27.03.17
ED. 5586

América Móvil enfrenta um terremoto no Brasil

O chão está tremendo sob os pés do alto comando da América Móvil no Brasil. Nenhum dos dirigentes do primeiro escalão do grupo, assim como de suas controladas – Claro, Net e Embratel –, encontra-se em situação confortável neste momento, a começar pelo próprio CEO, José Antonio Félix. O executivo recebeu um recado direto do todo poderoso Carlos Slim. Na empresa, todos sabem que Slim não dá um segundo aviso.

A cobrança é por resultado, resultado e resultado. Félix, que galgou posições na Net em função de uma performance considerada consistente, tem esbarrado no que sempre foi sua principal fragilidade: não ser um executivo da área comercial – sua trajetória quase toda se deu na tecnologia. Seu comportamento também o distancia do perfil de gestor que as circunstâncias exigem.

O presidente da América Móvil Brasil é conhecido na companhia pelo humor instável e pela dificuldade de liderar e motivar a força de trabalho. Entre os funcionários do grupo, é visto como alguém que, na hora do estresse, perde os limites com razoável facilidade. Neste momento, por mais paradoxal que possa parecer, Félix é vítima da mesma estrutura administrativa que o fortaleceu quando ele foi escolhido para comandar a América Móvil no Brasil, em 2015. Toda a pressão recai sobre ele, uma vez que a Embratel e a Claro não têm mais presidente – a exceção é a Net, comandada por Daniel Barros, que, por sinal, foi trainee de Félix.

Para piorar, no caso da operadora de telefonia, ele não tem mais sequer o anteparo de José Formoso Martinez, histórico braço direito de Carlos Slim no Brasil. Já nem se pode atribuir responsabilidade a Formoso, que hoje ocupa um cargo praticamente simbólico, CEO da área empresarial da Claro. Não só porque ele já não tem mais a interlocução de outros tempos com Slim, mas principalmente pelo fato de que está prestes a deixar a empresa – ver RR edição de 6 de janeiro.

No vácuo deixado por Formoso, a força da gravidade empurra a pressão mexicana para os andares de baixo na gestão da Claro, chegando aos diretores regionais da companhia: Gustavo Silbert, que oficialmente ainda acumula a presidência da Star One, empresa de satélites do grupo, Marina Kawasaki e Raquel Possamai. Neste momento, todos se encontram igualmente pisando em solo gelatinoso. Além dos resultados, há outras queixas da matriz que justificam à caça às bruxas no Brasil.

A gestão de José Félix tem dificuldades em negociar com clientes, notadamente do segmento corporativo, a ponto de a América Móvil perder contratos para empresas menores. O grupo se nega também a rever contratos com fornecedores e apertar custos. Em tempos de bonança, talvez estes pecados passassem despercebidos ao acionista controlador. Da tríade de empresas que compõem a América Móvil no Brasil, a situação mais crítica é a da Claro.

Aliás, só não há maior visibilidade sobre as fraquezas da empresa devido às notórias circunstâncias da Oi, que a tornaram o para-raios do setor de telecomunicações. No ano passado, a Claro teve um prejuízo de R$ 1,6 bilhão. Em um mero exercício matemático, significa dizer que, em 2016, os mexicanos perderam aproximadamente R$ 26 com cada um de seus 60 milhões de clientes em telefonia celular no Brasil. Esse número sobe significativamente se levarmos em consideração os últimos quatro anos, período em que a companhia registrou um prejuízo somado da ordem de R$ 7,5 bilhões.

Entre 2014 e 2016, a Claro perdeu 11 milhões de clientes. Só no ano passado, sua base de assinantes na telefonia móvel caiu 8,8%, mais do que a soma de cancelamento de linhas da Vivo e da TIM. Se dependesse da Claro, Carlos Slim não chegava nem perto do posto de homem mais rico do mundo. Mas ele não vai ficar com essa conta sozinho.

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