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A Embraer está diante do desafio de encontrar uma posição no mercado internacional razoavelmente equidistante dos Estados Unidos e da China. É um tênue equilíbrio, que requer movimentos cuidadosos.
De um lado, a companhia acena com investimentos de US$ 500 milhões na Flórida na tentativa de reverter a sobretaxa de 10% às importações de aviões imposta pelo governo Trump; do outro, matura a ideia de voltar a ter uma fábrica em território chinês.
Segundo uma fonte ligada à empresa, a Embraer tem mantido canais de interlocução junto a Pequim com o intuito de retomar a produção de aviões executivos no país asiático. O projeto se daria ao lado de um parceiro local. Foi assim entre 2002 e 2016, quando a companhia manteve a Harbin Embraer Aircraft Industry (HEAI), uma joint venture com a chinesa Avic para a fabricação dos jatos Legacy.
É sintomático que, em abril deste ano, a empresa tenha criado o cargo de diretor-geral e vice-presidente Sênior de Vendas e Marketing de Aviação Comercial na China e contratado um executivo nativo para ocupá-lo, o ex-Airbus Patrick Peng.
Da mesma forma, chama a atenção que neste ano, pela primeira vez, o país asiático tenha merecido uma análise individual no Market Outlook, relatório anual da Embraer com projeções para a demanda global por aeronaves comerciais no horizonte de 20 anos. Segundo o documento, as encomendas chinesas de jatos regionais nas próximas duas décadas devem chegar a 1.500 unidades.
Mas é outro dado que mais salta aos olhos e baliza o interesse da empresa em voltar a produzir na China. A estimativa é que em até 20 anos o país asiático será responsável por 39% do tráfego global de passageiros em aviões de até 150 lugares, superando os Estados Unidos e a Europa somados (37%). Consultada pelo RR, a Embraer não se manifestou.
Guardadas as devidas proporções, as pretensões da Embraer de voltar a ter uma estrutura industrial na China seguem uma lógica similar à dos investimentos nos Estados Unidos. Tanto de um lado quanto do outro, há barreiras a serem furadas.
Se, nos EUA, o aumento da produção local surge como um afago ao governo Trump, na China seria uma maneira da fabricante brasileira superar restrições regulatórias, dificuldades na certificação de suas aeronaves e limitações de acesso a contratos de companhia aéreas locais que utilizam jatos de até 150 lugares.
É o caso, por exemplo, da Air China, controlada pelo governo central, de Pequim; ou da Colorful Guizhou Airlines e da Jiangxi Air, que, como o nome sugere, têm entre seus acionistas, respectivamente, os governos das províncias de Guizhou e de Jiangxi.
O desafio da Embraer é ter, desde já, uma posição estratégica de longo prazo nos dois países que comandam as maiores cadeias globais de produção no setor de aviação. E mais do que isso: sustentar esses enclaves nos Estados Unidos e na China sem que qualquer movimento de avanço em um deles venha a ferir suscetibilidades no outro.
Ressalte-se que as relações entre as duas grandes potências mundiais são particularmente voláteis na área de aviação. Em maio, o governo Trump chegou a suspender a venda de motores e componentes e a transferência de tecnologia considerada sensível para a fabricante de aeronaves chinesa Comac. Pouco depois, voltou atrás na medida.
Em contrapartida, nos últimos meses surgiram rumores no mercado internacional de que a China bloquearia a compra de aviões da Boeing. O embargo não apenas não ocorreu como agora surgem informações de que a companhia norte-americana negocia a venda de até 500 aeronaves para a China.
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