Irã e segurança energética viram combustível para “reestatização” da Petrobras

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Irã e segurança energética viram combustível para “reestatização” da Petrobras

  • 12/03/2026
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Se a comunidade dos petroleiros tem um projeto dos sonhos é reconduzir a Petrobras aos velhos tempos de poder quase absoluto. Dependendo do ângulo que se enxergue, era uma estatal voltada a todo o circuito da exploração, refino e distribuição de derivados de petróleo (do poço ao posto), mas também ao fomento de outros setores afins (fertilizantes, por exemplo) e projetos estruturantes. Se fosse o ex-ministro Roberto Campos, crítico de carteirinha da companhia, a estatal estaria recuando em marcha forçada para voltar a ser a “Petrossauro” ou a Petrobras do Geisel. Uma ressalva: Campos metia o malho antes do fim do monopólio do petróleo, sua verdadeira bête noire. Mas parece que por contágio, à exceção da gestão privatista dos tucanos, quem entra na Petrobras quer logo um revival. Agora, estimulado pelas declarações de Lula, a presidente da companhia, Magda Chambriard, criou um grupo para estudar o “de volta para o futuro”, com ênfase em distribuição e expansão do refino. O governo Lula, por uma conjunção de fatores, inclusive a nova geopolítica do petróleo em um ambiente de guerras longevas, lida com um cenário bem distinto do fim do século passado, quando as privatizações pareciam incontestáveis. Com Donald Trump, Venezuela, Oriente Médio, Rússia, China e outros países que sentem as dores e os benefícios do petróleo, a premissa é que a “nova Petrobras” precisa revisitar a “velha Petrobras”.

Esse óleo não brota do chão de agora. Ainda na campanha de 2022, Lula usou e abusou dos ataques à privatização da BR Distribuidora, vinculando-a à alta dos preços dos combustíveis. O petista chegou a acenar, inclusive, com a reestatização da Vibra, a rebatizada BR. O que parecia ser um saudosismo ideológico – e talvez fosse mesmo – agora já não ressurge como reflexo de um governo de inclinação estatista. A proposta ganha nova tração porque o mundo piorou. Piorou muito. A sucessão de conflitos em latitudes sensíveis do planeta, a ameaça de guerras sem temporalidade previsível, o risco de choques duradouros no petróleo, tudo potencializado pela escalada bélica no Irã e no entorno, formam uma composição explosiva. Desde a intensificação da guerra envolvendo o Irã, o Brent entrou em espiral de alta: saiu da casa de US$ 81 no início de março, avançou para a faixa de US$ 85 poucos dias depois e, no pico intradiário de 9 de março, bateu US$ 119,50 por barril, o maior nível desde meados de 2022. Mesmo após alguma acomodação, os contratos ainda acumulam valorização expressiva desde o início da crise, reforçando a percepção de que o mercado voltou a embutir um pesado prêmio geopolítico. Fica a mensagem de que um cisco no olho dos iranianos e de seus coirmãos do Oriente pode levar o preço do barril a US$ 100 em minutos. Ou a US$ 110. Ou descer para US$ 78. Essa arritmia deixa qualquer economia com risco de choque anafilático. Nesse contexto, uma pergunta ganha centralidade nas discussões travadas dentro do governo: até que ponto adianta a estatal segurar ou modular o preço dos combustíveis na refinaria se não controla os canais pelos quais o produto chega ao consumidor? Com o petróleo pressionado por conflitos prolongados e com o abastecimento brasileiro mais exposto, essa mesma crítica perde a armadura do estatismo e ganha vestes de doutrina de segurança energética. Ou nacional, conforme queiram. 

Nesse novo cenário global, de tiros, bombas e deterioração das relações de troca multilaterais, a verticalização da Petrobras deixa de ser apenas um desenho empresarial e passa a ser vista, dentro do governo, como mais um instrumento de controle de preços. O que provoca horror nos neoliberais, ao mesmo tempo que causa garbo e tranquilidade nos militares. Hoje, a Petrobras domina a composição do valor final até o refino, podendo inclusive acumular prejuízo operacional, mas não tem comando direto sobre a margem da distribuição e sobre a velocidade de repasse na revenda para o consumidor final. Reentrar nessa etapa da cadeia seria, justamente, avançar sobre esse espaço e ampliar a capacidade de intervir diretamente no preço do combustível na bomba. Dominando apenas até a porta da distribuidora, a Petrobras ainda consegue influenciar o mercado, mas não o suficiente para ditar, de ponta a ponta, o comportamento de preços em um ambiente de estresse. Com distribuição própria, teria mais instrumentos para calibrar essa transmissão.

O impacto conjuntural da guerra ajuda a explicar a urgência dessa discussão. A crise em torno do Irã voltou a colocar o estreito de Ormuz no centro do mapa energético mundial. Cerca de um quinto do petróleo consumido no planeta passa por aquele corredor marítimo. Quando a região entra em combustão, o efeito não se limita ao barril: sobe o custo do frete marítimo, aumentam os prêmios de seguro, compradores correm atrás de rotas e fornecedores alternativos e toda a cadeia passa a operar sob risco de interrupção. Nesse ambiente, as projeções para o Brent em 2026 foram revistas para cima, e o mercado trabalha com a perspectiva de preços persistentemente elevados no curto prazo. Quanto maior o risco geopolítico, maior a necessidade de controlar infraestrutura e insumos críticos. Quanto mais o combustível importado pesa sobre a colheita, sobre o frete e sobre a inflação, mais a distribuição passa a ser vista não apenas como acessório comercial, mas também como peça de política econômica.

