Redação RR - Relatório Reservado

Artigos: Redação RR

BNDES ajuda a soldar acordo entre Mota-Engil e Bamin

23/02/2026
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O BNDES é a linha que deve costurar a operação de transferência dos ativos da Bamin (Bahia Mineração) – leia-se Eurasian Resources Group, do Cazaquistão – para a portuguesa Mota-Engil. As tratativas envolvendo o banco de fomento contemplam dois cenários. A participação do BNDES se daria por meio de um financiamento puro e simples ou pela garantia de compra de debêntures incentivadas, segundo uma fonte próxima à Bamin.  O pacote a ser repassado à Mota-Engil envolve três ativos que formam uma “corrente logística” única:  a mina de minério de ferro de Caetité (BA); a concessão para a construção e gestão do trecho 1 da Fiol (Ferrovia de Integração Leste-Oeste), de 537 km; e o Porto Sul, em Ilhéus. Ao todo, o que está em jogo é a execução de um investimento de R$ 15 bilhões. O governo fez de tudo para colocar o complexo mínero-logístico – e a conta – no colo da Vale. Mas a empresa se esquivou. A Mota-Engil surge como a solução mais exequível. Esta seria a primeira investida dos portugueses na produção de minério de ferro. Por meio da Luso Global Mining (LGM), o grupo detém operações de extração de ouro na Costa do Marfim.

#BNDES

Delação de ex-chairman da Copasa acende sinal de alerta no governo Zema

23/02/2026
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A ruidosa renúncia do presidente do conselho de administração da Copasa, Hamilton Amadeo, abriu uma frente sensível para o governo de Minas Gerais. Nos bastidores, assessores de Romeu Zema discutem a necessidade de conduzir uma dupla blindagem: uma corporativa, voltada à preservação do ativo e da modelagem da privatização da empresa de saneamento; e outra política, destinada a evitar que o episódio contamine diretamente o próprio governador, pré-candidato à Presidência da República ou à vaga de vice em uma chapa encabeçada por Ratinho Jr. Na semana passada, vieram a público detalhes da delação premiada de Amadeo ao Ministério Público Federal. O executivo admitiu ter autorizado o pagamento de propinas a políticos quando era presidente da Aegea, entre 2011 e 2020. Para todos os efeitos, os crimes ocorreram a léguas de distância da Copasa. Mas, tanto no mercado quanto na política, há dois mundos: o real e o percebido. Ainda que os fatos narrados na delação não guardem relação direta com a Copasa, a presença de Amodeo empurrou essa crise para a estatal e consequentemente para a gestão Zema. A simples associação do nome do presidente do conselho a pagamentos ilícitos lança dúvidas sobre critérios de escolha, filtros de governança e mecanismos de compliance. Ao mesmo tempo, alimenta ilações sobre os parâmetros usados por Zema para o preenchimento de cargos.   

No plano empresarial, a prioridade é reforçar a narrativa de que a crise está circunscrita a fatos pretéritos e individuais, sem vínculo com a atual gestão da Copasa. O governo trabalha para sustentar que a governança da companhia permanece íntegra e que o cronograma de privatização segue inalterado. A avaliação interna é que qualquer percepção de fragilidade institucional pode impactar o apetite de investidores e pressionar o valuation do ativo. Cabe lembrar que no dia em que a delação de Amadeo veio à tona, 13 de fevereiro, a ação da Copasa chegou a cair 3,5%. No terreno político, o esforço do Palácio Tiradentes é distanciar o máximo o ex-chairman da Copasa de Zema, na tentativa de evitar que sua conduta pregressa na Aegea se torne munição para adversários nas eleições.

#Copasa

Após punhalada, Amin reage e ameaça rachar direita em Santa Catarina

23/02/2026
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“Traição” se paga com “vendeta”. O senador Espiridião Amin trabalha nos bastidores para que o PP, seu partido, lance um candidato próprio ao governo de Santa Catarina, tendo ao seu lado o União Brasil. Seria a resposta à punhalada que recebeu nas costas do PL e, em especial, do governador do estado, Jorginho Mello. Na leitura de Amin, Mello lavou as mãos e nada fez para brecar a intentona conduzida pela família clã Bolsonaro, que impôs a dupla candidatura da deputada federal Carol de Toni e do rebento Carlos Bolsonaro ao Senado pelo PL. Havia um acordo anterior, endossado pelo governador, para que o partido apoiasse Amin na disputa pela reeleição à Casa Alta do Congresso. O tempo mostrou que era um trato escrito à lápis. Amin garante que manterá sua candidatura, mas agora sai de um cenário confortável, com uma recondução quase certa, para o desafio de enfrentar dois bolsonaristas raiz, um deles com Bolsonaro no sobrenome, em um estado em que o clã tem notório recall eleitoral.

