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Se a comunidade dos petroleiros tem um projeto dos sonhos é reconduzir a Petrobras aos velhos tempos de poder quase absoluto. Dependendo do ângulo que se enxergue, era uma estatal voltada a todo o circuito da exploração, refino e distribuição de derivados de petróleo (do poço ao posto), mas também ao fomento de outros setores afins (fertilizantes, por exemplo) e projetos estruturantes. Se fosse o ex-ministro Roberto Campos, crítico de carteirinha da companhia, a estatal estaria recuando em marcha forçada para voltar a ser a “Petrossauro” ou a Petrobras do Geisel. Uma ressalva: Campos metia o malho antes do fim do monopólio do petróleo, sua verdadeira bête noire. Mas parece que por contágio, à exceção da gestão privatista dos tucanos, quem entra na Petrobras quer logo um revival. Agora, estimulado pelas declarações de Lula, a presidente da companhia, Magda Chambriard, criou um grupo para estudar o “de volta para o futuro”, com ênfase em distribuição e expansão do refino. O governo Lula, por uma conjunção de fatores, inclusive a nova geopolítica do petróleo em um ambiente de guerras longevas, lida com um cenário bem distinto do fim do século passado, quando as privatizações pareciam incontestáveis. Com Donald Trump, Venezuela, Oriente Médio, Rússia, China e outros países que sentem as dores e os benefícios do petróleo, a premissa é que a “nova Petrobras” precisa revisitar a “velha Petrobras”.
Esse óleo não brota do chão de agora. Ainda na campanha de 2022, Lula usou e abusou dos ataques à privatização da BR Distribuidora, vinculando-a à alta dos preços dos combustíveis. O petista chegou a acenar, inclusive, com a reestatização da Vibra, a rebatizada BR. O que parecia ser um saudosismo ideológico – e talvez fosse mesmo – agora já não ressurge como reflexo de um governo de inclinação estatista. A proposta ganha nova tração porque o mundo piorou. Piorou muito. A sucessão de conflitos em latitudes sensíveis do planeta, a ameaça de guerras sem temporalidade previsível, o risco de choques duradouros no petróleo, tudo potencializado pela escalada bélica no Irã e no entorno, formam uma composição explosiva. Desde a intensificação da guerra envolvendo o Irã, o Brent entrou em espiral de alta: saiu da casa de US$ 81 no início de março, avançou para a faixa de US$ 85 poucos dias depois e, no pico intradiário de 9 de março, bateu US$ 119,50 por barril, o maior nível desde meados de 2022. Mesmo após alguma acomodação, os contratos ainda acumulam valorização expressiva desde o início da crise, reforçando a percepção de que o mercado voltou a embutir um pesado prêmio geopolítico. Fica a mensagem de que um cisco no olho dos iranianos e de seus coirmãos do Oriente pode levar o preço do barril a US$ 100 em minutos. Ou a US$ 110. Ou descer para US$ 78. Essa arritmia deixa qualquer economia com risco de choque anafilático. Nesse contexto, uma pergunta ganha centralidade nas discussões travadas dentro do governo: até que ponto adianta a estatal segurar ou modular o preço dos combustíveis na refinaria se não controla os canais pelos quais o produto chega ao consumidor? Com o petróleo pressionado por conflitos prolongados e com o abastecimento brasileiro mais exposto, essa mesma crítica perde a armadura do estatismo e ganha vestes de doutrina de segurança energética. Ou nacional, conforme queiram.
Nesse novo cenário global, de tiros, bombas e deterioração das relações de troca multilaterais, a verticalização da Petrobras deixa de ser apenas um desenho empresarial e passa a ser vista, dentro do governo, como mais um instrumento de controle de preços. O que provoca horror nos neoliberais, ao mesmo tempo que causa garbo e tranquilidade nos militares. Hoje, a Petrobras domina a composição do valor final até o refino, podendo inclusive acumular prejuízo operacional, mas não tem comando direto sobre a margem da distribuição e sobre a velocidade de repasse na revenda para o consumidor final. Reentrar nessa etapa da cadeia seria, justamente, avançar sobre esse espaço e ampliar a capacidade de intervir diretamente no preço do combustível na bomba. Dominando apenas até a porta da distribuidora, a Petrobras ainda consegue influenciar o mercado, mas não o suficiente para ditar, de ponta a ponta, o comportamento de preços em um ambiente de estresse. Com distribuição própria, teria mais instrumentos para calibrar essa transmissão.
