A iminente cisão da Raízen desponta como o início do fim da associação entre Cosan e Shell. Na interpretação dos próprios credores, o spin-off em duas novas empresas foi engenhosamente desenhado para cumprir uma dupla função – a segunda ainda guardada a sete chaves. Além de destravar a reorganização financeira do grupo e a conversão das dívidas em participação acionária, a proposta abre caminho para o divórcio societário entre Rubens Ometto e o grupo anglo-holandês. A princípio, tanto a Cosan quanto a Shell deverão permanecer no capital das duas futuras unidades. Mas, em um segundo momento, cada uma seguiria seu próprio caminho. A própria divisão dos ativos da Raízen parece estar sendo feita sob medida para viabilizar esse próximo passo: de um lado, a Raízen Energia ou Agro, que englobará os negócios em etanol, açúcar e bioenergia; do outro, a Raízen Combustíveis, com os braços de distribuição, leia-se 6,8 mil postos, e de lubrificantes. Ou, como alguns credores já dizem nos bastidores, a “Raízen do Ometto” e a “Raízen da Shell”. Nesse contexto, o próximo movimento seria a venda das participações de Ometto no braço de combustíveis e da petroleira na unidade de energia/agrícola. No fundo, é como se o empresário e a Shell estivessem se preparando para voltar ao ponto em que se encontravam 15 anos atrás, quando decidiram combinar seus ativos. Consultada pelo RR, a Cosan não quis comentar o assunto. Já a Shell limitou-se à monotemática resposta que tem repetido para qualquer pergunta que lhe é feita sobre a Raízen: “Como acionista, a Shell apoia a decisão da equipe de gestão da Raízen de entrar com um pedido de recuperação extrajudicial em comum acordo com os credores, visando uma solução negociada e que funcione para todas as partes. Esse processo é uma medida prudente e necessária para envolver ainda mais as partes relevantes nas soluções necessárias para enfrentar os significativos desafios financeiros da Raízen e apoiar sua recuperação. A Shell está propondo injetar R$ 3,5 bilhões como parte de uma solução estrutural. A Shell continuará trabalhando em estreita colaboração com a equipe de liderança da Raízen e credores no intuito de assegurar o futuro de longo prazo do negócio”.
Segundo uma fonte que participa do processo de reestruturação do passivo de R$ 65 bilhões da Raízen, Cosan e, sobretudo, Shell já transparecem suas intenções separatistas. Os executivos do grupo anglo-holandês têm feito críticas recorrentes à coexistência entre as divisões de combustíveis e de energia/agro. Não é de hoje que o downstream – postos Shell, distribuição de combustíveis, aviação, conveniência, bases e logística – tem financiado a produção de açúcar, etanol e bioenergia. O primeiro é um negócio de giro mais previsível, com caixa mais recorrente e menor risco operacional; o segundo, por sua vez, exige Capex pesado e tem sofrido com condições climáticas, oscilações dos preços do açúcar e do álcool e muita volatilidade em suas margens. Mais do que isso: carrega os efeitos colaterais da aposta pesada no etanol de segunda geração, que ainda não entregou o retorno esperado.
Além de questões relacionadas ao business, a separação entre Cosan e Shell seria uma consequência do desgaste entre os dois sócios gerado pelo próprio processo de reestruturação da Raízen. As duras tratativas com os credores deixaram rusgas de parte a parte. A Shell não digeriu a recusa da Cosan de aportar dinheiro novo na joint venture. Por sua vez, Ometto praticamente levou para o pessoal a postura da petroleira de não oferecer resistência à pressão dos credores para a saída do empresário da presidência do Conselho da Raízen. São rusgas de parte a parte que, a partir da cisão da companhia, serão carregadas não apenas para uma, mas para duas novas empresas. Ao que tudo indica, por pouco tempo.