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Cuba 2026: a alma em transe e a espada de Dâmocles
6/04/2026Homenagem: Dedico este artigo ao povo cubano, alma vibrante, que, em 2026, resiste ao que o jargão popular descreveria como o “pó da gaita” – uma fragilidade extrema que, contudo, não apaga a dignidade de sua essência. Escrevo sob o influxo das lembranças de minhas diversas idas à Ilha no final dos anos 80, no início dos anos 90 e em outras esparsas vezes. Naquele tempo, jovem e movida por idealismo, encontrei em Cuba um território de observação política e um universo humano que redesenhou meu entendimento da realidade, das estruturas de poder e da distância, muitas vezes abissal, entre discurso e vida concreta.
Minha gratidão volta-se a Alberto, Andrés, Dr. Huegas, Jorge, Augusto, Manuela e Gloria. Em nome deles, presto meu apreço a todos os que comigo conviveram e àqueles com quem mantenho contato até os dias atuais. Foram essas pessoas, com suas histórias, conhecimentos, perplexidades, esperanças e dores, que me ofereceram informações, impressões e dados imprescindíveis para a elaboração deste artigo e, especialmente, ensinaram a mim que a essência de Cuba não está nos “slogans”, mas em sua gente.
Introdução
Em abril de 2026, Cuba enfrenta uma convergência crítica: colapso econômico, exaustão institucional, crise energética, fadiga social e pressão geopolítica. Como observado perlo jornalista Luiz Cesar Faro, a Ilha transita de um “museu castrista” para uma possível dependência externa, sob urgência histórica.
A análise requer exame objetivo de sua riqueza cultural contrastada com escassez material, cerceamento político e perda de autossustentação.
A soberania remanescente opera mais como conceito jurídico do que capacidade prática, com o risco de erosão irreversível de identidade e estabilidade social.
Paraíso escondido: beleza natural e urbana de Cuba
Cuba preserva patrimônio natural e urbano notável, apesar dos desafios. Praias como Guardalavaca (Holguín), Cayo Coco, Cayo Guillermo e Cayo Largo oferecem águas translúcidas e recifes de coral, com Playa Paraíso e Playa Sirena destacadas em “rankings” internacionais. Cidades como Trinidad, Camagüey e Cienfuegos, Patrimônios da Unesco, exibem arquitetura colonial espanhola e neoclássica preservada. Santiago de Cuba integra herança musical afro-caribenha, e o Valle de Viñales destaca mogotes e plantações de tabaco. Esses ativos, submetidos a desgaste e carências, representam potencial turístico subutilizado em meio à estagnação.
Havana Velha: decadência e patrimônio histórico
Declarada Patrimônio da Unesco em 1982, Havana Velha exemplifica tensão entre deterioração urbana e valor histórico. Edifícios coloniais degradados abrigam condições precárias, com fachadas desbotadas e estruturas enfraquecidas. Automóveis americanos dos anos 1950 circulam como relíquias funcionais, sinalizando engenhosidade e estagnação econômica. A arquitetura corroída preserva narrativas seculares, configurando um retrato de grandeza em declínio.
Alma cubana: resiliência cultural e social
A população cubana demonstra adaptação a décadas de escassez, com vitalidade cotidiana ancorada em música (son, salsa, bolero, rumba), culinária (“ropa vieja”, “morros y cristianos” e “lechón asado”) e hospitalidade, especialmente com brasileiros.
A educação básica, reconhecida por organismos multilaterais como Unesco pela alfabetização, contrasta com limitações materiais. Nas ruas, veem-se crianças e jovens com notável desenvoltura verbal, familiaridade com mais de um idioma e aguda percepção do mundo que os cerca.
O tabaco de Pinar del Río sustenta prestígio exportador. Essa dinâmica resiste a narrativas extremas, equilibrando conquistas históricas e fragilidades atuais.
O crepúsculo de um modelo e a marcha para a ruptura
O conflito no Oriente Médio, ao deslocar o centro da atenção internacional, ofereceu a Cuba apenas um adiamento tático de seu desfecho mais provável. Como sugerido por Luiz Cesar Faro, esse deslocamento funcionou menos como alívio do que como prorrogação dramática: a Ilha saiu do foco sem sair do risco.
Cuba continuou a perder relevância estratégica positiva e a acumular vulnerabilidade negativa. Em vez de se reposicionar, permaneceu presa a um modelo incapaz de gerar produtividade, divisas suficientes, segurança energética e confiança institucional.
A percepção dominante em centros de formulação geopolítica é a de que a estrutura estatal cubana se aproxima de um ponto de saturação. Não se trata necessariamente de um colapso instantâneo, mas de uma erosão acelerada da governabilidade. A Ilha, comprimida entre crise interna e pressão externa, passou a ser lida não como parceiro potencial, mas como problema a ser administrado.
Nesse contexto, a hipótese de tutela, protetorado informal ou integração assimétrica a uma esfera de comando norte-americana deixou de ser especulação extravagante e passou a compor, ainda que de modo controverso, o horizonte das possibilidades políticas. Em registro próximo ao de Luiz Cesar Faro, essa passagem de Cuba de “museu castrista” a eventual protetorado não significaria mera alternância de comando, mas uma dolorosa mutação de natureza histórica, institucional e simbólica.
