Quando foi que os supermercados ajudaram a controlar preços de alimentos?

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Quando foi que os supermercados ajudaram a controlar preços de alimentos?

  • 24/01/2025
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Na falta de ideias próprias, o governo Lula agora deu para cometer plágios descarados. A ideia de pedir a colaboração dos supermercados para conter o preço dos alimentos é uma imitação de iniciativa similar lançada, em 2022, por Jair Bolsonaro e seu onipotente ministro da Economia, Paulo Guedes. Na ocasião, ambos fizeram um apelo aos empresários do varejo para que eles dessem uma “trégua” e apertassem “os cintos”. Ficaram falando sozinhos.

Desta vez, faltou apenas a aparição do presidente da República para a cópia sair idêntica ao original. Ao contrário de Bolsonaro, Lula não falou publicamente. Ao que tudo indica, o “primeiro-ministro” Rui Costa deu uma de Paulo Guedes e resolveu, por conta própria, “vazar” a ideia de viva-voz, o que gerou mais um mal-estar junto à equipe econômica. Segundo o RR apurou, Fernando Haddad queixou-se diretamente a Lula.

O ministro não escondeu seu incômodo com o que considera mais um ruído desnecessário, uma força centrífuga que acaba por empurrar a discussão para longe das agendas efetivamente vitais para o arranjo da economia. Na conversa com Lula, o próprio Haddad teria pontuado a tentativa semelhante feita por Bolsonaro e Guedes, que resultou em um rotundo fiasco. A reclamação do ministro da Fazenda surtiu efeito.

Horas depois, Costa voltou a público para dizer que o governo não adotará “medida artificial” para baixar o preço dos alimentos. Mas o fogo amigo já havia sido disparado. Sem disfarçar seu descontentamento, Haddad não compareceu à reunião convocada ontem por Costa para discutir o tema. Despachou no seu lugar o secretário de Política Econômica, Guilherme Mello, no 2 da Pasta.

Difícil mensurar o que mais irritou Fernando Haddad: a nova invasão de Rui Costa em seu território ou a levantada de bola em uma ideia fadada ao fracasso devido a sua mais absoluta inoperância. A história mostra que qualquer tentativa de buscar o apoio dos supermercados para controlar a inflação dos alimentos é conversa para boi dormir.

Vide a dobradinha Bolsonaro/Guedes, vide o Plano Cruzado, na era Sarney. Haddad não aceita passar pelo constrangimento de pedir a colaboração de quem nunca colabora. Há mais de 1,3 mil empresas supermercadistas no Brasil. Esse dado cria a percepção de que existe uma grande pulverização não apenas de market share, mas, sobretudo, do poder decisório no setor.

Não passa de um número de prestidigitação, sob medida para iludir a plateia. Na prática, o varejo e consequentemente a distribuição de alimentos estão concentrados em um oligopólio, independentemente de quem sejam os protagonistas do momento. As cinco maiores redes de supermercados do país respondem por 25% das vendas totais do segmento. É um grupo que tem grande ascendência sobre toda a cadeia, com maior capacidade de pressão sobre fornecedores, em uma ponta, e inquestionável influência na formação de preços, na outra.

Como se não bastasse a ausência de colaboração do varejo, a ideia de “controle” de preços, propagada por Rui Costa, esbarra em outros fatores. Como conter os efeitos dos extremos climáticos em um mundo em que eles serão cada vez mais constantes? No ano passado, por exemplo, o El Niño respondeu por 2,25 pontos percentuais da alta na inflação dos alimentos em 2024, conforme informou o Valor Econômico na edição de ontem.

#Economia #Fernando Haddad #Lula

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