O impacto conjuntural da guerra ajuda a explicar a urgência dessa discussão. A crise em torno do Irã voltou a colocar o estreito de Ormuz no centro do mapa energético mundial. Cerca de um quinto do petróleo consumido no planeta passa por aquele corredor marítimo. Quando a região entra em combustão, o efeito não se limita ao barril: sobe o custo do frete marítimo, aumentam os prêmios de seguro, compradores correm atrás de rotas e fornecedores alternativos e toda a cadeia passa a operar sob risco de interrupção. Nesse ambiente, as projeções para o Brent em 2026 foram revistas para cima, e o mercado trabalha com a perspectiva de preços persistentemente elevados no curto prazo. Quanto maior o risco geopolítico, maior a necessidade de controlar infraestrutura e insumos críticos. Quanto mais o combustível importado pesa sobre a colheita, sobre o frete e sobre a inflação, mais a distribuição passa a ser vista não apenas como acessório comercial, mas também como peça de política econômica.
O lulismo, nesse sentido, parece concluir que o comando da refinaria, sozinho, já não basta para arbitrar o preço final. Quer mais alavancas. Quer mais presença. Quer mais Estado na ponta da cadeia. Os efeitos já transbordam do mercado de petróleo para a economia real. A alta do barril já contaminou os derivados, pressionando diesel, gasolina, querosene de aviação e gás. Não por acaso, o tema deixou de ser tratado apenas como debate concorrencial ou nostalgia estatizante. Passou a ser lido, no Planalto, como problema de segurança energética e de governabilidade econômica. Na ponta, vai bater no descontrole da inflação e em taxas de juros aterradoras.
Trazendo a discussão do terreno teórico para o prático, dois nomes têm sido regularmente repetidos no Palácio do Planalto: a própria Vibra e a Liquigás. As duas empresas são vistas como potenciais pilares da verticalização da Petrobras. Com a primeira, a estatal recuperaria uma rede de aproximadamente 7,9 mil postos, com um volume de vendas de 35,821 milhões de m³ de combustíveis por ano; com a segunda, voltaria a entrar no mercado de GLP pela porta de um grupo, a Copagaz, que hoje lidera o setor com 24,6% de participação. Nos dois casos, não são caminhos fáceis de serem percorridos. A Vibra tem capital amplamente pulverizado: seu free float é de 99,61%. O valor de mercado da empresa é da ordem de R$ 37,8 bilhões, a preço de ontem. Em um exercício estritamente financeiro e hipotético, o valor de 50% das ações equivaleria a algo perto de R$ 18,9 bilhões ao preço de tela. Caro? Barato? Quanto custa a segurança energética de uma nação?
A Vibra é e sempre será o ativo mais cobiçado, mas, cabe lembrar, que existe uma nova alternativa sobre o balcão. O reingresso da Petrobras no setor poderia se dar por meio da Ipiranga. Nesse caso, haveria um nó a ser desatado: a Petrobras tem um acordo de não competição firmado com a própria Vibra, em vigor até 2029. Na prática, isso significa que qualquer retorno da estatal à distribuição e ao varejo de combustíveis — seja pela antiga BR, seja por outro ativo relevante do setor — esbarra, no curto prazo, nessa trava contratual. Nada que não possa ser negociado se, mais uma vez, o assunto tratar da segurança energética. As garantias se sobressaem no livrinho da Constituição Federal.
