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A mudança na defesa de Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB, não estaria relacionada apenas a sua intenção de fechar um acordo de delação premiada. Em Brasília, corre à boca miúda que interlocutores de Ibaneis Rocha teriam feito gestões junto à Costa para que ele trocasse de advogado. Seria uma forma de evitar, digamos assim, constrangimentos para o ex-governador do Distrito Federal. O pano de fundo é a relação de proximidade do até então advogado de Costa, Cléber Lopes, com o próprio Ibaneis. Ambos são amigos. Além disso, Lopes já advogou em diferentes ocasiões para o ex-governador. Ibaneis tem feito de tudo para se desvincular de Costa, preso sob a acusação de ter recebido de Daniel Vorcaro o equivalente a R$ 146 milhões em imóveis para aprovar a compra do Master pelo BRB. O ex-governador do Distrito Federal vem repetindo que não teve qualquer ingerência sobre a operação e que tudo foi conduzido pela diretoria do banco estatal.
A ministra da Casa Civil, Miriam Belchior, recebeu a missão de costurar um acordo com a ANTT e o TCU para acelerar a repactuação do contrato das concessões ferroviária da Vale. O objetivo é criar uma espécie de fast track para a análise do processo e dos termos já firmados entre o governo e a mineradora. A avaliação dentro do Executivo é que, sem uma articulação política direta, a proposta corre o risco de emperrar na agência reguladora e, sobretudo, no Tribunal de Contas. Emperrar mais uma vez, diga-se de passagem. No governo Lula, o assunto tem seguido uma espécie de “slow track”: as negociações com a Vale se arrastam desde o início do atual mandato. Pelas cláusulas já acordadas, a empresa pagará um “pedágio” de R$ 7 bilhões pela renovação dos contrato da Vitória-Minas e da ferrovia de Carajás, valor que se soma aos R$ 4 bilhões já repassados à União. Além disso, a Vale se compromete a concluir as obras da Ferrovia de Integração Centro-Oeste (Fico).
O crime organizado tomou de assalto os bancos federais. Segundo uma fonte da própria PF, investigações apontam que o Banco do Brasil também teria sido vítima de fraudes financeiras cometidas pelo Comando Vermelho. Trata-se do mesmo esquema de lavagem de dinheiro que impôs perdas de aproximadamente R$ 500 milhões à Caixa Econômica, de acordo com as apurações no âmbito da Operação Fallax. Cabe lembrar que o Grupo Fictor também é citado nas investigações, vinculado a supostos crimes de gestão fraudulenta, apropriação indébita financeira e emissão de títulos sem lastro. No dia 25 de março, Rafael Góis, fundador e CEO da instituição financeira, foi alvo de uma operação de busca e apreensão. O grupo se notabilizou pela tentativa de compra do Master às vésperas do BC decretar a liquidação do banco. O RR fez várias tentativas de contato com a Fictor, mas não obteve retorno. Também consultado, o Banco do Brasil não se pronunciou. A Polícia Federal, por sua vez, disse ao RR que “não se manifesta sobre eventuais investigações em andamento”.
A redução da participação acionária do Salic (Saudi Agricultural and Livestock Investment Company) na MBRF está longe de ser um mero ajuste de portfólio. O que há por trás da decisão é um realinhamento mais amplo dos interesses geoeconômicos da Arábia Saudita no Brasil, notadamente no que diz respeito a segurança alimentar. Além da proteína animal, o agronegócio brasileiro deverá se tornar um dos principais fornecedores de grãos para os árabes. Esse reposicionamento passa pelo recente aumento da posição societária do Salic – vinculado ao PIF (Public Investment Fund), um potentado soberano, com mais de US$ 1 trilhão em ativos – na Olam Agri, de Cingapura. Os árabes saltaram de 35% para 80%, assumindo o controle da empresa, uma das oito maiores tradings de commodities agrícolas do mundo. O Brasil é uma peça valiosa nesse mosaico. O país representa algo como 10% de todo o volume de grãos transacionado pela Olam. Ao assumir o mando da trading asiática, a Arábia Saudita passa a ter uma posição privilegiada em um canal estratégico de abastecimento. Na prática, os sauditas controlarão uma engrenagem capaz de conectar oferta, logística e distribuição, influenciando decisivamente em três pontos cardeais da cadeia: na originação de alimentos, no volume comercializado e no preço. No caso do Brasil, o que está em jogo é a primazia sobre o variado cardápio de exportações da Olam, que inclui café, algodão, açúcar, soja e milho.