O lulismo, nesse sentido, parece concluir que o comando da refinaria, sozinho, já não basta para arbitrar o preço final. Quer mais alavancas. Quer mais presença. Quer mais Estado na ponta da cadeia. Os efeitos já transbordam do mercado de petróleo para a economia real. A alta do barril já contaminou os derivados, pressionando diesel, gasolina, querosene de aviação e gás. Não por acaso, o tema deixou de ser tratado apenas como debate concorrencial ou nostalgia estatizante. Passou a ser lido, no Planalto, como problema de segurança energética e de governabilidade econômica. Na ponta, vai bater no descontrole da inflação e em taxas de juros aterradoras.

Trazendo a discussão do terreno teórico para o prático, dois nomes têm sido regularmente repetidos no Palácio do Planalto: a própria Vibra e a Liquigás. As duas empresas são vistas como potenciais pilares da verticalização da Petrobras. Com a primeira, a estatal recuperaria uma rede de aproximadamente 7,9 mil postos, com um volume de vendas de 35,821 milhões de m³ de combustíveis por ano; com a segunda, voltaria a entrar no mercado de GLP pela porta de um grupo, a Copagaz, que hoje lidera o setor com 24,6% de participação. Nos dois casos, não são caminhos fáceis de serem percorridos. A Vibra tem capital amplamente pulverizado: seu free float é de 99,61%. O valor de mercado da empresa é da ordem de R$ 37,8 bilhões, a preço de ontem. Em um exercício estritamente financeiro e hipotético, o valor de 50% das ações equivaleria a algo perto de R$ 18,9 bilhões ao preço de tela. Caro? Barato? Quanto custa a segurança energética de uma nação?

A Vibra é e sempre será o ativo mais cobiçado, mas, cabe lembrar, que existe uma nova alternativa sobre o balcão. O reingresso da Petrobras no setor poderia se dar por meio da Ipiranga. Nesse caso, haveria um nó a ser desatado: a Petrobras tem um acordo de não competição firmado com a própria Vibra, em vigor até 2029. Na prática, isso significa que qualquer retorno da estatal à distribuição e ao varejo de combustíveis — seja pela antiga BR, seja por outro ativo relevante do setor — esbarra, no curto prazo, nessa trava contratual. Nada que não possa ser negociado se, mais uma vez, o assunto tratar da segurança energética. As garantias se sobressaem no livrinho da Constituição Federal.

A Liquigás, por sua vez, reaparece por outra porta: a do GLP, produto de alto impacto social e simbólico. Hoje, o ativo que um dia pertenceu à Petrobras está incorporado à Copa Energia, companhia nascida da aquisição da Liquigás pela Copagaz em 2020. Trata-se de uma operação que se espraia por 24 estados brasileiros, mais o Distrito Federal, por meio de uma rede com mais de 10 mil revendas. A Copa é controlada pela família Zahran, dona de 51%. Os 49% restantes estão nas mãos da Itaúsa. É justamente para a holding dos Setubal que as atenções se voltam. Circulam no mercado rumores sobre o interesse da Itaúsa em deixar o negócio. Uma vez dentro do capital da Copa, a Petrobras seria um player com peso político e financeiro suficiente para forçar, por dentro, a compra do controle.

Esse ponto é decisivo porque o GLP tem um peso político diferente do diesel e da gasolina. Recomprar ou recompor presença nesse mercado teria forte apelo social, sobretudo em um governo que associa energia não apenas a eficiência econômica, mas a custo de vida. Ao mesmo tempo, é justamente por isso que a operação seria concorrencial e politicamente sensível. Não se trata de encaixar um ativo em um portfólio; trata-se de mexer num mercado concentrado, regulado e socialmente inflamável. A atração do Palácio do Planalto e, por extensão, da Petrobras pela Liquigás não decorreria apenas de nostalgia patrimonial, mas de sua utilidade como instrumento de presença capilar num segmento com alto valor simbólico junto à população.

A Petrobras passou os últimos anos concentrando capital em upstream e na estratégia de investimento em exploração e produção de petróleo, e não na ampliação do parque de refino e na reconstrução da cadeia de abastecimento na ponta. Isso significa que a verticalização exigiria uma inflexão real de alocação de capital, governança e prioridades. Ou seja: mais do que uma decisão corporativa, o que está em jogo é a disposição política do governo para conduzir essa guinada. Há alinhamento total entre o Palácio do Planalto a presidente da Petrobras. Magda Chambriard chegou ao cargo justamente depois da saída de Jean Paul Prates, em meio à pressão do governo por mais investimentos, menor ênfase em dividendos e maior uso da estatal como alavanca de política industrial. A executiva foi escolhida a dedo para executar prioridades que coincidem com as do lulismo. Magda é uma interlocutora confiável do Planalto para tocar agendas sensíveis. Mas essa não será a pauta de 2026. Depende, entre outras variáveis de complexa magnitude, da vitória de Lula no certame para a cadeira da Presidência da República. O assunto só muda de prazo se o Oriente Médio “explodir” e com ele toda a geopolítica convencional do petróleo.

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