A intervenção aberta continua juridicamente problemática e politicamente sensível. Ainda assim, a realidade mostra que há múltiplas formas de intervenção: econômica, diplomática, tecnológica, informacional e, em último caso, militar. Cuba já vive, em grande medida, sob a pressão acumulada dessas formas indiretas de condicionamento.
Os protetorados contemporâneos nem sempre se anunciam como tal. Por vezes chegam sem bandeira, sem decreto e sem ocupação formal; instalam-se por meio da dependência energética, da asfixia financeira, da mediação securitária e da captura progressiva das decisões estratégicas.
Tempestades econômica e energética
A economia cubana em 2026 apresenta sinais consistentes de esgotamento estrutural.
Os dados de organismos multilaterais e centros independentes apontam retração do PIB, inflação severa, desabastecimento, erosão do poder de compra, queda do turismo e aumento da informalidade. A escassez de alimentos, medicamentos, combustíveis e insumos básicos deixa de ser fenômeno episódico para se transformar em regime cotidiano.
A crise energética agravou dramaticamente esse quadro. A interrupção do fornecimento venezuelano, em um contexto de elevada dependência do petróleo importado, expôs a fragilidade da matriz cubana.
O apagão massivo de 4 de março de 2026 foi um evento técnico e um marco político. Ele revelou, de modo quase brutal, o grau de vulnerabilidade sistêmica de um Estado cuja infraestrutura já não consegue garantir continuidade mínima de serviços essenciais.
Sem energia confiável, não há logística estável, não há atividade industrial minimamente contínua, não há refrigeração adequada de alimentos e medicamentos, não há previsibilidade para o cotidiano urbano. O apagão e sua continuidade deixou de ser apenas símbolo de decadência e tornou-se vetor de aceleração da crise social.
Quando falta energia, falta muito mais do que eletricidade: falta previsibilidade, autoridade funcional do Estado e confiança mínima na continuidade da vida civil. Em sociedades exauridas, a escuridão prolongada é, claro, material, mas corrói também o pacto psicológico entre governo e governados.
Quadro 1 – Contração do PIB cubano (2019-2025)
| Ano | Crescimento do PIB (%) |
| 2019 | -0,2 |
| 2020 | -10,9 |
| 2021 | 1,3 |
| 2022 | 1,8 |
| 2023 | -1,0 |
| 2024(estimativa) | -3,5 |
| 2025(estimativa) | -5,0 |
Fontes: Elaboração da autora com base em Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD), comumente referido pela sigla BIRD (IBRD em inglês) ou apenas como Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional (FMI) e “Economist Intelligence Unit”.
Quadro 2 – Dependência petrolífera de Cuba por origem estimada de importação (2025)
| Fonte de importação de petróleo | Percentual estimado |
| Venezuela | 60% |
| Rússia | 20% |
| Outros | 20% |
Fontes: Elaboração da autora com base em “International Energy Agency” e “S&P Global”.
Doutrina Trump: máxima pressão e desejo americano para Cuba
A política de máxima pressão imposta pela administração Trump contra Cuba, com o apoio ostensivo de figuras como Marco Rubio, tornou-se um dos vetores mais agressivos da crise contemporânea da Ilha.
As sanções foram reforçadas, e a permanência de Cuba na lista norte-americana de Estados patrocinadores do terrorismo ampliou os custos de transação, restringiu o acesso a crédito, elevou o risco-país e agravou o isolamento econômico.
A retórica de Rubio, frequentemente assentada na ideia de “libertar Cuba do comunismo”, exprime uma linha dura que não trabalha com concessões graduais, mas com a lógica da asfixia como instrumento de mudança política.
Estudos de think tanks e análises de imprensa internacional têm mostrado que a pressão norte-americana não se limita ao campo diplomático: ela busca acelerar o desgaste interno, inviabilizar a normalização econômica e empurrar o regime para um ponto de ruptura.
Ao mesmo tempo, o projeto implícito nessa política é claro. Washington imagina uma Cuba reordenada como economia de mercado, aberta a investimentos estrangeiros, especialmente em turismo, infraestrutura, logística e serviços, e orientada por uma gramática liberal de consumo, propriedade e circulação de capitais.
Na visão de Luiz Cesar Faro, esse projeto norte-americano para Cuba não se limita à simples abertura econômica, mas sugere uma refundação de Cuba sob novos parâmetros de subordinação, agora embalados pela linguagem da eficiência, do investimento e do consumo.
Entretanto, a memória histórica cubana impõe cautela.
A promessa de abertura encontra o fantasma da era Batista, associada à desigualdade aguda, à corrupção sistêmica e à forte influência de interesses mafiosos e estrangeiros. Como sugerido por Luiz Cesar Faro, a população cubana vive hoje uma tensão moral e material profunda entre o cansaço da pobreza e a recusa de regressar ao “prostíbulo” político e social de Fulgêncio Batista.
Também aqui emerge um dilema particularmente cruel: a fome pode enfraquecer convicções, mas não apaga automaticamente a memória dos regimes degradantes. Entre o “hambúrguer” e a dignidade ou o consumo e a soberania, não há escolha simples; há apenas formas distintas de dependência.
