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A decisão da Perfin Investimentos de não participar da privatização da Copasa, que se inicia amanhã, causou forte estranheza no mercado. Segunda maior acionista individual da estatal de saneamento, com 15%, a gestora era dada como nome certo na disputa. Por essa razão, seu recuo tem alimentado diferentes especulações entre os investidores. Línguas ferinas falam em uma fissura na relação com a Aegea – ambas são sócias na gaúcha Corsan. Pode ser que sim, pode ser que não. O fato é que a Aegea vai entrar sozinha na oferta de ações da Copasa em meio a uma crise de confiança e a turbulências internas entre seus acionistas – ver RR.
Outra hipótese aventada para a desistência da Perfin é um reposicionamento tático da gestora. Nesse caso, em vez de entrar em uma disputa de controle que tende a ser altamente competitiva, a gestora teria optado em ser a fiel da balança no bloco minoritário da Copasa, valendo-se da expressiva posição acionária que já possui, Com essa postura, preservaria capital, evitaria risco operacional e manteria influência relevante sobre a governança da companhia no pós-privatização, negociando diretamente com o futuro controlador. Ou seja: a Perfin ficaria de fora da privatização, pero no mucho. Aproveitaria a posição que já tem como atalho para uma composição posterior com o novo acionista de referência da companhia. Faz todo o sentido. A julgar pelo seu track record de sucesso, pode-se afirmar que a decisão da gestora de José Roberto Ermírio de Moraes Filho e Ralph Gustavo Rosenberg de não entrar na privatização da Copasa se deve muito mais a um cálculo estratégico do que a um momento de hesitação.
O novo ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, passou o feriadão em modo campanha — monotemático, concentrado exclusivamente na articulação para viabilizar a aprovação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal. Com Brasília esvaziada pelo feriado de Tiradentes, Guimarães manteve uma frenética rotina de conversas telefônicas com senadores. Foram mais de 40 parlamentares contatados. Nos bastidores, o ministro tem dito que, em poucos dias, conseguiu aumentar de 48 para 52 o número de votos certos para a aprovação de Messias no plenário do Senado. A conferir.
O Palácio do Planalto já sente o cheiro de mais uma derrota fiscal no Congresso. A Frente Parlamentar da Agricultura está costurando um acordão com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, para a votação do Projeto de Lei nº 5.122/2023, que prevê o uso de até R$ 30 bilhões do Fundo Social do pré-sal para refinanciar dívidas do agronegócio. O próprio Alcolumbre foi determinante na indicação do senador Renan Calheiros (MDB-AL) para a relatoria do PL. Embora ligado ao governo, Renan já trabalha nos bastidores pela aprovação da proposta – candidato à reeleição ao senado neste ano, o parlamentar não é doido de arriscar perder o voto do agronegócio em Alagoas. Nos corredores do Senado, existe, inclusive, uma articulação para que o Projeto de Lei tramite em regime de urgência, o que pode abrir caminho para a sua votação em plenário ainda neste mês. Caso a aprovação se confirme, será o primeiro grande revés de Dario Durigan no cargo de ministro da Fazenda. Nos últimos dias, Durigan manteve contatos com diversos parlamentares na tentativa de brecar a tramitação do projeto, acenando com a inclusão dos produtores rurais no pacotão de renegociação de dívidas. Pelo jeito, gastou as cordas vocais à toa. É sintomático que, na última sexta-feira, ao dizer que o programa está pronto para ser anunciado pelo presidente Lula, o ministro tenha mencionado que ele atenderá três frentes: famílias, trabalhadores informais e pequenas empresas. O agronegócio ficou de fora.
O Fundo Social do pré-sal foi originalmente criado para financiar áreas como educação, saúde, ciência e tecnologia. Na prática, porém, tornou-se um chiclete orçamentário, usado, aqui e ali, para tapar pequenos buracos nas contas do governo. Seus recursos já foram destinados a cobrir transferências a estados e municípios e na segurança pública. E sempre tem mais gente querendo puxar esse goma de mascar. Na semana passada, por exemplo, a CBIC (Câmara Brasileira da Indústria da Construção) levou ao governo a proposta de que o fundo seja usado para financiar a construção de moradias populares no âmbito do Minha Casa, Minha Vida. Pode até ser que Durigan consiga blindar o Fundo Social da investida das incorporadoras imobiliárias, mas a mordida do agronegócio tornou-se praticamente inevitável, sobretudo pela pressão não apenas da bancada ruralista, mas dos governadores. É o caso, sobretudo, do gaúcho Eduardo Leite, à frente do estado em que os produtores rurais foram mais atingidos pelos extremos climáticos.
As mudanças na gestão do Grupo Pão de Açúcar (GPA), anunciadas na semana passada, soaram no mercado como um sinal de esvaziamento do CEO da companhia, Alexandre Santoro. Um precoce esvaziamento, diga- se de passagem: Santoro está no cargo há apenas quatro meses. A interpretação dos investidores se dá, sobretudo, pela contratação dos executivos José Rafael Vasquez e Jonas Laurindvicius, que assumirão, respectivamente, as áreas comercial e de supply chain. Ambos chegam ao GPA com o status de terem comandado grandes redes do varejo – o primeiro foi CEO do Sam’s Club; o segundo, da Drogaria Pacheco São Paulo (DPSP). Não é exatamente o currículo de alguém chamado para ocupar funções hierárquicas inferiores ou atuar como um mero cumpridor de diretrizes. Entre os investidores, a leitura é que os dois entram no Pão de Açúcar para dividir poderes com Alexandre Santoro e serem polos de decisão dentro da companhia. Ainda é cedo para dizer o que isso significa, mas é bom lembrar que estabilidade no comando não tem sido o forte da rede varejista. O GPA tornou-se um triturador de CEOs: Santoro é o quinto ocupante do cargo nos últimos sete anos.