#Amin

Há uma cadeira elétrica armada na direção da Eletronuclear

20/02/2026
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Há um forte bochicho em Brasília de que o presidente interino da Eletronuclear, Alexandre Caporal, balança no cargo, ou melhor, nos cargos – ele acumula o comando provisório com a diretoria financeira da estatal. Sua recente declaração comparando a empresa aos Correios em razão do risco de um colapso financeiro teve o efeito de um curto-circuito no Ministério de Minas e Energia. A fala soou como um ataque direto ao ministro Alexandre Silveira, que prometeu anunciar até o fim de 2025 uma solução para o impasse de Angra 3 – as obras estão paralisadas desde 2015. O ano acabou e as palavras de Silveira foram levadas pelo vento. Caporal também reivindicou publicamente a suspensão da cobrança de R$ 7 bilhões em dívidas referentes à usina junto a bancos públicos. Jogou luz sobre algo que já gera faíscas nos bastidores. Aos olhos da direção da Eletronuclear, Silveira tem se empenhado pouco ou quase nada em relação ao assunto.

#Eletronuclear

Reestruturação nos EUA dita os passos da Alpargatas na Europa

20/02/2026
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Após reestruturar seu modelo de negócio nos Estados Unidos e no Canadá, as atenções da Alpargatas se voltam agora para a Europa. E uma coisa está diretamente ligada à outra. Segundo informações filtradas pelo RR, a companhia controlada pelos Moreira Salles e pelos Setúbal estuda replicar no Velho Continente a guinada feita na América do Norte. As discussões passam pela hipótese terceirizar a operação no mercado europeu. Nesse caso, há duas possibilidades sobre a mesa: buscar um parceiro único para toda a Europa ou fechar acordos país a país. Este último cenário pode até ser mais trabalhoso, no entanto seria também o mais confortável, uma vez que permitiria uma mudança gradual e, sobretudo, a escolha de distribuidores com liderança consolidada e musculatura comercial específica em cada mercado nacional. Ainda que existam muitas diferenças entre as praças dos Estados Unidos e da Europa — a começar pelo grau de fragmentação geográfica e regulatória e pelas disparidades climáticas e culturais que afetam a sazonalidade do consumo do continente europeu — a fabricante das Havaianas entende que parte dos ganhos de eficiência obtidos na América do Norte pode, com as devidas adaptações, ser capturada também do outro lado do Atlântico. Em meados do ano passado, a Alpargatas assinou um contrato de quatro anos com o The Eastman Footwear Group. Na prática, terceirizou integralmente sua operação na América do Norte. Os resultados já começam a aparecer: no terceiro trimestre de 2025, as vendas (em milhões de pares) nos Estados Unidos e no Canadá subiram 14,6% em relação a igual período no ano anterior. No mesmo intervalo, o volume comercializado na Europa cresceu apenas 7,7%. Em termos de receita, a alta na América do Norte chegou a 12,4%, ao passo que na Europa o crescimento foi de 8,1%. Consultada pelo RR, a Alpargatas não quis comentar o assunto.

A operação da Alpargatas na Europa enfrentou um período de turbulência severa entre 2022 e 2024, marcado por uma crise logística que comprometeu a distribuição da marca Havaianas no continente. O principal entrave surgiu de uma transição ineficiente entre operadores logísticos, gerando gargalos que impediram a entrega pontual de volumes em janelas cruciais de venda. Esse cenário foi agravado por um erro de planejamento que resultou em estoques inflados de coleções antigas, forçando a companhia a realizar liquidações agressivas e baixas contábeis para limpar os canais de venda. Paralelamente, a pressão inflacionária na região reduziu o poder de compra dos consumidores, enquanto a falta de controle sobre preços em marketplaces gerou um conflito de canais que corroeu as margens de lucro. Foi a tempestade perfeita. O pior passou, mas a empresa entende que há um potencial de crescimento na Europa ainda adormecido. A operação da companhia no continente é suportada por três centros de distribuição, localizados na Espanha, Itália e Holanda. O formato de vendas local carrega uma série de exigências, justamente por conta da sazonalidade: alta concentração de pedidos e de entrega no verão, o que acentua eventuais funis logísticos, com um período de baixa no restante do ano. Esse é um ponto importante: vale a pena manter uma estrutura própria subutilizada por vários meses? Assim como ocorria nos Estados Unidos e no Canadá, o formato atual significa a internalização de uma estrutura de custos mais pesada – com a manutenção de áreas comercial, marketing e logística. Ao entregar a distribuição a um parceiro ou a mais de um parceiro, a empresa buscaria transformar parte relevante das despesas fixos em variáveis e recuperar disciplina de preço já a partir de 2026.