Por isso, a eventual americanização da economia cubana aparece como esperança para alguns e como ameaça para outros.
Os riscos incluem a perda de conquistas sociais remanescentes, a gentrificação de áreas históricas, a exploração de trabalho barato e a constituição de uma nova elite econômica divorciada das necessidades da maioria.
A intervenção, portanto, não se projeta apenas como gesto geopolítico. Ela se apresenta, no imaginário norte-americano mais duro, como uma refundação econômica da Ilha sob novos parâmetros de subordinação e eficiência.
Resposta do regime: intransigência e legado dos Castro
Diante da crescente pressão externa e da deterioração interna, a nomenclatura cubana, liderada por Miguel Díaz-Canel, tem demonstrado notável intransigência.
Com efeito, a retórica do regime continua orientada pela tentativa de projetar coesão e resistência, mesmo quando a realidade material de Cuba sugere esgotamento. A aproximação discursiva com aliados ideológicos distantes e a persistência em um vocabulário de confronto funcionam, em grande medida, como mecanismo de preservação simbólica do poder.
A morte de Fidel Castro, em 2016, não produziu o colapso imediato do regime, mas marcou o início inequívoco de uma transição de autoridade.
Em 2026, o centenário de seu nascimento paira como lembrança incômoda de uma figura que, para os mais velhos, ainda representa soberania, justiça social e resistência ao imperialismo, enquanto para muitos jovens se associa à estagnação econômica, ao cerceamento político e ao fechamento de horizontes. Essa duplicidade é central para compreender a psique coletiva cubana contemporânea.
Raúl Castro, por sua vez, permanece como a última dobradiça viva entre o presente exaurido e a legitimidade originária de 1959. Para usar a imagem proposta por Luiz Cesar Faro, essas dobradiças que ainda sustentam fragilmente o regime – os comandos e o sobrenome Castro – representam a estrutura mínima que impede, por ora, a queda completa do edifício político.
No entanto, sua idade avançada e sua fragilidade física ampliam a percepção de que o regime já não conta com uma sucessão dotada da mesma densidade simbólica.
A persistência do sobrenome Castro nos pavilhões e nas representações oficiais não altera o fato de que a força política real associada a esse legado se reduziu drasticamente.
Também o legado de Che Guevara se tornou paradoxal. A imagem do revolucionário sobrevive multiplicada em camisetas, pôsteres e “souvenirs”, muitas vezes dissociada de sua trajetória histórica e convertida em ícone “pop” global. Para grande parte da juventude, Che já não opera como chamado revolucionário, mas como símbolo vago de identidade cultural, esvaziado de seu conteúdo político originário.
A posteridade dos ícones é, por vezes, impiedosa: conserva o rosto, mas dissolve a doutrina; preserva a estampa, mas neutraliza a convocação histórica.
Quadro 3 – Aspirações da juventude cubana
| Aspiração ou preocupação | Percentual de jovens (%) |
| Emigrar para o exterior | 75 |
| Melhorar condições econômicas | 88 |
| Acesso à internet e tecnologia | 92 |
| Liberdade de expressão | 65 |
| Oportunidades de emprego | 80 |
| Abertura política | 55 |
Fontes: Elaboração da autora com base em “Observatorio Cubano de Derechos Humanos” e “Americas Quarterly”.
Eco das ruas: manifestações pró e contra o regime
A crise cubana não se limita às cúpulas do poder. Ela também ecoa nas ruas, em protestos, filas, apagões, murmúrios e atos de exaustão coletiva. Desde 2024, Cuba passou a registrar manifestações esporádicas, porém crescentes, motivadas pela escassez, pela crise energética e pela falta de liberdades públicas.
Relatórios do “Observatorio Cubano de Derechos Humanos” indicaram dezenas de protestos apenas nos primeiros meses de 2026, revelando um aumento palpável da insatisfação social. Em muitos casos, essas manifestações foram reprimidas ou contidas por forças de segurança, o que reforça a percepção de que o Estado já não governa apenas pela persuasão ideológica, mas crescentemente pela contenção.
Em contrapartida, o regime organizou atos de apoio, mobilizações e passeatas de afirmação simbólica, frequentemente difundidos pelos canais oficiais. Tais manifestações pró-governo pretendem demonstrar que a revolução ainda mobiliza respaldo popular e coesão institucional.
Todavia, o peso de funcionários públicos, estruturas partidárias e obrigações indiretas nesses atos suscita dúvidas sobre sua espontaneidade real.
Entre a exaustão das ruas e o teatro da coesão oficial, Cuba revela uma sociedade fraturada, na qual a rua deixou de ser mero cenário e voltou a ser linguagem política.
GAESA: poder militar e economia de transição
O Grupo de “Administración Empresarial del Estado”, o GAESA, constitui uma das chaves mais sensíveis para compreender qualquer cenário de transição cubana.
Mais do que um conglomerado militar, ele é uma estrutura concentrada de poder econômico, com presença em setores centrais como turismo, hotelaria, portos, telecomunicações, comércio varejista, logística e operações estratégicas de importação e exportação. Sua relevância decorre do volume de ativos e do fato de articular poder militar, poder administrativo e controle econômico sob uma mesma arquitetura opaca.
