Redação RR - Relatório Reservado

Artigos: Redação RR

Sem dinheiro e sem pessoal: é essa ANPD que vai encarar as big techs?

22/05/2026
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Há duas “ANPDs” em Brasília. Uma é a do imaginário do governo Lula, que acaba de transformá-la em uma superagência da economia digital, responsável pela regulação e fiscalização das poderosas big techs; a outra é a real, que precisará de um substancial reforço de caixa para encarar a árdua missão. Como está, vai ser quase impossível. A Agência Nacional de Proteção de Dados sofre com a penúria orçamentária, déficit de pessoal e falta de musculatura. Não é por falta de aviso. No fim do ano passado, a direção da Agência enviou ofício ao Ministério da Justiça, alertando que o orçamento projetado de R$ 15,6 milhões para 2026 seria insuficiente até para manter contratos básicos de apoio administrativo e tecnologia da informação. Na ocasião, a agência estimava necessitar de R$ 23 milhões adicionais para operar e cumprir suas funções. Nada aconteceu. Com a amplificação da sua jurisdição, estima-se que a ANPD precisará, no mínimo, de um orçamento da ordem de R$ 60 milhões, apenas para custeio. Em fevereiro, o Senado aprovou a MP 1317/2025, liberando a criação de 200 novos cargos de especialista em regulação de proteção de dados. Na prática, porém, a abertura das vagas ainda depende de autorização orçamentária para a realização de concurso público. Hoje, a ANPD tem 216 servidores. A direção da agência calcula que terá de chegar a 500 funcionários para encarnar o papel de xerife das big techs. E precisará também de um teto para abrigá-los. Mesmo com um contingente reduzido, a Agência hoje enfrenta um problema imobiliário: o prédio onde está instalada, em Brasília, não comporta o atual número de servidores. A direção da ANPD já solicitou à Secretaria do Patrimônio da União a cessão de um novo imóvel, mas ainda não teria recebido resposta.

Pelos decretos assinados pelo presidente Lula nesta semana, o peso da ANPD cresceu significativamente. A Agência passa a ter poder de polícia sobre plataformas digitais, com competência para editar normas, fiscalizar condutas, apurar infrações e aplicar sanções. A entidade deverá supervisionar o cumprimento de deveres de prevenção, transparência, remoção de conteúdos ilícitos, combate a fraudes digitais, publicidade enganosa, exploração sexual infantil, violência contra mulheres e outros crimes praticados ou impulsionados no ambiente online. Na prática, deixa de ser apenas a guardiã da LGPD e passa a atuar também como autoridade de referência sobre a conduta das plataformas digitais no Brasil. Some-se a isso a extensa lista de responsabilidades já a cargo da ANPD: fiscalizar o tratamento de dados pessoais por empresas e órgãos públicos, editar regulamentos, aplicar multas, orientar agentes de tratamento, supervisionar transferências internacionais de dados, zelar pelos direitos dos titulares, analisar incidentes de segurança, regular bases legais de tratamento, acompanhar o uso de dados sensíveis e arbitrar conflitos sobre privacidade. Nos últimos meses, a ANPD ainda assumiu a aplicação do ECA Digital, tornando-se responsável pela proteção de crianças e adolescentes em ambientes digitais. Agora, com a fiscalização das big techs, a agência salta de uma autoridade setorial de proteção de dados para uma espécie de xerife geral da vida online. Por ora, um xerife que sofre com a falta de munição financeira.

