Enel avalia venda de distribuidora para não ser eletrocutada em São Paulo

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Enel avalia venda de distribuidora para não ser eletrocutada em São Paulo

  • 21/10/2025
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Entre o ideal e o possível, a Enel já admite se contentar com a segunda opção. Pressionado pelo governador Tarcísio de Freitas e pelo prefeito Ricardo Nunes, o grupo trabalha, intramuros, com a hipótese de venda da Enel São Paulo. Candidatos não faltam. O que se ouve no setor é que CPFL e Equatorial Energia teriam sinalizado ao governo paulista o interesse em assumir a empresa, com a promessa de um volume de investimentos superior ao da Enel.

Apesar de todos os problemas operacionais e regulatórios, a distribuidora é um ativo dos mais cobiçados. Está encrostada no maior PIB do país, atendendo à cidade de São Paulo e a outros 23 municípios. Tem uma receita líquida acima de R$ 20 bilhões e um Ebitda anualizado de R$ 4 bilhões.

Por ora, a alienação do ativo ainda é tratada pela Enel no campo das conjecturas. Mas, entre os italianos, cresce a percepção de que a transferência do controle da Enel São Paulo funcionaria como um plano de mitigação do risco maior: a decretação da caducidade do contrato e sua consequente saída do negócio sem qualquer compensação financeira. Trata-se de uma ameaça cada vez mais presente, sobretudo após a Prefeitura de São Paulo ter conseguido na Justiça suspender o processo de renovação antecipada da concessão da distribuidora.

Em breve, deve ter companhia. Corre no setor que o governo do estado pretende seguir o mesmo caminho, judicializando o caso. Tarcísio de Freitas é um inimigo declarado da Enel. Já disse textualmente que vai “varrer” a empresa de São Paulo. O RR enviou uma série de perguntas à Enel e fez várias tentativas de contato com a empresa, mas não obteve retorno. Após a publicação da matéria, a Enel entrou em contato para esclarecer que “desmente a especulação sobre possível venda de ativos no País. A Companhia tem um compromisso de longo prazo com o Brasil, cumpre com todas as normas e indicadores que regulam seu contrato e está seguindo, confiante, os ritos de renovação de suas concessões em São Paulo, Rio de Janeiro e Ceará.”

Ainda que em Brasília o clima não lhe seja tão abertamente hostil quanto em São Paulo, a Enel também não tem encontrado respaldo institucional e político na esfera federal. Na Aneel, o processo de renovação já estava devagar, quase parando antes mesmo da Justiça decretar a suspensão.

Do lado do Ministério de Minas e Energia, mesmo após o grupo ter levado ao presidente Lula um plano de investimentos de R$ 25 bilhões no Brasil, a relação é áspera. Há cerca de duas semanas, o ministro Alexandre Silveira afirmou que a concessão da Enel São Paulo apenas será renovada “se a companhia cumprir certos requisitos e prestar serviços mais eficientes”.

Lembra até o estratagema adotado pelo técnico Carlo Ancelotti. Sempre que perguntado sobre a possível convocação de Neymar, o conterrâneo da Enel costuma dizer que o jogador estará na Copa do Mundo “se recuperar a antiga forma física”. Tanto em um caso quanto no outro, o discurso dissimulado parece feito sob medida para antecipar o motivo do “não”.

A venda da Enel São Paulo tem suas complexidades. A operação dependeria de um acordo bem amarrado com a Aneel e o Ministério de Minas e Energia. A negociação do controle teria de estar vinculada à garantia de renovação antecipada da concessão, que vence em julho de 2028. Nenhum investidor se arriscaria a comprar uma empresa de energia cujo contrato expira daqui a pouco mais de dois anos e meio.

Some-se a isso outras pendências da companhia, como os quase R$ 400 milhões referentes a multas aplicadas pela Aneel, quase todas em discussão na Justiça. Por sua vez, do lado da agência reguladora e da Pasta de Minas e Energia, a prorrogação do contrato estaria condicionada à saída da Enel do negócio.

Ou seja: em última instância, o futuro da Enel São Paulo está nas mãos da Aneel e do Ministério. E isso vale tanto para a permanência quanto para a saída dos italianos da operação.

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