Do ponto de vista jurídico, o GAESA ocupa uma zona ambígua. Formalmente empresarial, substancialmente estatal e politicamente militarizado, não se submete a padrões usuais de transparência, auditoria pública ou “accountability” compatíveis com economias abertas. Essa natureza híbrida faz dele, simultaneamente, peça de sustentação do regime e variável incontornável de qualquer recomposição futura.
Em uma transição, o GAESA poderá seguir caminhos diversos: converter-se em instrumento de resistência, funcionando como base material para a continuidade de estruturas militares e de comando ou ser utilizado como moeda de negociação, caso uma fração do “establishment” cubano conclua que a preservação de alguma influência vale mais do que a defesa integral do “status quo”.
Em um cenário de reordenação institucional, seus ativos poderão ser submetidos à gestão fiduciária internacional, reestruturados sob nova legitimidade estatal ou parcialmente privatizados, desde que haja arcabouço normativo capaz de evitar mera transferência patrimonial oportunista.
Quem desejar compreender o destino de Cuba deverá olhar menos para os “slogans” oficiais e mais para a cartografia real do poder. E essa cartografia passa, inevitavelmente, pelas engrenagens econômicas e militares do GAESA.
Rugido dos leões: militares cubanos e baixas inevitáveis
O papel dos generais cubanos é essencial para a sustentação do regime, e sua resistência a uma intervenção americana tende a ser tratada como dado plausível, não como hipótese remota.
Diferentemente de outros contextos latino-americanos em que houve maior porosidade entre elites civis e militares, os comandos cubanos permanecem profundamente enraizados na estrutura de poder e na ideologia revolucionária.
Embora disponham de recursos limitados quando comparados a grandes potências, décadas de doutrinação e o controle sobre setores estratégicos da economia – em especial por meio do GAESA – conferem às Forças Armadas Revolucionárias densidade política e capacidade de resistência superiores ao que uma leitura puramente quantitativa sugeriria.
Analistas de centros como o “Center for Strategic and International Studies” (CSIS) e a “Americas Quarterly” têm destacado que, em caso de enfrentamento, os militares cubanos tenderiam a resistir com forte senso de missão histórica.
A lealdade das Forças Armadas Revolucionárias ao Partido Comunista permanece um dos pilares do sistema. Qualquer tentativa de desmantelar abruptamente essa engrenagem poderá produzir reações violentas, fragmentação do comando e risco de prolongamento do conflito.
Em um cenário de intervenção direta, o desequilíbrio militar entre Cuba e os Estados Unidos da América é absoluto.
O orçamento de defesa americano, sua superioridade aérea, sua capacidade naval e sua tecnologia de precisão tornam improvável qualquer equivalência operacional. Ainda assim, a assimetria militar não elimina o custo humano. Pelo contrário: ela o desloca para o lado mais vulnerável.
Na imagem expressiva de Luiz Cesar Faro, os generais da Ilha podem ter bem menos recursos de defesa do que os norte-americanos, mas “cairiam atirando” – e essa resistência, ainda que militarmente condenada, produziria baixas humanas inevitáveis e prolongaria o sofrimento da população civil.
Mais preocupante ainda é o destino dos civis.
A densidade populacional cubana, sobretudo em áreas urbanas como Havana, e a eventual adoção de táticas de resistência urbana colocariam a população no centro do fogo cruzado.
Organismos humanitários internacionais já alertaram para a fragilidade da capacidade de resposta da infraestrutura cubana diante de uma crise armada prolongada.
Quando a superioridade militar de um lado é absoluta, o heroísmo do outro não altera o desfecho estratégico; altera apenas a escala da dor.
Quadro 4 – Comparativo militar entre Cuba e Estados Unidos (estimativas de 2026)
| Categoria | Cuba | Estados Unidos |
| Pessoal ativo | 49.000 | 1.300.000 |
| Pessoal na reserva | 39.000 | 800.000 |
| Orçamento de defesa | US$ 1,5 bilhão | US$ 820 bilhões |
| Força aérea (total de aeronaves) | 100 | 13.300 |
| Força naval (total de ativos) | 20 | 480 |
Fontes: Elaboração da autora com base em “Global Firepower” e CSIS.
Destino dos defensores do regime: entre a anistia e a responsabilização
O que poderá ocorrer com militares, dirigentes e defensores do atual governo constitui uma das questões mais sensíveis em qualquer cenário pós-intervenção ou pós-ruptura.
A retórica da ala mais dura da política norte-americana sugere que uma anistia ampla seria improvável.
A ideia predominante é a de responsabilização por violações de direitos humanos, corrupção estrutural e sustentação de um sistema repressivo.
Para os líderes civis e militares de maior escalão, não se pode excluir a possibilidade de prisão, extradição ou submissão a mecanismos penais internacionais ou híbridos, ainda que as bases jurídicas concretas variem conforme o cenário político da transição.
A hipótese de refúgio em países politicamente alinhados também é plausível, embora cercada de incertezas e pressões diplomáticas.
Já para quadros intermediários e inferiores, o problema será outro: como evitar que a desmontagem das estruturas de segurança e administração produza um vácuo de poder semelhante ao observado em outros processos abruptos de desinstitucionalização?