#ANPD

Shell quer desarmar a bomba da Raízen antes de trocar comando no Brasil

22/05/2026
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A Shell trabalha com um fator adicional de pressão na renegociação do passivo da Raízen: a já anunciada troca no comando da sua operação no Brasil. O grupo anglo-holandês considera prioritário fechar o acordo com os credores antes de agosto, quando João Santos Rosa assumirá o cargo de CEO no país em substituição a Cristiano Pinto da Costa. A reestruturação da Raízen passa pela complexa repactuação de uma dívida de R$ 65 bilhões. Não só: envolve também a venda de mais ativos, uma draconiana redução de custos e demissões. Trata-se de um “trabalho sujo” que cai melhor na conta de quem já está de saída. Por sinal, nos corredores da Shell o que se diz é que toda essa crise, se não foi determinante para a sucessão, certamente precipitou a troca na presidência da subsidiária brasileira. O atual CEO, Pinto da Costa, carrega todo o desgaste da dura queda de braço com os credores – o executivo está na linha de frente das tratativas com bancos e bondholders. Nesse período, acumulou também atritos com a direção da Cosan, com quem a Shell divide o controle da Raízen. O grupo não quer contaminar a nova gestão no Brasil com toda essa combustão financeira e institucional.

#Shell

Mercado não compra novo cronograma do governo para hidrovias

22/05/2026
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Entre os investidores do setor, há uma descrença generalizada de que o governo conseguirá colocar de pé ainda neste ano os editais das concessões hidroviárias prometidas pelo Ministério de Portos e Aeroportos. A descrença aumentou após o adiamento da hidrovia do Rio Paraguai para 2027 e já contaminou também os projetos do Arco Norte. Investidores e operadores do setor avaliam que o calendário regulatório simplesmente não fecha. Ainda faltam estudos consolidados, audiências públicas, licenciamento ambiental, alinhamento com a Antaq e modelagens econômico-financeiras mais robustas. Some-se a isso o alto potencial de judicialização e os conflitos com comunidades indígenas e ambientalistas em trechos sensíveis da Amazônia. Nos bastidores, há a percepção de que o governo tenta vender uma vitrine logística antes de ter resolvido as travas políticas e ambientais dos projetos. Para parte do mercado, o governo Lula corre o risco de repetir nas hidrovias o mesmo roteiro visto em outros segmentos de infraestrutura: cronogramas agressivos no discurso e sucessivos atrasos na prática.

A leitura entre os investidores é que o governo anunciou as licitações apenas para criar um fato político. O calendário das concessões hidroviárias parece ter sido menos um compromisso de execução e mais uma peça de comunicação: sinalizar ao agro que a agenda logística do Arco Norte está viva, acenar ao mercado com uma nova fronteira de investimentos e vender as hidrovias como infraestrutura verde em ano pré-eleitoral. O problema é que fato político não substitui edital. Sem estudos maduros, licenciamento encaminhado, pactuação ambiental e segurança jurídica, o anúncio nasce com prazo de validade curto. Serve para manchete, mas não para atrair capital.

#Hidrovias

Vivaterra fecha primeiro fundo e mira agtechs

22/05/2026
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A Vivaterra já teria fechado a captação de seu primeiro fundo de venture capital voltado ao agronegócio. A gestora, criada com a ambição de atuar longe da Faria Lima e mais próxima do produtor rural, levantou cerca de R$ 150 milhões para investir em agtechs em estágio inicial, do seed à série A. A tese da casa é atacar gargalos concretos do campo, combinando tecnologia, eficiência operacional e sustentabilidade. Entre os setores prioritários estão inteligência artificial aplicada à produção rural, robótica, automação, análise de dados, biotecnologia, soluções para escassez de mão de obra, rastreabilidade, produtividade e carbono. A captação do fundo dá tração à estratégia da Vivaterra de montar uma carteira de startups capazes de entregar retorno financeiro e impacto operacional direto na fazenda.