Ainda assim, há ponderações que são feitas dentro da Alpargatas e permeiam as discussões sobre uma eventual mudança no modelo de negócios na Europa. Diferentemente dos Estados Unidos, onde a Havaianas vinha operando com baixa penetração e margens comprimidas, a Europa concentra parte expressiva do resultado internacional da companhia e funciona como vitrine global da marca. Em mercados como Espanha e França, a operação é não apenas comercial, mas de posicionamento premium — com presença em grandes redes de moda, multimarcas e canais digitais próprios. Entregar essa engrenagem a um distribuidor significaria abrir mão do controle sobre precificação, calendário promocional e estratégia de sortimento justamente onde a marca ainda captura margem. É algo que terá de ser sobrepesado pela direção da empresa.

Há cerca de dois anos, a Alpargatas atravessou um período de forte turbulência, com deterioração de margens, dificuldades na operação internacional e queda consistente de resultados. O cenário levou os Moreira Salles e os Setubal a trocar o então CEO, Roberto Funari, pelo executivo Liel Miranda, egresso da Mondelez. À época, a empresa havia tração justamente nos mercados que deveriam sustentar sua expansão global. Agora, os números indicam uma inflexão visível: a recomposição de margens, a disciplina comercial e os ajustes no modelo de distribuição começam a produzir efeitos concretos. A gestão de Miranda parece ter acertado o passo da Alpargatas. Nos nove primeiros meses de 2025, a receita líquida chegou a R$ 3,3 bilhões, alta de 10,8% em relação a igual período no ano anterior. No mesmo comparativo, o lucro líquido consolidado avançou de R$ 134 milhões para R$ 388 milhões (salto de 251,9%). E o Ebitda saiu de R$ 316,5 milhões para R$ 654,3 milhões, crescimento de 106,7%.

#Alpargatas

Mexicana ASUR sobrevoa o Aeroporto do Galeão

20/02/2026
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O Grupo Aeroportuario del Sureste (ASUR) surge no radar como candidato à licitação do Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro. A companhia mexicana sinalizou ao Ministério dos Portos e Aeroportos seu interesse em participar do leilão, marcado para 30 de março. A ASUR aterrissou em solo brasileiro no fim do ano passado, ao investir R$ 11,5 bilhões na compra de um pacotão de 20 concessões aeroportuárias da Motiva (ex-CCR), sendo 17 no país e três no exterior. O grupo é um dos maiores operadores do setor na América Latina, com nove aeroportos no México e outros sete em diversos países da região. A relicitação do Galeão deve ser a única grande concessão do segmento realizada no terceiro mandato de Lula. A Changi, de Cingapura, e a Vinci Compass, atuais controladoras do aeroporto, são tidas como as candidatas mais fortes para o leilão. A espanhola Aena e a Zurich também estão no páreo.

#ASUR

BemAgro mira aquisições nos Estados Unidos após capitalização

20/02/2026
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A BemAgro, dos investidores Luiz Ambar e Johann Coelho, pretende pisar em solo americano, com a compra de agtechs locais. O que se diz no mercado é que a startup já mapeou ativos nos Estados Unidos, notadamente nos segmentos de agricultura de precisão, análise de imagens por satélite e drones, plataformas de gestão de fazendas (farm management systems). A BemAgro concluiu recentemente sua rodada Série A na qual levantou R$ 30,3 milhões. O aporte, liderado por investidores como The Yield Lab Latam e com participação de grupos como Colorado Ventures, CNH, Atvos e Agroven. A perspectiva de compras nos Estados Unidos faz parte de um plano ousado que visa transformar a BemAgro em referência internacional em tecnologia agrícola, potencializando a exportação de soluções que combinam geoespacial, IA e dados operacionais para grandes cadeias produtivas.