O precedente da “desbaathificação” no Iraque é frequentemente lembrado como advertência eloquente: a eliminação total e imediata das engrenagens do antigo regime pode gerar desemprego massivo, insurgência e caos prolongado.
Por isso, um modelo de depuração seletiva, verificação de antecedentes e reintegração condicionada de agentes sem histórico comprovado de abusos talvez seja juridicamente mais prudente e politicamente mais eficaz do que uma lógica de punição indiscriminada. Também aqui a tensão entre justiça e estabilidade será inevitável.
É precisamente nessa fronteira que voltam a ganhar relevo as ideias de comissões de verdade, programas de reconciliação e fórmulas híbridas de justiça transicional.
Embora uma linha dura de responsabilização continue mais provável na retórica externa, uma reconstrução minimamente sustentável talvez exija soluções menos espetaculares e mais institucionalmente inteligentes.
Possível integração econômica de Cuba às estruturas norte-americanas ou internacionais
Se o colapso do regime abrir caminho para uma reordenação orientada por Washington, a integração econômica de Cuba às estruturas norte-americanas ou internacionais dificilmente ocorreria de modo imediato ou pleno. O processo seria gradual, seletivo e condicionado.
Ainda assim, alguns eixos são previsíveis.
O primeiro seria a harmonização regulatória. Cuba teria de revisar profundamente suas normas sobre propriedade, contratos, investimento estrangeiro, sociedades empresárias, trabalho, concorrência, telecomunicações, infraestrutura, tributação e solução de disputas. Um ambiente compatível com capital norte-americano ou internacional exigiria previsibilidade institucional, proteção de propriedade, regras claras de repatriação de lucros, mecanismos arbitrais confiáveis e redução drástica da discricionariedade estatal hoje concentrada em estruturas políticas e militares.
O segundo eixo seria a integração comercial. Ainda que uma adesão imediata ao USMCA (“United States-Mexico-Canada Agreement”, tratado de livre comércio entre Estados Unidos, México e Canadá, de 2020, em substituição ao NAFTA – “North American Free Trade Agreement” – Acordo de Livre-Comércio da América do Norte -, de 1994) pareça improvável, não é impossível imaginar uma trajetória de aproximação progressiva.
Antes de qualquer incorporação formal a uma área comercial mais ampla, Cuba precisaria cumprir requisitos severos de abertura econômica, segurança jurídica, adaptação aduaneira, padronização sanitária, proteção de investimentos e conformidade regulatória. Em tese, Washington poderia patrocinar um regime especial de transição, com preferências tarifárias graduais e acesso condicionado a determinados mercados, desde que a Ilha avançasse em reformas estruturais.
O terceiro eixo seria a reorganização monetária e institucional da vida econômica. Uma eventual integração assimétrica à órbita americana pressionaria por maior dolarização prática, reconfiguração bancária, redefinição cambial, interoperabilidade tecnológica de pagamentos e incorporação de padrões contábeis e de conformidade mais próximos do ambiente regulatório norte-americano. Esse processo, embora tecnicamente possível, produziria forte impacto social.
O quarto eixo seria a transformação da base produtiva. Cuba poderia ser atraída para cadeias norte-americanas e internacionais de turismo, logística portuária, agronegócio, telecomunicações, infraestrutura, energia e serviços. Em termos geoeconômicos, a Ilha possui localização extraordinária, mão-de-obra relativamente qualificada e patrimônio natural e urbano com elevado potencial de captura de valor.
Ao mesmo tempo, esse potencial carrega risco. Sem governança pública séria, o país poderia ser convertido em território de exploração intensiva, com baixa agregação local de valor e perda acelerada de autonomia econômica, como o passado já demonstrou.
Há aqui uma ironia histórica de rara crueldade: Cuba, que durante décadas apresentou-se como bastião de resistência ao capitalismo, poderia reaparecer ao mundo como vitrine tropical de um capitalismo de enclave, vocacionado mais ao entretenimento externo do que à dignidade interna.
Quadro 5 – Posicionamento internacional sobre Cuba (março de 2026)
| Ator internacional | Posicionamento | Nível de apoio ou oposição |
| Estados Unidos | Oposição ferrenha | Alta oposição |
| Rússia | Apoio retórico e limitado | Baixo apoio |
| China | Interesses comerciais e neutralidade pragmática | Neutro |
| União Europeia | Preocupação humanitária e diálogo | Neutro/baixo apoio |
| América Latina | Posição dividida e variável | Variável |
Fontes: Elaboração da autora com base em “Chatham House”, “Council on Foreign Relations” e “Al Jazeera”.
Quadro 6 – Eixos da integração econômica de Cuba às estruturas norte-americanas
| Eixo | Conteúdo principal | Riscos centrais |
| Harmonização regulatória | Revisão de normas sobre propriedade, contratos, investimento, trabalho, concorrência e arbitragem | Assimetria normativa e perda de autonomia regulatória |
| Integração comercial | Aproximação progressiva com o mercado americano e possível rota futura ao USMCA | Dependência comercial excessiva e exclusão de setores frágeis |
| Reorganização monetária | Dolarização prática, reconfiguração cambial e adaptação institucional | Pressão inflacionária, exclusão social e perda de margem soberana |
| Transformação produtiva | Inserção em cadeias de turismo, logística, energia, telecomunicações e serviços | Desnacionalização patrimonial e baixa agregação local de valor |
Fonte: Elaboração da autora com base em “Carnegie Endowment For International Peace” (2026) e “Atlantic Council” (2025).
