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A venda da Medley, braço de medicamentos genéricos da francesa Sanofi, tornou-se um acirrado leilão. No setor, já se fala na possibilidade de uma segunda rodada de propostas nesse “quem dá mais”. A Sanofi recebeu ofertas da EMS, Hypera, Aché, Cimed, União Química e da indiana Torrent. Nos bastidores há informações de a Sanofi e o Lazard, assessor da operação, já operam com uma shortlist mais enxuta, que não se baseia exclusivamente nos valores apresentados. A capacidade efetiva de fechamento da transação, especialmente no que diz respeito ao funding, é vista pelos franceses como uma variável relevante, que pode fazer diferença na disputa entre alguns dos principais sobrenomes da indústria farmacêutica nacional. A EMS, de Carlos Sanchez, e a Hypera, de João Alves de Queiroz Filho, o Junior, trabalham com estruturas baseadas majoritariamente em recursos próprios e endividamento local. Outros concorrentes, como a Cimed e a União Química, estariam na dependência de aportes de fundos internacionais. A Cimed, de João Adibe Marques, já tem um parceiro dentro de casa: o GIC, fundo soberano de Cingapura, acionista minoritário do laboratório. Por sua vez, a União Química, do empresário Fernando Marques, tem mantido intensas conversas com fundos de private equity. Marques está disposto a vender uma participação na companhia com forma de garantir o funding necessário para a aquisição da Medley. A ver se terá tempo para executar essa intrincada engenharia antes da Sanofi bater o martelo.
A relação entre as três grandes operadoras de telefonia, Vivo, Claro e TIM, e o presidente da Anatel, Rodrigo Baigorri, passa por um momento de turbulência. Nos bastidores, dirigentes das empresas têm feito críticas ao que consideram um aumento do intervencionismo regulatório sobre o setor. Há informações de que a agência estuda novas normas relacionadas aos TACs (Termos de Ajustamento de Conduta) com o intuito de reduzir a margem para a renegociação de cronogramas e escopos desses acordos. Uma das ideias em discussões é aumentar as sanções nos casos de descumprimento de obrigações previstas nos TACs. Na prática, isso significa que Vivo, Claro e TIM podem perder a flexibilidade que historicamente sempre tiveram para recalibrar entregas técnicas ao longo da execução dos TACs. A Anatel vem de uma sequência de decisões antipáticas às operadoras. É o caso da recente restrição imposta ao direito de voto das três empresas no Gaispi – grupo criado para acompanhar o cumprimento das obrigações do leilão do 5G de 2021. A decisão, formalmente colegiada, foi liderada pela presidência da Anatel sob o argumento de evitar conflitos de interesse e riscos de “captura decisória”. No mercado, porém, a leitura é que Baigorri decidiu encurtar deliberadamente a interlocução com as companhias em um fórum estratégico. O atrito se aprofundou com a leitura mais restritiva das obrigações previstas no edital do 5G, especialmente em programas como o PAIS (leia-se a construção de infovias conectadas na Amazônia) e nas exigências relacionadas à mitigação de interferências de redes. Segundo fontes do setor, a presidência da Anatel passou a exigir cumprimento literal dos compromissos, reduzindo margens de flexibilização que vinham sendo negociadas desde 2022. Em outro front, a gestão Baigorri aprovou, no último mês de agosto, a Resolução 780/2025, que ampliou exigências de conformidade técnica e reforçou o regime sancionatório, atingindo não apenas as operadoras, mas também fabricantes, marketplaces e prestadores de serviços.
A chegada do Independiente del Valle no capital da SAF do Coritiba, anunciada ontem, desponta como a porta de saída de Roberto Justus dos gramados. Há informações de que o acordo prevê a aquisição gradual do controle da Sociedade Anônima do Futebol, pertencente à Treecorp, gestora de investimentos de Justus e de seu genro, Bruno D’Ancona. Desde 2023, o private equity detém o controle da SAF, com uma participação de 90% – os 10% restantes permanecem com o clube associativo. O Independente del Valle, clube equatoriano, teria até três anos para exercer a compra e concluir a transição. Por trás do negócio está Michel Deller, dono de uma das maiores fortunas do Equador. Deller controla o Independiente del Valle desde 2007. As negociações para a entrada de um novo sócio – e futuro controlador na SAF do Coritiba – foram deflagradas pela Treecorp há pouco mais de dois meses – ver RR. Procurada pelo RR, a gestora não se manifestou.