A Liquigás, por sua vez, reaparece por outra porta: a do GLP, produto de alto impacto social e simbólico. Hoje, o ativo que um dia pertenceu à Petrobras está incorporado à Copa Energia, companhia nascida da aquisição da Liquigás pela Copagaz em 2020. Trata-se de uma operação que se espraia por 24 estados brasileiros, mais o Distrito Federal, por meio de uma rede com mais de 10 mil revendas. A Copa é controlada pela família Zahran, dona de 51%. Os 49% restantes estão nas mãos da Itaúsa. É justamente para a holding dos Setubal que as atenções se voltam. Circulam no mercado rumores sobre o interesse da Itaúsa em deixar o negócio. Uma vez dentro do capital da Copa, a Petrobras seria um player com peso político e financeiro suficiente para forçar, por dentro, a compra do controle.
Esse ponto é decisivo porque o GLP tem um peso político diferente do diesel e da gasolina. Recomprar ou recompor presença nesse mercado teria forte apelo social, sobretudo em um governo que associa energia não apenas a eficiência econômica, mas a custo de vida. Ao mesmo tempo, é justamente por isso que a operação seria concorrencial e politicamente sensível. Não se trata de encaixar um ativo em um portfólio; trata-se de mexer num mercado concentrado, regulado e socialmente inflamável. A atração do Palácio do Planalto e, por extensão, da Petrobras pela Liquigás não decorreria apenas de nostalgia patrimonial, mas de sua utilidade como instrumento de presença capilar num segmento com alto valor simbólico junto à população.
A Petrobras passou os últimos anos concentrando capital em upstream e na estratégia de investimento em exploração e produção de petróleo, e não na ampliação do parque de refino e na reconstrução da cadeia de abastecimento na ponta. Isso significa que a verticalização exigiria uma inflexão real de alocação de capital, governança e prioridades. Ou seja: mais do que uma decisão corporativa, o que está em jogo é a disposição política do governo para conduzir essa guinada. Há alinhamento total entre o Palácio do Planalto a presidente da Petrobras. Magda Chambriard chegou ao cargo justamente depois da saída de Jean Paul Prates, em meio à pressão do governo por mais investimentos, menor ênfase em dividendos e maior uso da estatal como alavanca de política industrial. A executiva foi escolhida a dedo para executar prioridades que coincidem com as do lulismo. Magda é uma interlocutora confiável do Planalto para tocar agendas sensíveis. Mas essa não será a pauta de 2026. Depende, entre outras variáveis de complexa magnitude, da vitória de Lula no certame para a cadeira da Presidência da República. O assunto só muda de prazo se o Oriente Médio “explodir” e com ele toda a geopolítica convencional do petróleo.
Fato raro: Benjamin Steinbruch encontra-se em posição de fragilidade em uma mesa de negociações. O pool de bancos com os quais a CSN negocia um empréstimo de até US$ 1,5 bilhão estaria empilhando um volume de condições para seguir adiante com a operação. Segundo informações que circulam no mercado, as instituições financeiras, à frente Santander e Morgan Stanley, exigem como garantia ações da CNS Cimentos e recebíveis do braço de siderurgia. Os bancos também estariam pressionando por cláusulas mais rígidas de covenants financeiros, com limites mais estreitos para indicadores como alavancagem e geração de caixa. Ou seja: a CSN poderá ficar sujeita a gatilhos automáticos de renegociação ou amortização antecipada caso determinados parâmetros de dívida líquida sobre Ebitda sejam ultrapassados. O endurecimento das condições é proporcional ao tamanho do passivo da CSN. No balanço mais recente, a dívida líquida consolidada do grupo gira em torno de R$ 37 bilhões, com uma parcela relevante concentrada em vencimentos entre 2026 e 2028. Procurada pelo RR, a CSN não se manifestou.
Ou os ativos brasileiros estão muito baratos ou a BlackRock enxerga que haverá um salto no consumo interno logo ali na frente. Ou, o que é mais provável, ambas as premissas são verdadeiras. Segundo informações que circulam no mercado, a gestora norte-americana vem comprando em bolsa expressivos volumes de ações do Iguatemi e da Multiplan, montando, assim, posições em dois dos maiores players do setor de shopping centers do país. A leitura é que a BlackRock, um colosso com mais de US$ 14 trilhões sob gestão, está se antecipando a um ciclo favorável para o varejo e para os ativos imobiliários brasileiros. Há ainda um segundo vetor por trás dessa movimentação: a qualidade intrínseca dos ativos. Iguatemi e Multiplan são vistas como plataformas premium, com portfólios concentrados em regiões de alta renda, capacidade de repasse de aluguel e forte resiliência operacional.