#Vivaterra

BC, CVM, Susep e Previc: há uma geringonça regulatória em marcha

21/05/2026
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Ontem, em meio à sabatina do novo presidente da CVM, Otto Lobo, na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, um jabuti aninhava-se sorrateiramente na copa de uma árvore. O quelônio em questão – lá colocado pelo deputado federal Carlos Chiodini (MDB-SC) – atende pelo nome de projeto de lei 2.496/2026. O PL propõe a transferência da sede da Comissão de Valores Mobiliários para Brasília no período de até quatro anos. O texto parece mais esconder do que revelar suas reais intenções. Na justificativa, Chiodini menciona que a mudança aproximará a entidade do Banco Central. Na geometria, a maior proximidade que pode haver entre duas figuras é uma ficar dentro da outra. Por trás do projeto de Chiodin estaria uma articulação para a criação de um super órgão regulatório e fiscalizador, que reuniria CVM, Susep e Previ sob o guarda-chuva do Banco Central. São muitos os jabutis em cima das árvores. No ano passado, a sede da Susep foi transferida do Rio de Janeiro para Brasília, onde já está a Previc. São aproximações sucessivas. No momento, o que estaria em marcha é um processo de captura geográfica. A mudança da sede da CVM, assim como no caso da Susep, ajudaria a empurrar a autarquia não apenas para a órbita territorial, mas, sobretudo, jurisdicional do Banco Central, criando gradativamente uma percepção de pertencimento, de proximidade decisória e, no limite, de dependência institucional. O modelo ainda é nebuloso. No caso específico da CVM, por exemplo, há possibilidades distintas: em Brasília, há quem defenda uma incorporação plena pelo Banco Central. Outra hipótese aventada dentro da própria Fazenda seria a cisão da autarquia e a separação das suas atribuições atuais: a parte da fiscalização passaria para o BC e a área de regulação do mercado de capitais permaneceria sob uma CVM desidratada.

A ideia de uma espécie de “geringonça” regulatória e fiscalizatória não é nova. Vai e volta desde o governo Temer, com diferentes combinações. Em 2016, discutiu-se a fusão da Susep e da Previc, proposta que voltou a ser debatida em 2019, com Jair Bolsonaro na presidência e Paulo Guedes no Ministério da Economia. Em 2020, ainda sob a gestão de Guedes, os estudos se espraiaram e passaram a contemplar a hipótese de uma tríplice associação, entre Susep, Previc e CVM – como o RR chegou a noticiar à época (Leia aqui). Em 2025, o diretor de fiscalização do BC, Ailton Aquino, trouxe o projeto à baila mais uma vez. Assim como nas vezes anteriores, nada aconteceu. No meio do caminho, em 2024, o Ministério da Fazenda avaliou introduzir no Brasil o modelo do “Twin Peaks, transformando o BC e a CVM em super órgãos reguladores. No papel estava e no papel também ficou. A novidade agora fica por conta de movimentos que sugerem um amálgama geral, que daria super poderes ao Banco Central.

Para além da megaconcentração regulatória e fiscalizadora, há ainda uma questão orçamentária. A CVM acaba de ganhar fôlego com a decisão do ministro Flávio Dino, do STF, que determinou o repasse à autarquia das arrecadações futuras da Taxa de Fiscalização dos Mercados de Títulos e Valores Mobiliários, respeitado apenas o desconto constitucional da DRU. Segundo a decisão noticiada pelo STF, pelo menos 70% da arrecadação da taxa deve ser destinada à CVM, e não retida pelo Tesouro. A valores do ano passado, a decisão do Supremo representa um reforço de caixa de aproximadamente R$ 900 milhões para a Comissão de Valores Mobiliários. É uma dinheirama que não estava no game há alguns meses e passa a fazer toda a diferença na equação. A variável financeira aumenta a temperatura das discussões para uma eventual incorporação da CVM pelo Banco Central. Seria uma forma de rearrumação orçamentária do BC. A autoridade monetária tem notórias limitações financeiras. Seu orçamento para este ano gira em torno de R$ 4,9 bilhões. Sendo que R$ 4,468 bilhões estão carimbados em despesas obrigatórias. Para custeio, tecnologia, manutenção, equipamentos e investimentos, sobram apenas R$ 490,9 milhões. Até março, o BC havia liquidado somente R$ 46,9 milhões nessa rubrica, dos quais irrisórios R$ 200 mil em investimento. A escassez também é de gente: a autarquia tinha, em janeiro, 3.167 servidores ativos para um quadro legal de 6.470 — ou seja, déficit de 3.303 funcionários, ou 51% do efetivo previsto. A eventual absorção de uma CVM irrigada por quase R$ 900 milhões anuais, portanto, não seria apenas uma operação de engenharia regulatória. Seria também uma engenhosa transposição de caixa, estrutura e poder burocrático para dentro de um Banco Central estrangulado por falta de dinheiro e de braços.

