilibrada de diversos atores — e evitar a sobreposição de competências entre órgãos e instituições que poderiam comprometer papéis já consolidados no ecossistema digital brasileiro. Formado por 21 membros, incluindo representantes do governo, da área empresarial, do terceiro setor, da comunidade científica e tecnológica e um representante de notório saber, o CGI.br sustenta que a resposta à cibersegurança precisa espelhar princípios amplamente adotados internacionalmente, como descentralização, proporcionalidade e proteção de direitos fundamentais, em vez de centralizar funções sancionatórias ou regulatórias em uma única agência. Essa posição demonstra que o CGI.br não vê com simpatia o desenho proposto pelo GSI e pela Anatel.
Em tese, quem deveria arbitrar a disputa intragovernamental pelo controle da segurança cibernética seria a Casa Civil. No entanto, o ministro Rui Costa tem se mantido razoavelmente à margem dessa bola dividida. Não há notícia de posicionamento formal do ministro acerca de quem deve comandar as políticas de segurança digital. Talvez seja uma prova de omissão; talvez o sinal de que o Palácio do Planalto já tomou sua decisão e seu silêncio seja um consentimento aos avanços do GSI. Ressalte-se que o governo Lula chegou a acenar com a criação de uma Agência Nacional de Cibersegurança, que teria a missão de formular e coordenar políticas públicas, regular e monitorar infraestruturas e a circulação de dados sensíveis e concentrar o combate a crimes cibernéticos. A ideia, no entanto, foi jogada na mesma vala onde apodrecem outras promessas de festim, como a Autoridade Climática e o Ministério da Segurança Pública.
Enquanto o governo bate cabeça, o Brasil enfrenta um cenário de crescimento explosivo de crimes cibernéticos e fraudes financeiras, que coloca em xeque não apenas a proteção de dados de cidadãos e empresas, mas também a própria integridade do sistema financeiro digital. A negligência do Banco Central na regulamentação das fintechs é um anabolizante do problema. No primeiro semestre de 2025, foram contabilizadas 6.937.832 tentativas de fraude, um aumento de 29,5% em comparação ao mesmo período de 2024, com uma ocorrência registrada a cada 2,3 segundos, segundo o Indicador de Tentativas de Fraude da Serasa Experian — e mais da metade dessas tentativas visou bancos e emissores de cartões. Os golpes via PIX também se destacam como uma das principais frentes de fraude digital no país, com projeções de que casos envolvendo o sistema de pagamentos instantâneos cheguem a 28 milhões em 2025, consolidando a plataforma como alvo central dos criminosos. Estudos de mercado ainda estimam que a taxa de fraudes digitais no Brasil em 2025 foi de 3,8%, acima da média regional da América Latina. Relatórios independentes sugerem que o Brasil figura entre os mercados com números elevados de fraudes financeiras, incluindo transações suspeitas em múltiplos setores — financeiro, serviços e telecomunicações — o que evidencia a amplitude do problema.
Do ponto de vista das vítimas, pesquisas revelam que mais da metade dos brasileiros já foram vítimas de fraudes digitais, com aumentos significativos nos golpes reportados entre 2024 e 2025, segundo levantamento internacional. Além disso, o uso de técnicas sofisticadas de engenharia social, como deepfakes e manipulação de identidade, tem sido observado em golpes que exploram redes sociais e plataformas digitais, gerando perdas milionárias e desafios para a investigação criminal e de prevenção.
Os próximos passos do bilionário fundador da Brex
6/02/2026Corre no mercado que o investidor Henrique Dubugras, cofundador da Brex ao lado de Pedro Franceschi, planeja a criação de um fundo de venture capital próprio, usando parte do caixa construído após a venda bilionária da companhia. Recursos não lhe faltam. A fintech especializada na gestão de despesas corporativas foi adquirida pelo Capital One por US$ 5,15 bilhões no mês passado. Com 29 anos e uma fortuna estimada em cerca de US$ 1,5 bilhão, Dubugras figura como um dos empreendedores brasileiros mais respeitados e de maior notoriedade no Vale do Silício. A expectativa entre investidores e interlocutores próximos é que ele use a liquidez e a rede global de contatos para montar um veículo de investimento focado em tecnologia e inovação. No radar estão startups de infraestrutura financeira, insurtechs e empresas de software empresarial. Outra frente possível seria o apoio a startups brasileiras com ambições globais. Dubugras, que tem fama de prodígio entre seus pares, fez muito pela Brex. Agora, pode fazer também por um ecossistema de inovação entre startups brasileiras.
Entre o digital e o balcão: a encruzilhada estratégica da CVC
6/02/2026Fabio Mader assumiu o cargo de CEO da CVC com um dilema a sua frente: como acelerar o canal digital, uma de suas prioridades, sem esvaziar a rede física, que sustenta a maior parte do faturamento e da capilaridade da marca? Decifrar o enigma será decisivo para o sucesso da sua gestão. Não se trata apenas de uma escolha operacional, mas de um conflito entre modelo de negócios e seus respectivos atores. O problema é que o digital concorre diretamente com o franqueado. Quando a CVC vende pelo site ou aplicativo, a comissão deixa de passar pela loja física. Na prática, cada avanço do online é percebido por parte da rede como canibalização, não como complementaridade. Esse atrito já gerou ruídos nos últimos anos e tende a se intensificar caso a digitalização avance sem um redesenho claro de incentivos. A rede de franqueados é numerosa, vocal e relevante para a estabilidade do negócio. Qualquer percepção de perda estrutural de espaço pode gerar resistência, desmobilização ou até judicialização. Em conversa com o RR, a CVC diz que “a isonomia do canal (e-commerce) é super importante para nossa estratégia digital. Vamos integrar cada vez mais o físico do digital e o cliente vai escolher qual seu melhor canal de vendas para se relacionar com a CVC. Mas, independentemente de onde o cliente comprar, a assistência de viagem sempre será nossa prioridade”.
Cerca de 75% das vendas da CVC ainda passam pelas lojas físicas franqueadas. A meta da empresa seria elevar a participação do e-commerce de 25% para 35% no médio prazo, o que implicaria uma redistribuição relevante do bolo. Como a própria companhia afirma ao RR, uma de suas prioridades é “acelerar as vendas no site e app sem perder sua fortaleza que são as lojas físicas”. Como fazer isso, ainda por cima sem conflitos internos? Uma das alternativas em estudo é formalizar mecanismos de compensação ou compartilhamento de comissões para vendas feitas via site e aplicativo, de modo a reduzir a percepção de canibalização por parte das lojas físicas, conforme a própria CVC confirma ao RR.
Ao RR, a CVC disse ainda que, além do incremento das vendas digitais, estão entre as prioridades da nova gestão a globalização do B2B, através da RexturAdvance, empresa do grupo focada no Aéreo, e da Conectaas, unidade dedicada à hotelaria. Os alvos prioritários são Estados Unidos, Europa e Ásia, regiões que concentram cerca de 75% das viagens internacionais dos brasileiros.