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O escândalo de corrupção envolvendo a Acciona na Espanha, revelado na semana passada, calou fundo na direção da empresa no Brasil. Entre os executivos, à frente o CEO da operação brasileira, André De Angelo, há uma apreensão com o impacto que as investigações podem vir a ter sobre os negócios do grupo no país. As denúncias surgem em um momento sensível, justamente quando a Acciona prepara-se para iniciar uma nova fase de investimentos no Brasil.
Hoje, inclusive, é o Dia D para uma das investidas no pipeline da companhia. O governo do Espírito Santo vai abrir os envelopes com as propostas para duas PPPs com a Cesan, a companhia de saneamento do estado. Trata-se de um pacote de investimentos da ordem de R$ 1,8 bilhão. A Acciona está na disputa e tem como concorrentes a Aegea e a GS Inima.
Mas é a área de transportes que concentra os dois maiores projetos no radar dos espanhóis no Brasil. A companhia é candidata à construção da linha 19 do metrô de São Paulo, um empreendimento de R$ 15 bilhões. No setor há informações também sobre o interesse dos ibéricos em disputar o leilão da PPP que será responsável pela construção do túnel Santos-Guarujá, uma obra estimada em quase R$ 7 bilhões. O RR enviou uma série de perguntas à Acciona, mas a empresa não quis comentar o assunto.
A denúncia contra a Acciona na Espanha estourou não apenas como uma crise corporativa, mas também política, atingindo em cheio o próprio primeiro-ministro, Pedro Sanchéz. A Polícia Federal espanhola investiga a companhia pelo suposto pagamento de 620 mil euros a líderes do PSOE (Partido Socialista Obrero Español), sigla de Sanchéz. Um dos acusados é o ex-ministro dos Transportes José Luis Ábalos.
Outro nome citado é do secretário de organização do PSOE – na prática, o no 3 na hierarquia do partido -, Santos Cerdán. O caso tornou-se um prato cheio para a oposição, que pressiona Sanchéz a convocar eleições antecipadas. Ressalte-se que esta não é a primeira vez que a Acciona protagoniza um episódio de corrupção na Espanha.
Em 2022, a Comisión Nacional de los Mercados y la Competencia, órgão regulador da Espanha, aplicou uma multa de 29,4 milhões de euros à empresa por ter cometido irregularidades em licitações públicas durante 25 anos.
De volta ao Brasil: nos últimos anos, a Acciona tem ampliado seus negócios em infraestrutura no país. No entanto, a escalada das denúncias na Espanha pode alterar as condições de temperatura e pressão.
O receio na subsidiária brasileira é que os espanhóis sejam forçados a rever investimentos internacionais caso as investigações avancem e tenham impacto sobre a própria capacidade financeira do grupo. Neste caso, olhando-se por uma ótica quase darwiniana, o Brasil seria uma espécie mais frágil no ecossistema internacional da Acciona e, por essa razão, candidato a ter projetos cancelados em detrimento de outras operações maiores. Hoje, o mercado brasileiro responde por apenas 10% das receitas globais da companhia na área de construção.
Está atrás da Europa e da Austrália, que virou uma espécie de segunda matriz da Acciona em termos de resultados: é responsável por 38% do faturamento mundial do conglomerado espanhol no setor de construção.
Dentro do Brasil, quem mais sofreria com um eventual recuo da Acciona é São Paulo, epicentro dos negócios e das relações institucionais da companhia no país. Além dos novos projetos no horizonte, a maior parte dos investimentos da empresa já em curso no Brasil está concentrada no estado. É o caso da construção da linha 6 do metrô paulista, que representou 90% da receita de R$ 3 bilhões obtidas pela empresa no país em 2023.
Por sinal, no ano passado, o próprio primeiro-ministro Pedro Sanchéz esteve em São Paulo ao lado do empresário José Manuel Entrecanales, controlador e CEO do grupo espanhol, para visitar as obras da linha 6. Na ocasião, ambos se reuniram com o governador Tarcísio de Freitas. Construir pontes com o Poder é outra das especialidades da Acciona.
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