#BemAgro

Barchini e Palacios disputam MEC sob sombra do fiasco no Enamed

20/02/2026
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Nos corredores do Ministério da Educação, dois nomes despontam como fortes candidatos para substituir Camilo Santana, que deixará o cargo em abril: Leonardo Barchini, atual secretário-executivo da Pasta, e Manuel Palacios, presidente do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira). Barchini carrega maior densidade política. Braço direito de Santana e operador político de confiança no ministro, tem histórico de articulação com governadores, parlamentares e secretários estaduais. Já Palacios conta com o apoio, sobretudo, da comunidade acadêmica. Tem também a seu favor o trabalho feito no comando do Enem. Ressalte-se que, em seu mandato-tampão até dezembro, o substituto de Santana terá de administrar o rescaldo da crise na formação de cursos de medicina no Brasil após os pífios resultados da última edição do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), divulgada em janeiro. Aproximadamente 30% das graduações avaliadas receberam conceitos insatisfatórios (1 ou 2 na escala do Enade), o que representa 107 cursos com desempenho abaixo do mínimo esperado pelo Inep e pelo Ministério da Educação.

#Enamed #MEC

Azzas unifica negócios e concentra poder após resultados decepcionantes

19/02/2026
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A recente unificação das unidades Arezzo, Schutz, Vans e Hering debaixo do mesmo guarda-chuva vai além de uma mera mudança no organograma da Azzas 2154. Há outros ajustes organizacionais em estudo. A lógica é condensar verticais de negócio e concentrar poder decisório, o avesso do que se viu logo após a criação da empresa, há dois anos, a partir da fusão entre a Arezzo e o Grupo Soma. Trata-se de uma boa dose de mea culpa. Dentro da companhia, há o reconhecimento tácito de que a estrutura anterior não entregou o que prometia. Ao juntar as unidades de Shoes & Bags (Arezzo, Schutz, Vans) e Basic (Hering), a Azzas 2154 pretende reduzir camadas intermediárias e redesenhar o fluxo de decisões. O modelo mantido até então expôs fragilidades que a arquitetura descentralizada não conseguiu absorver. A captura de sinergias ficou aquém da expectativa do mercado. O redesenho é também uma resposta direta aos resultados decepcionantes da companhia: no terceiro trimestre do ano passado, as verticais Shoes & Bags e Basic registraram queda de receita, respectivamente, de 5,6% e 4,2% na comparação com igual período em 2024.

#Azzas 2154

A perda de valuation dos ativos eleitorais de Lula

19/02/2026
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Como conter a depreciação dos ativos eleitorais de Lula que, historicamente, sempre fizeram diferença nas urnas? Esse é o dilema que ricocheteia no entorno do presidente, particularmente na cabeça do ministro chefe da Secom, Sidônio Palmeira. Pesquisas qualitativas encomendadas pelo Palácio do Planalto têm mostrado de forma dura e crua que o capital simbólico acumulado por Lula durante décadas já não opera como gerador automático de votos. Ao menos não na proporção necessária. Nas sondagens sobre as quais está debruçado, Sidônio identificou três pontos de preocupação para as hostes petistas. O primeiro deles é o esvaziamento do que sempre foi o núcleo celular do lulismo: as políticas sociais. Bolsa Família, BPC, Tarifa Social de Energia Elétrica, Minha Casa, Minha Vida, Farmácia Popular, Vale Gás, ProUni, Pé-de-Meia… Todas essas políticas compensatórias já são percebidas como direito adquirido. Ao se tornarem parte do “estado natural das coisas”, deixam de produzir gratidão política. Mesmo a ampliação dos repasses não se converte linearmente em fidelização porque o eleitor de baixa renda já internalizou o benefício. E narrativas terroristas, de que o adversário A ou B extinguirá determinada benesse, não colam mais. Jair Bolsonaro passou e as concessões sociais não foram cortadas.  Pelo contrário.