Há ainda o espírito do tempo a trabalhar a favor de uma hipertrofia nas mãos de um único ente regulatório e fiscalizador. Casos como Master e Reag expuseram as fragilidades do aparato de vigilância e controle. As duas instituições passaram anos bem debaixo dos narizes do BC e da CVM sem que ambos conseguissem farejar o material putrefato que ambas escondiam. Para defensores de um redesenho institucional, esses episódios reforçam a tese de que a estrutura atual perdeu eficiência diante de fraudes que atravessam bancos e mercado de capitais. Para críticos, porém, a solução pode ser tão perigosa quanto o problema: concentrar competências demais no Banco Central, enfraquecer a autonomia da CVM e transformar a regulação de valores mobiliários em apêndice da lógica prudencial bancária. Caso essa tese fosse vitoriosa o BC deixaria de ser independente e se transformaria no Leviatã. As instituições financeiras não ficariam nada satisfeitas de ter um ente tão hobbesiano apertando os parafusos do setor.

#Banco Central #CVM

Leilão de baterias é mais uma promessa do governo Lula que perde energia

21/05/2026
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Em conversas com dirigentes do setor elétrico nos últimos dias, segundo relato de um deles ao RR, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, prometeu que o governo Lula fará o leilão de baterias. Talvez esteja contando com a reeleição. A esta altura, a realização do certame ainda em 2026 tornou-se uma missão cada vez menos crível. O calendário joga contra o ministro. Para que o leilão saia neste ano, o MME precisa antes publicar a portaria de diretrizes; só então a Aneel poderá estruturar e aprovar o edital, etapa que, segundo contas do setor, consome cerca de quatro meses, além de mais 30 dias até a realização do certame. Ou seja: a janela operacional praticamente fechou. E o que é pior: no dedo dos players que se prepararam para a licitação.

O leilão é tratado pelo setor como a largada de uma nova indústria no país. A contratação inicial em discussão gira em torno de 2 GW de potência em sistemas de armazenamento, volume que poderia destravar cerca de R$ 10 bilhões em investimentos. A associação também fala em aproximadamente 18 GW de projetos com baterias já prontos para cadastramento e em potencial superior a 70 GWh de capacidade instalada no Brasil até 2034. As baterias são vistas como peça-chave para reduzir o desperdício de geração solar e eólica, aliviar o despacho de térmicas mais caras e entregar potência ao sistema nos horários de maior aperto. A Absae (Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia) estima que a entrada das baterias no Leilão de Reserva de Capacidade poderia gerar economia superior a R$ 3 bilhões por ano. A indefinição é agravada por pendências sensíveis: desenho de remuneração, alocação dos custos, risco de judicialização, eventual exigência de conteúdo local e o próprio enquadramento regulatório dos sistemas de armazenamento.

O resultado é mais um curto-circuito na relação entre o setor elétrico e o governo. Executivos de empresas como Huawei, Brasol, Elera Renováveis e Axia Energia já cobraram publicamente a publicação urgente das diretrizes, sob o argumento de que o Brasil precisa sinalizar demanda para destravar investimentos. Enquanto Chile, Argentina, México e Colômbia avançam em normas, projetos ou leilões, o Brasil segue preso à etapa anterior: definir as próprias regras do jogo. Silveira diz que o leilão sai. O setor elétrico, olhando para o calendário, trabalha com outra hipótese: se sair, dificilmente será neste governo Lula.