Justiça de transição, restituição patrimonial e arbitragem internacional
Qualquer mutação profunda do regime cubano fará emergir, de modo inevitável, a questão da justiça de transição.
Não se trata apenas de encarar violações de direitos humanos, restrições severas à liberdade política, perseguições, prisões, censura e a responsabilidade por abusos pretéritos; trata-se, sobretudo, de impedir que tais feridas sejam soterradas por uma paz aparente, sempre frágil quando construída sobre o silêncio. Mas também é preciso reconhecer que a pura vocação punitiva, se levada ao extremo, pode comprometer a delicada arquitetura de estabilidade que se espera do tempo posterior à ruptura.
Nesse território incerto, será inevitável escolher entre modelos distintos de elaboração do passado: tribunais especiais, jurisdição internacional, comissões de verdade e reconciliação, anistias condicionadas, fórmulas híbridas de responsabilização e memória.
A experiência comparada sugere que a alternativa entre justiça retributiva e justiça restaurativa não é um detalhe técnico; é uma decisão de fundo, capaz de moldar o horizonte moral e político de sociedades em reconstrução.
A isso se soma a questão patrimonial, talvez uma das mais sensíveis e litigiosas.
As propriedades confiscadas ao longo das décadas – especialmente aquelas pertencentes a cubanos que emigraram e aos seus descendentes – poderão desencadear vastas disputas de restituição ou compensação.
O direito internacional oferece princípios de proteção patrimonial, mas a tradução desses princípios em solução concreta raramente é simples. Haverá de se lidar com prova documental, reconstituição histórica de valores, definição de critérios de compensação e criação de engrenagens institucionais aptas a evitar que a reconstrução de Cuba se converta em uma arena de choque entre exilados, investidores e novos administradores.
É nesse ponto que a arbitragem internacional pode assumir papel decisivo.
Em um cenário de transição, Cuba poderá ser compelida a resolver litígios patrimoniais por diferentes vias arbitrais, segundo a natureza da controvérsia e a qualidade jurídica das partes envolvidas.
Se o conflito opuser investidores estrangeiros ao novo Estado cubano, a via mais provável será a arbitragem de investimento, sob as regras do ICSID (“International Centre for Settlement of Investment Disputes” – Centro Internacional para Resolução de Disputas sobre Investimentos -, instituição do Grupo Banco Mundial dedicada à arbitragem e à conciliação entre investidores estrangeiros e Estados, criada em 1965), quando houver tratado bilateral de investimentos aplicável, ou sob as regras da UNCITRAL (Comissão das Nações Unidas para o Direito Comercial Internacional – principal órgão jurídico da ONU para o comércio internacional, criado em 1966), quando o consentimento arbitral decorrer de cláusulas contratuais ou de atos normativos próprios do período de transição.
Se a controvérsia for estritamente contratual, envolvendo empresas privadas, concessionárias, operadores de infraestrutura e grupos turísticos, portuários ou imobiliários, poderão ser acionados centros arbitrais internacionais como a ICC (“International Chamber of Commerce” – Câmara de Comércio Internacional, entidade privada e independente), a LCIA (“London Court of International Arbitration” – Tribunal de Arbitragem Internacional de Londres), a ICDR (“International Centre for Dispute Resolution” – Centro Internacional para Resolução de Disputas, divisão internacional da “American Arbitration Association” – AAA) ou outras câmaras livremente eleitas pelas partes.
A arbitragem oferece, nesse quadro, vantagens evidentes: neutralidade do foro, especialização técnica dos árbitros, maior previsibilidade decisória, executividade internacional das sentenças arbitrais à luz da Convenção de Nova York de 1958 e aptidão superior para a solução de litígios complexos, de elevada densidade econômica e documental.
No caso cubano, tais atributos ganham relevo singular, porque a reconstrução da confiança institucional dependerá menos de promessas políticas do que da credibilidade dos mecanismos de solução de controvérsias.
Ainda assim, a arbitragem não dissipará os dilemas essenciais.
Um dos mais graves será a definição da base jurídica das antigas expropriações e confiscos.
Muitos pedidos de restituição envolverão a mensuração do valor do bem e a reconstrução histórica da cadeia dominial, a apreciação da legalidade dos atos revolucionários, a sucessão das titularidades, o cálculo das compensações em diferentes moedas e a eventual colisão entre justiça histórica e estabilidade social.
É plausível, portanto, que se venha a conceber um sistema misto: arbitragem para disputas empresariais e de investimento; comissões especiais ou câmaras de compensação para reivindicações massificadas de antigos proprietários; e, talvez, fundos de indenização com critérios padronizados, aptos a evitar um congestionamento judicial ou arbitral de proporções insustentáveis.
Cumprirá ainda definir, com precisão, a relação entre as decisões arbitrais e a ordem pública do novo Estado cubano.
Países em reconstrução institucional costumam preservar alguma margem soberana justamente para impedir que a arbitragem se converta em instrumento de captura patrimonial por atores estruturalmente mais fortes. Por isso, o desenho normativo cubano, se e quando vier a ser reformado, terá de buscar um equilíbrio difícil e indispensável: de um lado, atratividade ao investimento; de outro, preservação mínima da autodeterminação econômica e social.
