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A redução da participação acionária do Salic (Saudi Agricultural and Livestock Investment Company) na MBRF está longe de ser um mero ajuste de portfólio. O que há por trás da decisão é um realinhamento mais amplo dos interesses geoeconômicos da Arábia Saudita no Brasil, notadamente no que diz respeito a segurança alimentar. Além da proteína animal, o agronegócio brasileiro deverá se tornar um dos principais fornecedores de grãos para os árabes. Esse reposicionamento passa pelo recente aumento da posição societária do Salic – vinculado ao PIF (Public Investment Fund), um potentado soberano, com mais de US$ 1 trilhão em ativos – na Olam Agri, de Cingapura. Os árabes saltaram de 35% para 80%, assumindo o controle da empresa, uma das oito maiores tradings de commodities agrícolas do mundo. O Brasil é uma peça valiosa nesse mosaico. O país representa algo como 10% de todo o volume de grãos transacionado pela Olam. Ao assumir o mando da trading asiática, a Arábia Saudita passa a ter uma posição privilegiada em um canal estratégico de abastecimento. Na prática, os sauditas controlarão uma engrenagem capaz de conectar oferta, logística e distribuição, influenciando decisivamente em três pontos cardeais da cadeia: na originação de alimentos, no volume comercializado e no preço. No caso do Brasil, o que está em jogo é a primazia sobre o variado cardápio de exportações da Olam, que inclui café, algodão, açúcar, soja e milho.
Mesmo com a recente redução da participação, o Salic manteve 10% da MBRF, a gigante criada a partir da fusão da Marfrig com a BRF. Ao mesmo tempo, o fundo é o principal acionista da Minerva Foods. Ou seja: o Brasil já é responsável por uma parcela considerável da proteína animal que chega aos pratos dos sauditas. Com a ascensão do Salic sobre a Olam, o país se consolida como um multi supridor de alimentos para a Arábia Saudita. Estamos falando de uma nação que importa mais de 80% da comida que consome. Em alguns casos, como trilho e milho, a dependência das importações é quase total. No passado, a Arábia Saudita – uma das regiões mais áridas do mundo, sem rios permanentes e com regime de chuvas extremamente limitado – tomou a decisão de praticamente extinguir o cultivo desses cereais para preservar seus recursos hídricos. Essa combinação de restrição aquífera estrutural e dependência externa transforma o abastecimento alimentar questão de Estado. Não basta comprar no mercado internacional. É preciso garantir acesso direto às cadeias produtivas, reduzindo vulnerabilidades em momentos de estresse global. Nesse contexto, controlar a originação de grãos significa, na prática, controlar o ponto de partida de toda a cadeia alimentar. A mudança de ênfase ganhou força após uma sequência de choques que expuseram a fragilidade do sistema global de alimentos. A guerra na Ucrânia, as restrições de exportação adotadas por diversos países e a volatilidade crescente das commodities agrícolas reforçaram a percepção de risco.
Diante desse panorama, o Brasil conquista um protagonismo ainda maior na balança comercial alimentar dos sauditas. No ano passado, as exportações de carnes e grãos para a Arábia chegaram a US$ 2,8 bilhões. A estimativa é que esse volume atinja a casa dos US$ 4 bilhões em até três anos, na esteira dos acordos firmados entre os dois países. Nos últimos anos, a relação bilateral tem sido marcada por sucessivas liberações sanitárias, que permitiram a entrada de novos produtos brasileiros no mercado saudita — de derivados bovinos a frutas tropicais.
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