#Lula

BTG tenta, mas Sabesp resiste ao leilão da Copasa

21/05/2026
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Executivos do BTG Pactual, coordenador líder da oferta da Copasa, passaram o dia de ontem em intensas negociações com a Sabesp. Foram seguidas conversas até o início da noite com o presidente da companhia, Carlos Piani, e com representantes da Equatorial, acionista de referência da empresa paulista, na tentativa de convencê-los a participar da disputa pela estatal mineira. Ao que tudo indica, a ofensiva foi em vão. Segundo relatou ao RR uma fonte ligada à Sabesp, a companhia está decidida a não entrar na licitação. Caso se confirme, a desistência tira do páreo o nome mais simbólico da privatização. A Sabesp era vista como uma das candidatas naturais à Copasa, ao lado da Aegea, tanto pela escala operacional quanto pelo precedente recente de sua própria desestatização. O ativo mineiro é grande, mas complexo: a Copasa atende centenas de municípios e a operação pode movimentar até R$ 13 bilhões.  Além disso, as regras exigem musculatura financeira elevada, incluindo comprovação de investimentos relevantes em infraestrutura e carta-fiança mínima de R$ 7 bilhões.

Para a Sabesp, pesam o tamanho do cheque, o desafio de integração, os compromissos já assumidos em São Paulo e o risco de comprar uma agenda política e operacional espinhosa em Minas. Para o governo mineiro, é uma ducha de água fria. A ausência da empresa paulista pode reduzir a tensão competitiva do processo e aumentar o favoritismo da Aegea. O prazo para apresentação das ofertas começa hoje e vai até o dia 25.

#Sabesp

A delação bufa do ex-presidente do BRB

21/05/2026
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Eugênio Aragão, ao que tudo indica, não quis participar de um teatro. O que se dizia ontem em petit comité em Brasília é que o advogado decidiu abandonar a defesa do ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa por não concordar com o andamento das tratativas para uma eventual colaboração premiada. Segundo um interlocutor de Aragão, o ex-ministro da Justiça não teria aceitado fazer parte de uma “delação cenográfica”, quase uma ópera bufa. O desconforto teria aumentado à medida que Costa fez chegar informações à Polícia Federal e à Procuradoria-Geral da República sem apresentar, segundo relatos filtrados do entorno das investigações, provas robustas. Até agora é muito papo e pouca documentação. A percepção entre integrantes do meio jurídico é que o ex-presidente do BRB estaria mais preocupado em esconder do que revelar, ou seja, administrar danos pessoais e selecionar alvos periféricos do que propriamente revelar a engrenagem central das operações investigadas.

#BRB

Agro avança sobre território do CMN nas regras para crédito rural

20/05/2026
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A CNA (Confederação Nacional da Agricultura) e a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) preparam uma nova ofensiva sobre o Conselho Monetário Nacional (CMN). Coisa de quem está habituado a ter seus pleitos e ambições atendidos integralmente, e não pela metade. Recentemente, o CMN flexibilizou algumas das exigências para a concessão de crédito rural, mas longe de satisfazer ao agronegócio. A ponto de a FPA já trabalhar nos bastidores por uma solução legislativa, leia-se um projeto de lei, o que, na prática, seria uma forma de subtrair atribuições e poder do CMN para deliberar sobre o tema. O conselho adiou a entrada em vigor de novas restrições para a liberação de empréstimos e escalonou os prazos conforme o tamanho da propriedade rural, dando mais tempo para adaptação. A regra, que havia começado a valer em abril, passará a ser aplicada a partir de janeiro de 2027. O órgão também permitiu aos produtores que tiveram pedidos de financiamento negados durante o curto período de vigência da norma reapresentem as propostas. Mas o que irritou o agronegócio não foi o que o CMN fez, mas, sim, o que deixou de fazer. O crédito rural continua condicionado à verificação de supressão de vegetação nativa identificada por monitoramento via Prodes após 31 de julho de 2019. O Prodes – Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite – é o sistema do Inpe usado como referência oficial para medir o desmatamento por corte raso; ao longo dos anos, sua metodologia foi estendida ou adaptada para o acompanhamento de outros biomas. Para o agro, o problema central não é apenas o calendário de implementação, mas a própria lógica da exigência. As entidades alegam que o Prodes detecta a supressão de vegetação, mas não diferencia automaticamente desmatamento ilegal de supressão autorizada por órgão ambiental; tampouco resolveria, por si só, problemas de sobreposição de imóveis e polígonos. Pode ser; pode não ser. O fato é que a bancada ruralista quer desidratar o CMN e ela própria decidir quem no agronegócio terá ou não direito a crédito.