O fantasma dos Correios vai perseguir o presidente Lula durante toda a campanha eleitoral. Segundo informações filtradas pelo RR, internamente a direção da estatal trabalha com projeções para este ano de um prejuízo acima dos R$ 5 bilhões, não muito distante, portanto, do rombo registrado em 2025, da ordem de R$ 5,8 bilhões. O número deixa claro que as medidas emergenciais adotadas pela empresa vão demorar muito para surtir efeito – se é que surtirão. Além do empréstimo de R$ 12 bilhões, o pacote inclui fechamento de unidades deficitárias, venda de imóveis e um Programa de Demissões Voluntárias (PDV). Todas essas iniciativas, no entanto, surgem como de baixo alcance. É o caso do próprio PDV: até o momento, cerca de 2,5 mil funcionários aderiram ao plano, bem abaixo da meta de 10 mil desligamentos.
A Aegea enfrenta uma crise dentro da crise. A erosão reputacional provocada pela demora na divulgação das demonstrações financeiras de 2025 parece ter sido a gota que faltava para transbordar o copo das tensões societárias na empresa. Segundo informações que circulam no mercado, a Itaúsa, dona de 13% do capital, defende mudanças no management da companhia. Na linha de tiro estariam o próprio CEO, Radamés Andrade Casseb, e o vice-presidente Administrativo Financeiro, André Pires de Oliveira. A insatisfação dos Setúbal com os rumos da Aegea não vem de hoje, de acordo com uma fonte próxima à empresa. Seria uma conta de juros compostos, um acúmulo decorrente, sobretudo, do crescente nível de alavancagem da companhia – a relação dívida líquida/Ebitda chegou a 3,8 vezes no fim do ano passado. A crise de credibilidade deflagrada nas últimas semanas, a partir dos sucessivos adiamentos na apresentação dos resultados, fez o copo extravasar. Na Itaúsa, prevalece o entendimento de que a Aegea precisa tomar decisões mais agudas como resposta à desconfiança do mercado em relação aos rumos e, em última instância, à própria governança da empresa. É uma cobrança que aumenta o grau de tensionamento interno. A ofensiva sobre a gestão executiva, notadamente sobre Casseb, já cria, por si só, uma zona de fricção com a Equipav, maior acionista da Aegea, com 52%. O CEO da holding de concessões de saneamento é egresso da Equipav e homem de confiança dos acionistas do grupo, as famílias Toledo e Vettorazzo. Nesse contexto, o fiel da balança para eventuais mudanças na direção da Aegea pode vir a ser o GIC, fundo soberano de Cingapura, dono de 35% da empresa.
Procuradas pelo RR, Aegea e Equipav não se manifestaram até o fechamento desta matéria. Também consultada, a Itaúsa limitou-se a reproduzir o Fato Relevante no qual informou ao mercado ter feito um ajuste contábil de R$ 700 milhões em seu próprio balanço por conta de “revisões” e “reavaliações de estimativas” nas demonstrações financeiras da Aegea. O valor em si é um grânulo de areia para o conglomerado dos Setúbal – como, aliás, o grupo fez questão de enfatizar no Fato Relevante, ao classificar o ajuste contábil como “imaterial para a holding, que encerrou o exercício de 2025 com um patrimônio líquido de R$ 89 bilhões”. No entanto, a crise de desconfiança do mercado em relação à Aegea já gerou uma perda bem material: a empresa de saneamento se viu obrigada a adiar seu IPO para 2027. É um duro revés para Equipav, GIC e Itaúsa. O trio trata o IPO como uma peça central para viabilizar o plano de investimentos da empresa, uma fatura de R$ 45 bilhões em desembolsos até 2033. É uma conta grande demais para ser fechada apenas com emissão de dívida.
Não bastassem os danos tangíveis, a crise da Aegea carrega um forte impacto simbólico para a empresa e seus acionistas. Os seguidos adiamentos da divulgação do balanço provocaram no mercado uma onda de ilações sobre o compliance da companhia, até mesmo com especulações sobre a existência de possíveis inconformidades contábeis ou riscos de ordem legal. Até mesmo ossadas do passado foram exumadas. Entre os investidores não faltou quem lembrasse que a Aegea já esteve no centro de situações delicadas. Em 2021, por meio de um acordo de leniência firmado com o MPF, a empresa comprometeu-se a indenizar a União em R$ 439 milhões pelo pagamento de propina a agentes públicos entre 2010 e 2018. A Aegea só tornou público o acordo em fevereiro deste ano.
O desmonte do conglomerado têxtil construído por José de Alencar não se limita ao território brasileiro. A Coteminas avalia a venda ou, em um cenário mais radical, o fechamento da sua fábrica de La Banda, na Argentina. A operação tem sofrido um gradativo esvaziamento. No mês passado, segundo informações filtradas pelo RR, houve aproximadamente 60 demissões. A unidade industrial chegou a ter 1,2 mil funcionários. Hoje, são menos de 400. A fábrica tem operado de forma errática, com episódios de paralisação ao longo dos últimos dois anos. Procurada pelo RR, a Coteminas não se pronunciou.
A eventual saída da Argentina é mais um entre os tantos remendos que a Coteminas, asfixiada por uma dívida de R$ 2 bilhões, terá de fazer. O plano de recuperação judicial aprovado pelos credores no fim do ano passado prevê a venda de ativos em Minas Gerais, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pará. Não deve estar sendo fácil para o empresário Josué Gomes da Silva enfrentar o desmantelamento da velha Coteminas deixada por seu pai.
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