Some-se o fato de que efeitos cumulativos de corrosão, como a inflação – especialmente de alimentos, energia e serviços básicos –, desidratam a percepção de prosperidade. Por outro lado, há o efeito de que, mesmo que Lula tenha dado de benefícios granel e Bolsonaro praticado políticas sociais de forma minúscula e muito eventualmente, o estoque de carências da população é tão grande e cresce com tanta rapidez que lembra a fábula do menino e o dique. Havia uma parede de contenção de um rio. De repente surgiu, um pequeno vazamento. O menino colocou o seu dedo para tampá-lo. Nisso, a pressão da água estourou outro vazamento ainda maior. O garoto colocou o outro dedo, e mais uma vez um novo buraco se abriu. E assim sucessivamente. O povo são as águas. Os buracos, a queda na aprovação popular e a perda de votos.

O segundo vetor escancarado nas pesquisas é o endurecimento ideológico. A polarização deixou de ser circunstancial e se tornou identitária. O jogo do “nós” contra “eles”, ou de “comunistas” x “fascistas” está dado. Com isso, há pouca margem para deslocamento de votos. A quantidade de eleitores que se oferecem para serem convencidos do contrário é cada vez menor. É um problema especialmente para Lula, que terá pouco espaço de crescimento do primeiro para o segundo turno. Ao contrário de Flavio Bolsonaro, que muito provavelmente terá na rodada decisiva o reforço maciço de votos que se espalharam por outros candidatos do campo da direita. Portanto, a eleição tende a ser menos sobre convencimento e mais sobre mobilização de base. O eleitorado disposto a atravessar o Rubicão ideológico encolheu drasticamente.

Essa variável se cruza com o terceiro vetor que emerge das pesquisas do Palácio do Planalto: Lula tem um problema de “brand”. À exceção de Leonel Brizola, com quem dividiu os votos da esquerda em 1989, e de FHC, o petista quase nunca precisou concorrer com marcas políticas à sua altura. Esse cenário mudou com a entrada em cena de Jair Bolsonaro. Queira-se ou não, o sobrenome Bolsonaro é uma grife eleitoral, vide a transferência de votos para Flavio Bolsonaro. O “01” já aparece na última pesquisa Genial/Quaest com 31% no primeiro turno e 38% no segundo, contra, respectivamente, 38% e 43% de Lula. Assim como o petista entregou um pacote fechado de votos para Fernando Haddad em 2018, Flavio já mostrou que a loja da Kopenhagen não é a única franquia em sua vida. Hoje, ele é o master-franqueado do brand Bolsonaro nas urnas, aparecendo como o recebedor dessa herança simbólica.

A maior evidência da erosão da marca Lula é a perda de popularidade no Nordeste. Na mesma pesquisa Genial/Quaest, divulgada no último dia 11, a aprovação do seu governo na região caiu para 61%, contra 67% no levantamento anterior, em janeiro. O fenômeno é atribuído a diversos fatores: avanço das igrejas evangélicas, maior penetração de redes sociais com discurso conservador, desgaste econômico e emergência de lideranças locais menos alinhadas automaticamente ao PT. A essa altura, o que menos importa para a campanha lulista é mapear as causas da infecção, mas reduzir seus sintomas. A questão é como? No Planalto, espera-se que, com uma taxa de juros real da ordem de 8% (projeção para dezembro de 2026), o cenário melhore um pouquinho em relação à atual taxa real da ordem de 10,5% a 11%. Mesmo caindo do atual patamar, a taxa básica ainda será a segunda ou maior terceira do mundo.

O que as pesquisas acompanhadas por Sidônio Palmeira sugerem é uma mudança de ciclo. Lula não perdeu seu patrimônio político, mas já não opera em regime de monopólio simbólico. Seu capital deixou de ser multiplicador automático. Em mercados competitivos, ativos não desvalorizam apenas por fracasso — desvalorizam quando o ambiente muda. E o ambiente eleitoral brasileiro mudou: menos transferência emocional, mais identidade rígida; menos gratidão retrospectiva, mais disputa de narrativa em tempo real. A eleição de 2026, nesse contexto, tende a ser menos uma reedição do passado e mais uma disputa por eficiência de marca e retenção de base. Lula ainda lidera, mas sob pressão estrutural. E Flávio Bolsonaro, é bom que se lembre, ainda não começou a fazer suas promessas eleitoreiras nem para os brasileiros e brasileiras, notadamente aos do Nordeste, curral eleitoral de Lula. Por ora, o que se tem é que o presidente da República começou sua “campanha” sambando com o pé esquerdo. A homenagem a Lula terminou no rebaixamento da Acadêmicos de Niterói no carnaval carioca.

#Lula

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