Se é para o PT perder em São Paulo que seja com Fernando Haddad. Lula entrou pessoalmente na operação para persuadir o ministro do Empreendedorismo, Márcio França (PSB-SP), a retirar sua candidatura ao governo paulista para se aliar a Haddad. Nesse caso, França disputaria uma vaga no Senado. Lula acena com a promessa de forte apoio do PT a sua campanha à Casa Alta. Entre os petistas, a insistência de França em concorrer ao Palácio dos Bandeirantes é vista como um paralelepípedo no caminho, por dividir o campo da esquerda e embaralhar a estratégia de alianças do partido no estado. Lula e o PT querem repetir a dobradinha feita em 2022, quando a sigla firmou uma aliança com o PSB. Desta vez, há ainda outra peça tão ou mais valiosa no tabuleiro: a ministra Simone Tebet, que deve deixar o MDB e se filar ao próprio PSB para concorrer ao Senado por São Paulo. No caso da disputa pelo governo de São Paulo, como se sabe, o que move Lula é ter um palanque minimamente competitivo para si no maior colégio eleitoral do país. Seja Haddad, seja França, a ordem dos fatores parece não alterar o produto: a esquerda caminha para ser derrotada pelo governador Tarcísio de Freitas.
A ANA (Agência Nacional de Águas) está evaporando. A escassez orçamentária tem levado o órgão regulador a um cenário de asfixia, colocando em risco o cumprimento de algumas de suas atribuições mais nevrálgicas. Os principais impactos do estrangulamento financeiro da ANA vêm se refletindo na gestão da Rede Hidrometeorológica Nacional (RHN), um espécie de sistema nervoso central dos recursos hídricos no Brasil. O RHN alimenta decisões críticas de engenharia, abastecimento de água, geração de energia e defesa civil em todo o país. A redução de recursos, segundo o RR apurou, tem limitado a manutenção de equipamentos, atrasado substituições e provocado falhas na transmissão de dados. O resultado é uma deterioração gradual da qualidade das informações hidrológicas do país — um problema que se traduz em modelagens menos confiáveis e maior risco em decisões que vão da operação de hidrelétricas a projetos de infraestrutura e sistemas de alerta de cheias. A RHN reúne cerca de 23 mil estações de monitoramento distribuídas pelo território nacional e operadas por diferentes instituições — empresas do setor elétrico, governos estaduais, universidades e centros de pesquisa. Cabe à ANA a gestão de aproximadamente 4.800 estações.
Em contato exclusivo com o RR, a ANA confirma que “tem enfrentado dificuldades frente às restrições orçamentárias”, embora ressalte que “não está deixando de cumprir suas competências por essa razão”. Segundo a agência, trazendo a valores atualizados pela inflação, o seu orçamento discricionário “estava em cerca de R$ 301,5 milhões em 2020”. Desde então, o volume de verbas vem caindo consistentemente ao longo dos anos. Atualmente, de acordo com a entidade, “o orçamento discricionário está em R$ 192,6 milhões. Ou seja, houve o aumento de competências da Agência, mas uma redução de cerca de 36% em seu orçamento entre 2020 e 2026”. E de quanto a ANA precisa para tirar a cabeça de dentro d’água? Segundo o próprio órgão regulador, seriam necessários R$ 94 milhões a mais em seu orçamento, ou seja, um aumento de 49%. “Essas estimativas levam em conta programas essenciais para a gestão de recursos hídricos, como programas que fomentam o fortalecimento do Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos (SINGREH), o monitoramento da qualidade da água e os alertas de secas e inundações. Também consideram a elaboração das normas de referência (NR) para o setor de saneamento básico dentro dos prazos estabelecidos pelo novo marco legal do saneamento”.