Sergio Moro já calcula o custo de estar ao lado de Flavio

20/05/2026
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O olhar intencionalmente perdido e a distância que Sergio Moro manteve de Flavio Bolsonaro durante o pronunciamento deste último, ontem, na Câmara dos Deputados são mais do que reveladores. Aos poucos, a candidatura do “01” começa a encontrar focos de resistência dentro do próprio PL. E Moro é um deles. Segundo o RR apurou, Flavio tem uma viagem a Curitiba marcada para o próximo dia 29, onde se encontrará com Moro e com Filipe Barros, aliado do ex-ministro da Justiça e candidato ao Senado pelo PL. A princípio, o roteiro traçado previa uma declaração de ambos em apoio a Flavio. No entanto, a revelação das relações promíscuas com Daniel Vorcaro deverá provocar rasuras no script. De acordo com a fonte do RR, Moro está reticente em se manifestar formalmente a favor da candidatura de Flavio à Presidência. A interlocutores próximos, o ex-juiz já confidenciou que, à luz dos novos fatos, não está disposto a entrar na batalha sanguinolenta entre Lula e os Bolsonaro. Ele pode até bater no presidente da República – afinal, para os seus, sempre terá o capital político de poder dizer “eu coloquei o Lula na cadeia -, mas não pretende fazê-lo na posição de backing vocal do clã Bolsonaro.

Moro está hoje em uma posição razoavelmente confortável no Paraná. Lidera com folga todos os cenários para o governo estadual e já consolidou o apoio do eleitor bolsonarista, historicamente predominante no estado. Pesquisa Genial/Quaest divulgada em abril mostrou o senador com 35% das intenções de voto, contra 18% de Requião Filho e 15% de Rafael Greca. Em um cenário sem Greca, o ex-ministro sobe para 42%. Com esse capital político já sedimentado entre os eleitores de direita, Moro avalia que pode preservar um prudente distanciamento do clã Bolsonaro sem perder sua base eleitoral no Paraná — sobretudo no momento em que as revelações envolvendo Daniel Vorcaro aumentam o custo de uma associação ostensiva a Flavio Bolsonaro.

A resistência de Moro não é um caso isolado, mas parte de um movimento mais difuso de cautela dentro da própria direita. Nos últimos dias, aliados de Flavio passaram a tratar o caso Vorcaro não apenas como um problema eleitoral, mas como uma crise de confiança. Integrantes da própria campanha, a começar pelo coordenador, senador Rogério Marinho (PL-RN), foram surpreendidos pela extensão dos contatos do senador com o ex-dono do Banco Master e passaram a temer que novas mensagens, diálogos ou acusações venham à tona. O desconforto já se traduz em sintomas visíveis: a defesa pública de Flavio por aliados próximos do PL tem sido menos efusiva do que o próprio senador esperava. A reviravolta do senador — primeiro negando maior proximidade com Vorcaro, depois admitindo conversas e a visita ao banqueiro — deixou aliados atordoados. No núcleo de campanha, há uma crescente sensação de que o que Flavio diz não se escreve.

#Sérgio Moro

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