Quadro 7 – Possíveis mecanismos de solução de disputas patrimoniais em Cuba
| Mecanismo | Âmbito de aplicação | Vantagens | Limitações |
| Arbitragem ICSID | Disputas entre Estado e investidor estrangeiro com base em tratado ou consentimento válido | Especialização, reconhecimento internacional e foco em investimento | Depende de base jurisdicional adequada e pode gerar elevada pressão indenizatória |
| Arbitragem UNCITRAL | Litígios de investimento ou contratuais com cláusula arbitral compatível | Flexibilidade procedimental e ampla aceitação internacional | Maior heterogeneidade procedimental e custos elevados |
| Arbitragem ICC/LCIA/ICDR | Conflitos empresariais, comerciais, turísticos, logísticos e de infraestrutura | Neutralidade, tecnicidade e executividade internacional | Menor aptidão para litígios massivos de restituição histórica |
| Câmaras de compensação patrimonial | Reivindicações em massa de antigos proprietários e sucessores | Padronização de critérios e maior capacidade de escala | Risco de contestação política e necessidade de forte base legal |
| Comissões de verdade com eixo reparatório | Casos com forte componente histórico, político e humano | Integra memória, reparação e reconciliação | Menor força executiva para conflitos patrimoniais complexos |
Fontes: Elaboração da autora com base em UNCITRAL (2026), Convenção de Nova York (1958) e ICRC (2023).
Quadro 8 – Cenários futuros para Cuba
| Cenário | Descrição | Consequências principais |
| Anexação ou protetorado americano | Controle político e econômico sob forte tutela de Washington | Perda de soberania, influxo de capital, resistência inicial e mudança de regime |
| Transição negociada | Acordo entre forças internas e atores externos para reformas graduais | Abertura controlada, estabilidade relativa e manutenção parcial de estruturas estatais |
| Colapso humanitário | Agravamento da crise econômica e social com migração em massa | Crise humanitária, instabilidade regional e pressão internacional |
| Resistência militar prolongada | Forças armadas e estruturas associadas mantêm enfrentamento ativo | Conflito armado, alto custo humano e incerteza prolongada |
Fonte: Elaboração da autora com base em “Carnegie Endowment For International Peace” (2026) e CSIS (2025).
Conclusão
Cuba vive o fim de um ciclo.
O que se dissolve, diante dos olhos do mundo, é um regime político e um sistema de sentidos, de promessas e de formas de pertencimento que, durante décadas, estruturou a vida de uma sociedade inteira.
O chamado “museu castrista” aproxima-se de seu momento terminal, pressionado por colapso material, exaustão ideológica e redesenho geopolítico. E seria um erro imaginar que o que vem depois será simples redenção.
A promessa de liberdade, abertura e prosperidade poderá trazer consigo tutela, desigualdade, perda de identidade, mercantilização agressiva da Ilha e novas formas de dependência.
Cuba poderá sair de um cativeiro histórico para ingressar em outro, mais sofisticado e talvez mais sedutor.
O risco não é apenas o fim do regime; é a conversão de Cuba em mercadoria geopolítica, em plataforma de negócios, em vitrine exótica de uma normalização que talvez lhe exija, como preço, a amputação de sua memória social.
A grande questão, portanto, não é se o regime cairá, mas sob que forma o país renascerá.
O desafio mais alto será impedir que a reconstrução econômica ocorra ao preço da amputação moral de sua memória, de sua cultura e de sua gente.
Minhas diversas viagens à Ilha ensinaram-me isto: Cuba jamais foi apenas um problema ideológico. Cuba é, antes de tudo, um povo. E é por esse povo, em sua grandeza ferida, que toda análise séria deve começar e terminar.
Fontes consultadas
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Rita Maria Scarponi (rscarponi@scarponiadv.com.br) – Advogada especializada em direito societário e administrativo, regulação, mercados financeiro e de capitais e meio ambiente. Ex-membro titular e vice-presidente do Conselho de Recursos do Sistema Financeiro Nacional (CRSFN). Dedicada a estudos nas interfaces entre Direito Internacional, Filosofia Jurídica e Direitos Humanos.
Procura-se uma “terceira via societária” na Raízen
6/04/2026Entre as tantas peças que faltam no quebra-cabeças da Raízen, há uma em especial que mobiliza Cosan e Shell: a busca de um novo investidor que aporte recursos na companhia e se junte à dupla, como uma espécie de terceira âncora societária da encalacrada joint venture. No mercado, circulam, à boca miúda, informações de que a empresa de Rubens Ometto e a multinacional têm mantido conversas com fundos de investimento e com tradings de energia em torno da possível entrada no capital da Raízen. Um dos possíveis candidatos é a uma gestora norte-americana especializada em distressed assets e já com negócios similares no Brasil. Essa “terceira via societária” teria um múltiplo papel na complexa reestruturação da companhia, praticamente soterrada por uma dívida de R$ 65 bilhões. Em primeiro lugar, reduziria o volume de recursos que Cosan e Shell terão de aportar na empresa. Além disso, esse novo investidor funcionaria como uma espécie de fiador da renegociação do passivo da Raízen junto aos credores. Na semana passada, Cosan e Shell apresentaram aos bancos a proposta de conversão de até 45% das dívidas, algo como R$ 29 bilhões, em participação acionária. O que se ouve nos bastidores é que a primeira reação das instituições financeiras não foi das mais animadoras. Os bancos impõem rígidas condicionalidades para aceitar a transformação de quase metade dos créditos que têm a receber em ações da Raízen. A exigência primaz, já sobre a mesa, é justamente que Cosan e Shell façam uma injeção de capital na companhia.