Em relação à Rede Hidrometeorológica Nacional (RHN), a ANA confirma que “a restrição de recursos impõe uma reavaliação contínua do número de estações e dos serviços necessários para a produção de dados confiáveis que representem a ocorrência da água no país”. A agência afirma, inclusive, ter repassado a operação de pontos de monitoramento de açudes para a gestão estadual. Em outras regiões, a ANA replanejou “o quantitativo de estações, a partir do que foi possível o repasse de estações aos estados e comitês de bacias, a incorporação de estações do setor privado e a desativação de algumas estações onde a sua perda foi compensada pela relocação de outras estações para setores mais representativos”. A entidade diz ainda que suprimiu “parte das campanhas de campo, espaçando visitas de manutenção e coleta de dados, de forma a poder manter as estações fundamentais em funcionamento”.
Embora seja uma das menores agências reguladoras federais em orçamento e quadro de pessoal, direta ou indiretamente a ANA atua sobre setores que, somados, respondem por algo próximo de 20% do PIB brasileiro — da geração hidrelétrica ao agronegócio irrigado, passando por mineração, saneamento e grandes projetos de infraestrutura. O quadro se torna ainda mais grave porque a limitação orçamentária da ANA coincide com a expansão do pipeline de concessões e PPPs de saneamento. O BNDES estima média anual de investimentos no setor entre R$ 42,4 bilhões e R$ 45,2 bilhões até 2029. Apenas em 2026, quatro grandes PPPs podem ir a leilão, com potencial de mobilizar R$ 20,3 bilhões em investimentos e atender 477 municípios
Como se não bastassem os seguidos cortes de verbas, a ANA sofre também com déficit estrutural de pessoal. A própria lei de criação da agência previa um quadro de, no mínimo, 395 servidores, número que nunca foi integralmente preenchido. Hoje a agência opera com cerca de 290 funcionários, segundo dados apresentados pela própria direção da autarquia em audiências no Congresso. E a situação tende a se agravar. Há previsão de que, até o fim desta década, 25 servidores, ou seja, quase 10% da força de trabalho, vão se aposentar sem previsão de recomposição. A ANA informou ao RR que “houve um pedido de concurso feito em 2025, mas ainda não obtivemos resposta quanto à sua autorização. À época foram solicitadas 40 vagas para o cargo de analista administrativo e 15 vagas para técnico administrativo”.
A ANA parece estar longe de figurar entre as prioridades do governo. Como se não bastasse o raquitismo orçamentário, a agência passa por um período de vácuo decisório. O mandato da então presidente, Veronica Sánchez, se encerrou em 15 de janeiro. Até o momento não há definição sobre o substituto definitivo. Por ora, a ANA vem sendo comandada mediante mandatos-tampões. A diretora Ana Carolina Argolo assumiu a presidência interina em 26 de janeiro e já deixará o cargo na próxima semana. Outro diretor será eleito para comandar a agência provisoriamente até que o Palácio do Planalto indique o novo presidente.
A recuperação extrajudicial do Grupo Pão de Açúcar (GPA), anunciada ontem, representa o fim da era Casino. O plano para renegociar cerca de R$ 4,5 bilhões em dívidas foi conduzido inteiramente à margem do grupo, que ainda mantém uma participação acionária de 22,5% na empresa. O isolamento é absolutamente calculado e faz parte da própria ação medicamentosa na tentativa de sobrevivência da rede varejista. Nos bastidores, a nova gestão do GPA, indicada pela família Coelho Diniz, hoje maior acionista, atribui a deterioração da companhia a uma sucessão de erros estratégicos, omissões operacionais e decisões financeiras desastrosas do Casino ao longo dos últimos anos. O legado deixado pelos franceses inclui ziguezagues estratégicos que desnortearam a companhia, desinvestimentos que reduziram sua musculatura operacional, incapacidade de reagir à migração do consumidor para formatos mais baratos e a insistência em uma estrutura de capital tóxica, que se tornou insustentável com a escalada dos juros. A crise, nessa leitura, não é só financeira. É também a conta atrasada de um ciclo de gestão marcado por perda de foco, destruição de valor e erosão progressiva da capacidade competitiva do GPA.