A substituição da Oi como prestadora de serviços de telecomunicação para a esfera federal está provocando divergências dentro do governo. De um lado, o ministro das Comunicações, Frederico Siqueira Filho; do outro, o ministro da Defesa, José Mucio. Siqueira Filho tem defendido que cada órgão faça uma licitação e contrate um novo fornecedor. O ministro é contrário a ideia de que a Telebras assuma operações da Oi, mesmo aquelas consideradas estratégicas. Um dos argumentos é que essa medida poderá aumentar os prejuízos da estatal – entre janeiro e setembro, a empresa acumula perdas de R$ 82 milhões. Por isso, Siqueira Filho quer a Telebras longe do imbróglio causado pela deterioração da Oi. Não é o que pensa José Mucio. O ministro da Defesa tem conduzido articulações no governo para que a Telebras encampe os serviços prestados pela Oi à Aeronáutica, notadamente ao Sistema de Controle do Espaço Aéreo Brasileiro (SISCEAB) – conforme informou o RR. O SISCEAB envolve atividades sensíveis tanto para fins militares quanto civis – do monitoramento do espaço aéreo ao gerenciamento de aviões em voo em todo o território nacional. Nesse caso específico, a Claro já foi contratada para substituir a Oi, mas Mucio defenda que a Telebras lidere o processo de transição. Nesse choque de visões entre os ministros das Comunicações e da Defesa, o mais provável é que o segundo ganhe a parada.
Qual será o principal desafio do novo CEO da Vivara, Thiago Lima Borges: manter a trajetória de resultados ascendentes da empresa ou tourear as ingerências do acionista controlador, Nelson Kaufman? Quem conhece Kaufman de perto crava a segunda hipótese. A anunciada troca de comando é mais um teste para a governança da rede de joalherias. Nos últimos anos, a Vivara tornou-se uma máquina de triturar CEOs. Borges será o quinto executivo a ocupar o cargo desde março de 2024. Ele chega para substituir Icaro Borrello, aquele que suportou mais tempo dentro desse moedor de presidentes. O recordista Borrello permaneceu à frente da gestão da Vivara exatamente por um ano. Para todos os efeitos, Kaufman afastou-se formalmente até mesmo do board da companhia: renunciou à presidência do conselho no último mês de julho. Quem assumiu o comando do board foi sua própria filha, Marina Kaufman. Na empresa, é notório quem continua a dar as cartas. A voz de Marina é ouvida como a voz do pai.
O projeto de lei 4.497/2024, que estabelece um novo marco legal para regularização de imóveis rurais em faixas de fronteira e foi aprovado pela Câmara na semana passada, enfrenta resistências dentro do governo. Os ministros do Desenvolvimento Agrário, Paulo Teixeira, e do Meio Ambiente, Marina Silva, pregam que o presidente Lula vete determinados trechos da proposta – já encaminhada ao Palácio do Planalto para sanção presidencial. Teixeira e Marina veem na nova lei um risco concreto de estímulo à grilagem e de agravamento de conflitos fundiários em regiões sensíveis do país. O principal ponto de atrito é a flexibilização de exigências como o georreferenciamento, instrumento considerado central para garantir a identificação precisa dos imóveis e evitar sobreposição com terras públicas, indígenas ou áreas protegidas. Para críticos dentro do governo, ao reduzir essas salvaguardas o projeto pode produzir o efeito inverso ao discurso oficial de segurança jurídica. No Ministério do Desenvolvimento Agrário, o entendimento é que a medida cria um atalho legal para a convalidação de títulos irregulares, muitos deles originados em ocupações precárias ou em registros históricos frágeis, especialmente em regiões de fronteira agrícola. A essa altura, no entanto, é pouco provável que Lula vete trechos do PL 4.497/2024 e compre essa briga com o Congresso.
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