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O que precisa ser dito
Embora eu infelizmente não fale alemão, há uma palavra naquele idioma que sempre me encantou por expressar um sentimento humano que não encontra equivalente em nenhuma outra língua e ao qual talvez só sejam imunes os santos: schadenfreude. Literalmente, a alegria malévola sentida diante do infortúnio sofrido por outrem. Impossível desconhecer que tal sentimento transparece no noticiário sobre as perdas gigantescas sofridas pelas chamadas big techs devido ao derretimento das bolsas norte-americanas provocado pelo tarifaço de Trump.
Esse júbilo maldoso do qual – cumpre confessar – muitos de nós participamos se dirige em particular àqueles bilionários que acorreram sorridentes à posse de Donald Trump no Capitólio, tais como Elon Musk, Mark Zuckerberg e Jeff Bezos, que já viram evaporar algumas dezenas de bilhões de seus patrimônios. Mas, segundo o Índice de Bilionários da Bloomberg, o estrago tem grande amplitude: as perdas no mercado já excedem US$ 200 bilhões para os 500 indivíduos mais ricos do mundo.
No entanto, todos parecem esquecer que os mercados de ações norte-americanos são também um refúgio para investidores de todo o planeta e, em especial, o abrigo antes considerado inexpugnável para a poupança da classe média do país. É difícil encontrar dados sólidos sobre os valores envolvidos, mas basta assinalar que, no ano passado, mais da metade das famílias norte-americanas tinham seus recursos aplicados em fundos mútuos, no valor de US$ 71 bilhões. Não é difícil imaginar quão dolorosas serão para os cidadãos atingidos as perdas já ocorridas e aquelas que ainda podem vir por aí caso sejam mantidas as tarifas em vigor – como Trump acaba de confirmar. Se a isso se somar uma aceleração da inflação e uma recessão econômica, o padrão de vida presente e futuro de boa parte da população do país estará seriamente ameaçado.
E, então, vem a pergunta que não pode ser calada: quantos dos vitimados votaram em Trump sem acreditar que ele faria tudo que proclamava durante a campanha? Esses também merecerão uma boa dose de schadenfreude?
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