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A governança do Banco do Brasil passa por um teste de fogo. Segundo informações filtradas pelo RR, o Palácio do Planalto tem sido pressionado pela bancada ruralista para que o BB seja uma espécie de fiador da reestruturação de grupos do setor dos quais é credor. Por fiador entenda-se o aval para a aprovação de processos de recuperação judicial e, sobretudo, a liberação de novos recursos, mesmo para grandes devedores. A ofensiva do agronegócio se dá justo no momento em que a carteira de crédito rural do BB registra a maior inadimplência da história: 6,2%. Ou seja: sob a ótica prudencial, o banco dispõe de margem cada vez mais estreita para ampliar sua exposição ao setor.
A deterioração desses ativos já se reflete nos resultados, com aumento das provisões, elevação do custo do crédito e compressão da rentabilidade. A questão é saber até que ponto o acionista controlador do BB, o governo, vai resistir às demandas da bancada ruralista com uma eleição logo ali na frente.
O agronegócio acumula mais de R$ 100 bilhões em dívidas. Dentro da crise há outra crise: o elevado número de empresas em recuperação judicial ou na iminência de recorrer a esse dispositivo. É um problema que bate diretamente no Banco do Brasil. Estima-se que mais de 800 empresas clientes do BB estejam em recuperação judicial, com R$ 5,4 bilhões em créditos envolvidos. Os ruralistas pregam que o governo tem de ajudar esses grupos a partir da premissa de que a quebra de grandes companhias provocará uma bola de neve em toda a cadeia do agronegócio. É esse o ponto de compressão do Banco do Brasil, um credor praticamente onipresente nas maiores RJs do agro. Entram nesse rol, por exemplo, AgroGalaxy, Montesanto Tavares e Grupo Safras. O trio acima tem uma dívida somada de quase R$ 8 bilhões, dos quais R$ 1,4 bilhão, ou 18%, cabe ao BB. A AgroGalaxy, com um passivo de R$ 4,1 bilhões, já teve seu plano de recuperação aprovado. Ou seja: um pedaço do caminho já foi percorrido. Mas o que se ouve à boca miúda no setor é que há um pleito junto ao governo para que o Banco do Brasil libere novos recursos que ajudariam a empresa a recompor seu fluxo de caixa de curto e médio prazos.
Na Montesanto Tavares, a posição do BB é ainda mais decisiva. O banco lidera a lista de credores com R$ 742 milhões a receber, de um passivo total de R$ 2 bilhões. O grupo cafeeiro ainda não aprovou o plano de recuperação judicial. Com mais de um terço do passivo concursal nas mãos, o BB é voz determinante: seu apoio à proposta teria a força de induzir outros credores a seguir o mesmo caminho. O caso do Grupo Safras é ainda mais complexo. A recuperação, referente a um passivo de R$ 1,78 bilhão, chegou a ser deferida pela primeira instância, foi suspensa poucos dias depois pelo Tribunal de Justiça de Mato Grosso e submetida a uma longa batalha entre sócios e credores. Posteriormente, o processo voltou a avançar e foi mantido pela Justiça, embora o plano ainda não tenha sido aprovado. O Banco do Brasil, só para não variar, aparece entre os principais credores, com cerca de R$ 266 milhões a receber.
Em contato com o RR, o Banco do Brasil afirma que não foi procurado por representantes da bancada ruralista, pelo Ministério da Agricultura, por entidades do agronegócio ou por empresas em recuperação judicial para apoiar planos de reestruturação e conceder novos financiamentos a grandes devedores do setor. Garante também que não recebeu qualquer orientação do governo para conceder crédito a empresas em dificuldades. Está feito o registro. O fato é que a posição de maior financiador do agronegócio no país coloca o BB numa gangorra: de um lado, a obrigação de entregar resultado a seus milhares de investidores; do outro, missões institucionais e políticas que o rondam permanentemente. Neste momento, o agronegócio é um campo minado.
A carteira de crédito rural do banco alcançou R$ 418,4 bilhões em março de 2026, com crescimento de apenas 3% em 12 meses. Já o endividamento tem avançado em ritmo muito superior. As operações vencidas há mais de 90 dias chegaram a aproximadamente 6,2%, recorde histórico. Há 12 meses, esse índice estava em 2,76%. Olhando-se para um intervalo maior, a peste se mostra ainda mais grave. Em dezembro de 2022, a inadimplência da carteira de empréstimos agrícolas do BB era somente de 0,6%. Ou seja, em pouco mais de três anos, a “nuvem de gafanhotos” foi multiplicada por dez. O problema é ainda mais delicado no custeio agropecuário, modalidade que financia sementes, fertilizantes, defensivos, combustível, mão de obra e demais despesas da produção. A inadimplência acima de 90 dias nessa linha chegou a 10,56% em março deste ano, ante 3,50% 12 meses antes. O aumento dos atrasos tem obrigado o Banco do Brasil a reforçar suas provisões. A cobertura para eventuais perdas na carteira agro alcançou R$ 40,6 bilhões no primeiro trimestre de 2026, o equivalente a 9,7% de toda a exposição ao setor. O valor praticamente dobrou em relação aos R$ 21 bilhões registrados um ano antes. Esse colchão afeta diretamente o lucro, a rentabilidade e a capacidade da instituição de assumir novas exposições.
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