Mesmo com a recente redução da participação, o Salic manteve 10% da MBRF, a gigante criada a partir da fusão da Marfrig com a BRF. Ao mesmo tempo, o fundo é o principal acionista da Minerva Foods. Ou seja: o Brasil já é responsável por uma parcela considerável da proteína animal que chega aos pratos dos sauditas. Com a ascensão do Salic sobre a Olam, o país se consolida como um multi supridor de alimentos para a Arábia Saudita. Estamos falando de uma nação que importa mais de 80% da comida que consome. Em alguns casos, como trilho e milho, a dependência das importações é quase total. No passado, a Arábia Saudita – uma das regiões mais áridas do mundo, sem rios permanentes e com regime de chuvas extremamente limitado – tomou a decisão de praticamente extinguir o cultivo desses cereais para preservar seus recursos hídricos. Essa combinação de restrição aquífera estrutural e dependência externa transforma o abastecimento alimentar questão de Estado. Não basta comprar no mercado internacional. É preciso garantir acesso direto às cadeias produtivas, reduzindo vulnerabilidades em momentos de estresse global. Nesse contexto, controlar a originação de grãos significa, na prática, controlar o ponto de partida de toda a cadeia alimentar. A mudança de ênfase ganhou força após uma sequência de choques que expuseram a fragilidade do sistema global de alimentos. A guerra na Ucrânia, as restrições de exportação adotadas por diversos países e a volatilidade crescente das commodities agrícolas reforçaram a percepção de risco.
Diante desse panorama, o Brasil conquista um protagonismo ainda maior na balança comercial alimentar dos sauditas. No ano passado, as exportações de carnes e grãos para a Arábia chegaram a US$ 2,8 bilhões. A estimativa é que esse volume atinja a casa dos US$ 4 bilhões em até três anos, na esteira dos acordos firmados entre os dois países. Nos últimos anos, a relação bilateral tem sido marcada por sucessivas liberações sanitárias, que permitiram a entrada de novos produtos brasileiros no mercado saudita — de derivados bovinos a frutas tropicais.
O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, tem aconselhado Flavio Bolsonaro a reforçar a articulação política da sua campanha. Costa Neto defende, inclusive, que o “01” busque figuras de fora do partido, usando o convite como forma de consolidar sua base de apoio. Um dos nomes mencionados pelo próprio Costa Neto é o da senadora Tereza Cristina (PP-MS), que já foi até mesmo especulada como uma opção para compor a chapa como candidata a vice-presidente. Hoje, a coordenação política da campanha de Flavio está concentrada no senador Rogério Marinho. Ao menos, até a página 2, ou seja, até os limites permitidos pelo clã Bolsonaro a um “forasteiro”. Essa é exatamente uma das preocupações de Costa Neto, que já viu de perto a família perder uma eleição. O presidente do PL mira a montagem de um rol mais amplo de articulação da campanha como uma maneira de reduzir, mesmo que um pouquinho, o monopólio do clã sobre a condução da candidatura.
A Belagrícola tem mantido conversas com fundos de investimento envolvendo um aporte de capital. Os atuais acionistas – a chinesa Pengdu Agriculture, leia-se o Shanghai Pengxin Group, dona de 54%, e a família Colofatti, detentora dos 46% restantes – não estaria dispostos a alocar dinheiro novo na companhia. A injeção de recursos teria uma dupla valia: garantir liquidez imediata e, sobretudo, dar credibilidade ao plano de reestruturação diante de credores ainda resistentes.
A movimentação em busca de um novo investidor ocorre em paralelo ao processo de recuperação extrajudicial, no qual a empresa tenta equacionar uma dívida superior a R$ 2 bilhões. Uma das maiores distribuidoras de insumos agrícolas do país, a Belagrícola obteve recentemente na Justiça um stay period adicional de 180 dias, o que a protege de eventuais cobranças e execuções de garantias de suas dívidas. O plano já apresentado pela empresa é considerado agressivo. Para os credores que aderirem, a proposta envolve alongamento relevante de prazos, com início de amortização apenas após alguns anos e pagamento integral condicionado à geração de caixa futura. Já para os não aderentes, a condição é ainda mais dura: recuperação limitada a cerca de 25% do valor do crédito, o que, na prática, funciona como instrumento de coerção econômica para elevar o nível de adesão. A proposta já obteve aprovação de credores que representam aproximadamente 62% do passivo total.
As crises em sequência da Tradener e da Electra, duas das maiores comercializadoras de energia do Brasil, têm causado forte apreensão na equipe do ministro Alexandre Silveira. No Ministério, há um crescente temor com o risco de um efeito dominó sobre o mercado livre de energia, ou seja, de uma deterioração financeira em cadeia que contamine todo o segmento. Silveira e assessores discutem medidas para conter o crescimento dessa bola de neve. Uma das propostas é a criação de mecanismos de mediação regulada, na tentativa de brecar a escalada de judicializações dos contratos de fornecimento de energia. O Ministério cogita também reforçar exigências de garantias, gestão de risco e lastro contratual, sobretudo para agentes mais alavancados. No entanto, dentro da própria Pasta, essas iniciativas são vistas como algo de alcance limitado. Talvez o buraco seja mais fundo.