Os números mostram a profundidade do estrago. O GPA encerrou 2025 com capital circulante líquido negativo de R$ 1,22 bilhão e R$ 1,7 bilhão em vencimentos financeiros previstos para 2026. No curto prazo, cerca de R$ 400 milhões a R$ 500 milhões vencem em maio e outros R$ 1,2 bilhão a R$ 1,3 bilhão em julho, o que ajuda a explicar a pressa em costurar o acordo com os credores.
O estrago da era Casino se reflete na Bolsa. Apenas neste ano, o GPA perdeu mais de um terço do seu valor de mercado, hoje na casa de R$ 1,3 bilhão. Os próprios franceses sentem no bolso o derretimento da empresa. Em pouco mais de dois meses, o valor da sua participação caiu de R$ 424 milhões para R$ 275 milhões. E é justamente aí que se instala a especulação do mercado: o que o Casino fará com sua participação remanescente? Uma venda imediata em bolsa parece improvável, porque pressionaria ainda mais um papel já fragilizado. Uma saída negociada, em bloco, para um investidor estratégico ou financeiro, seria mais compatível com o momento. Outra hipótese é o grupo francês simplesmente esperar a poeira da reestruturação baixar para tentar se desfazer da posição em condições menos desfavoráveis. E, quando isso ocorrer, é provável que ninguém no Pão de Açúcar venha a sentir saudades.
A JiveMauá prepara um plano de ataque na tentativa de solucionar as mazelas financeiras da Sequoia. A ofensiva mira simultaneamente três frentes: reestruturação do passivo, reforço de caixa e redesenho operacional do negócio. O plano também passa por corte de custos e racionalização da malha da companhia logística. Quatro centros de distribuição já foram devolvidos — Hortolândia, Jaboatão, Colombo e Salvador — e a administração colocou sob revisão o destino do mega sorter de São Bernardo do Campo, avaliando se o ativo será mantido como plataforma de “sorting as a service” ou usado de outra forma para gerar caixa. A JiveMauá assumiu o controle praticamente integral da Sequoia (99,6%) em fevereiro, ao converter cerca de R$ 421 milhões em debêntures em participação acionária. Colocou no bolso um papel que virou poeira: nos últimos seis meses, o valor de mercado da empresa caiu 97%.
A JiveMauá não quer ficar muito tempo nesse caminhão. O itinerário da gestora é claro: limpar o balanço, reestruturar a operação logística, recuperar valor do ativo e, no médio prazo, buscar a porta de saída. No entanto, a reorganização da companhia exigirá muitos quilômetros de estrada. Diga-se de passagem, por ora uma estrada mal iluminada – a empresa não divulga balanço desde junho do ano passado. No primeiro semestre de 2025, a empresa teve receita líquida de R$ 311 milhões, queda de 40% em relação a igual período em 2024. Ao menos, a companhia conseguiu amortecer seus prejuízos – as perdas caíram de R$ 240 milhões para R$ 20 milhões no comparativo do mesmo intervalo.
O governo já trabalha com a hipótese de engavetar a proposta de liberação parcial da importação de biodiesel. O motivo é a forte resistência política que se formou em torno do tema, comandada pela Frente Parlamentar da Agricultura. O modelo em estudo preserva 80% da demanda para produtores com o Selo Biocombustível Social, mas libera 20% restantes para importação. A bancada ruralista já ganhou o primeiro round. Ontem, o CNPE (Conselho Nacional de Política Energética) anunciou o adiamento da reunião que estava marcada para amanhã, quando haveria uma deliberação sobre a proposta. No que depender da força do agronegócio, a tal reunião jamais ocorrerá. Nos bastidores, a avaliação é que o Planalto e o Ministério de Minas e Energia preferiram retirar o assunto da mesa a comprar uma briga aberta com o agro. A bancada ruralista sustenta que o país tem oferta doméstica suficiente e que a abertura comercial ameaçaria investimentos, a agricultura familiar vinculada ao Selo Biocombustível Social e a própria cadeia nacional do biodiesel. Em ano de eleição, aí mesmo é que o Palácio do Planalto não está disposto a abrir novas frentes de fricção com o agronegócio.
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