Na prática, ao tentar atrair um novo investidor, Cosan e Raízen buscam alguém para ocupar um espaço até então feito sob medida para o BTG. O banco, que já é sócio indireto da Raízen, por meio da Cosan, participou intensamente das primeiras rodadas de negociações para o aporte de capital na companhia. O banco injetaria algo como R$ 5 bilhões. A costura, que chegou a ser levada ao Palácio do Planalto, envolvia a cisão da Raízen em duas empresas – de um lado, as usinas sucroalcooleiras; do outro, a distribuição de combustíveis. Consta, no entanto, que a Shell se opôs a condições apresentadas pela instituição financeira. Fontes próximas à Raízen apostam que o BTG não desistiu do negócio. Ao seu estilo, estaria apenas à espreita, esperando a hora certa para um novo bote. O banco garante que não. Em contato com o RR, o BTG informou, por meio de sua assessoria, que não vai participar da capitalização da Raízen. Também consultada, a Shell disse que “apoia a decisão da equipe de gestão da Raízen de entrar com um pedido de recuperação extrajudicial. Esse processo é uma medida prudente e necessária para envolver ainda mais as partes relevantes nas soluções necessárias para enfrentar os significativos desafios financeiros da Raízen e apoiar sua recuperação”. A Shell informou ao RR que “está propondo injetar R$ 3,5 bilhões como parte de uma solução estrutural”. E que “continuará trabalhando em estreita colaboração com a equipe de liderança da Raízen enquanto busca assegurar o futuro de longo prazo do negócio”. Perguntada especificamente sobre as tratativas para a entrada de um novo investidor no bloco de controle, a companhia não se manifestou. A Cosan, por sua vez, não quis comentar o assunto.
Empresa de transmissão da Brookfield põe mais um ativo sobre o balcão
6/04/2026O processo de desmobilização de ativos da Quantum, o braço de transmissão da Brookfield no Brasil, avança mais uma casa. A empresa busca um comprador para a Pampa Transmissão de Energia, uma de suas subsidiárias. A empresa reúne três linhas e uma subestação, somando cerca de 316 quilômetros de extensão, com concessão válida até 2049. No mercado, a colombiana ISA e a Argo Energia, joint venture entre o Grupo Energía Bogotá (GEB) e a Red Eléctrica de España, são apontadas como candidatas ao negócio. Esta última já comprou um pacote de 2,4 mil quilômetros em linhas transmissoras junto à própria Quantum, em 2022. Além disso, está com o caixa reforçado para aquisições: em outubro levantou R$ 1,7 bilhão por meio de uma emissão de debêntures.
Ao que tudo indica, não é de hoje que a Quantum vem preparando o terreno para a venda da Pampa. Há cerca de seis meses, comprou os 50% da companhia que até então pertenciam à espanhola Cymi, assumindo 100% do controle. Na ocasião, o mercado já especulava que a operação seria uma antessala para a posterior venda integral da Pampa a um valuation mais elevado. Ao longo dos últimos anos, a empresa de transmissão da Brookfield tem intensificado a estratégia de monetização de ativos mais maduros. A negociação mais emblemática foi a venda da Mantiqueira para a chinesa State Grid, em novembro do ano passado, transação que atribuiu à empresa um enterprise value de aproximadamente R$ 7 bilhões. Procurada pelo RR, a Quantum informou que “não comenta especulações de mercado”.
Novo ministro da Agricultura estreia sob pressão de tradings e crise nos portos
6/04/2026O novo ministro da Agricultura, André de Paula, assumiu o cargo, semana passada, com as tradings de commodities agrícolas bufando na porta do seu gabinete. As grandes empresas do setor pressionam o governo pela flexibilização das regras de fiscalização fitossanitária. O impasse ganhou dimensão nas últimas semanas, com impacto direto sobre a logística de exportação. O endurecimento da política de “tolerância zero” adotada pelo Ministério da Agricultura, a partir de exigências impostas pela China, provocou um efeito cascata nos portos. Há cerca de dez dias, 22 navios carregados com soja ficaram parados simultaneamente em portos brasileiros à espera de certificação sanitária. Algumas tradings, como a Cargill, chegaram a suspender a compra do produto. O Ministério já afrouxou um tiquinho das rédeas, ao devolver às empresas privadas um papel maior na coleta de amostras para certificação. No entanto, as tradings alegam que as normas para a liberação da autorização de embarque ainda estão na fronteira do “incumprível”. Nesse caso, a solução do problema passa por Brasília, mas, sobretudo, por Pequim. A China, destino de 70% das exportações brasileiras de soja, elevou o nível de exigência após sucessivas reclamações envolvendo contaminação por sementes de ervas daninhas.