Auxiliares de Alexandre Silveira já falam na necessidade de revisão do próprio desenho do mercado, especialmente diante das mudanças no PLD (Preço de Liquidação das Diferenças) e na lógica da valoração do insumo. O PLD é, na prática, o valor utilizado para liquidar, na CCEE, as diferenças entre a energia contratada e aquela efetivamente consumida ou gerada. Funciona como o parâmetro central do mercado de curto prazo. O problema é que esse indicador deixou de ser apenas um ajuste marginal e passou a operar em um novo patamar estrutural, mais elevado e volátil. O que antes era um mecanismo de compensação tornou-se um vetor recorrente de perdas, escancarando o descasamento entre contratos firmados em um ambiente de energia mais barata e a nova realidade do setor. Comercializadoras que venderam o insumo a preços menores passaram a ter de comprar caro para cobrir suas posições, acumulando perdas recorrentes. É como se contratos fechados em um mundo de abundância passassem a ser executados em um cenário de escassez — e a diferença entre esse dois universos é justamente o rombo que agora começa a aparecer.
A preocupação do Ministério de Minas e Energia é proporcional ao tamanho do mercado livre na dinâmica da comercialização de energia no Brasil. O segmento responde por algo como 42% do consumo de eletricidade no país. Trata-se de um contingente que concentra praticamente toda a grande indústria nacional e a maior parte do consumo corporativo de média e alta demanda. Em um mercado baseado em contratos bilaterais interligados, a dificuldade de uma comercializadora em honrar seus compromissos irradia para geradores, consumidores e outras comercializadoras com as quais mantém posições cruzadas. Ou seja: o risco é de um efeito em cascata. Nesse contexto, o ministro Alexandre Silvera e seus assessores trabalham com um duplo fator de apreensão: não apenas afastar a ameaça de uma contaminação de toda a cadeia de negócios e, ao mesmo tempo, impedir que a crise deteriore a percepção sobre o próprio modelo do ambiente de contratação livre. Se a leitura de que contratos podem ser reescritos sob pressão judicial se consolidar, o resultado será imediato: aumento do custo de capital, retração de liquidez e elevação do prêmio de risco exigido pelos agentes mais sólidos. Na ponta do lápis, a crise atual pode encarecer estruturalmente a energia livre no Brasil.
O vetor central da crise em curso no setor é o descolamento entre contratos firmados em um ambiente de energia estruturalmente mais barata — com referências na casa de R$ 100 a R$ 150 por MWh — e a nova realidade de preços, que em momentos recentes passou a oscilar entre R$ 300 e R$ 400 por MWh. A mudança não foi apenas de magnitude, mas de lógica: alterações no modelo de cálculo do PLD, somadas a hidrologia adversa, maior despacho térmico e custos mais elevados, criaram um novo patamar de preços. Dados do mercado indicam que contratos de longo prazo subiram cerca de 59% entre 2024 e 2026, enquanto operações de curto prazo avançaram mais de 120%, evidenciando um descolamento agudo entre as diferentes janelas de contratação.
É justamente esse ambiente que explica os episódios recentes. No caso da Tradener, a deterioração das posições levou a empresa a recorrer ao Judiciário para suspender execuções de contratos e evitar seu desligamento da CCEE, movimento que na prática buscou ganhar tempo para renegociar obrigações com credores e contrapartes. A companhia alegou “instabilidade sem precedentes” e admitiu o descasamento entre contratos firmados e a energia efetivamente disponível, o que a obrigava a recorrer ao mercado de curto prazo em condições muito mais onerosas. A liminar obtida chegou a interferir diretamente na execução dos contratos, sendo interpretada por agentes do setor como um precedente perigoso, próximo de um “haircut energético”, ainda que parte da decisão tenha sido posteriormente revista.
A Electra, por sua vez, seguiu uma estratégia distinta, mas partindo do mesmo problema. Em vez de judicializar de imediato, optou por notificar extrajudicialmente seus clientes para renegociar contratos, alegando desequilíbrio econômico-financeiro. Na prática, trata-se de uma tentativa de reprecificar acordos firmados em outro cenário de mercado, diante de um custo de reposição de energia significativamente mais alto. O movimento revela que, mesmo entre players mais estruturados, há contratos que deixaram de ser sustentáveis nas condições atuais.
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