03.08.18
ED. 5924

Candidatos à Presidência não demonstram apetite para falar de fome

Nos primeiros anos da década de 60, o dramaturgo Augusto Boal encenou nas ruas uma peça argentina intitulada “Ninguém pode passar fome”. Fiel ao seu teatro do oprimido, Boal levou a obra às ruas, convidando os populares para interpretar o papel dos esfaimados. Ainda não havia Betinho por aqui, e sua perfeita tradução da magreza, com o seu bordão “A fome tem pressa”.

Boal e Betinho, iluminados pela extensa literatura regionalista que elevava a inanição à categoria maior e tendo a juventude a rebo- que, empurraram a batalha contra a fome decibéis acima de obras clássicas, tais como Graciliano Ramos e seu Vidas Secas. A fome parecia, então, ter entrado definitivamente na pauta política. É nesse caldeirão de luta social que o jovem Fernando Henrique foibeber e pareceu gostar. Anos depois, repaginado, FHC colocou a fome dentro do seu programa de governo como uma cereja em um sundae. Fez a versão preliminar do Bolsa Família, bem pobrezinha e acanhada. Seu sucessor, Luiz Inácio Lula da Silva, era um operário operístico e tinha a injustiça do Nordeste à flor da pele.

Embalou bem embalada a fome no programa Bolsa Família de FHC, fez ajustes e o turbinou devidamente. Aos poucos a fome foi saindo do palco. Diminuiu. Em um certo tempo chegou a ficar pequena, acusam os mapas da pobreza. Mas ainda grassa pelas regiões mais pobres do país configurando um abominável eczema social. O RR foi dar uma espiada se os atuais presidenciáveis acham o tema merecedor da sua atenção. Pois bem, pesquisa feita no Google com os principais candidatos – Geraldo Alckmim, Ciro Gomes, Jair Bolsonaro e Marina Silva – revela que a fome foi banalizada na campanha.

Se a decisão de não tratar do assunto é resultado de pesquisa de opinião feita pelos candidatos, ela revela que o eleitor não quer ouvir falar sobre barriga vazia. Isto em um momento no qual o Brasil volta a figurar no mapa da fome da ONU. O RR analisou as 50 primeiras páginas dos sites de busca onde os presidenciáveis falam sobre assuntos generalizados. A palavra fome foi mencionada em 2% das 200 páginas, cada uma com mais de uma dezena de matérias. Os candidatos Ciro e Marina foram os que mais falaram essa palavra profunda e oca, que exprime mais o vazio de humanidade do que o jejum compulsório do aparelho gástrico. Como que combinados, mencionaram 1% a dita cuja.

Militar acostumado a ranchos fartos, Bolsonaro citou a fome em 0,1% dos seus pronunciamentos. Saciado, com acesso aos bons restaurantes dos Jardins, Itaim e Vila Madalena, Alckmim não quis saber do estômago alheio. Citou zero vez a gigantesca palavra fome. Isso não é para o seu padrão social. Há algo de sintomático quando os candidatos esquecem a mais humilhante forma de miserabilidade.

É estranho também a mais gritante desonra nacional não estar na boca dos incontáveis movimentos sociais, que defendem individualidades, gêneros híbridos, direitos de aborígenes, borboletas, jabutis, matas, animais de toda a espécie, negros, pardos, haitianos, etc etc etc, menos o direito de não morrer de fome. Talvez o imperativo de evitar que crianças se alimentem de barro, velhas morram desidratadas e homens urrem de dor com as úlceras construídas na parede estomacal pela produção demasiada de suco gástrico devido ao vazio alimentar, tenha simplesmente ficado demodê. Parece haver uma perda da primazia do dar de comer em relação a todas as demais funções que o Estado deve exercer. Basta ver o imperativo cínico do “farinha pouca, meu pirão primeiro”. A farinha que sobra para os deserdados é a farinha do desprezo. Como dizia Brecht, “enquanto houver fome, não há moral”.

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