Buscar
Prestes a sair do cargo, o ministro da Educação, Camilo Santana, deverá deixar como legado para o seu sucessor uma crise com alguns dos grandes grupos privados do setor. Segundo o RR apurou, conglomerados como Yduqs, Ânima e Afya pretendem contestar tanto no âmbito administrativo quanto judicial as punições impostas pelo MEC aos cursos de medicina. O colar de medidas discutidas pelas empresas é amplo, de acordo com a fonte do RR. As empresas planejam recorrer ao próprio Ministério com o objetivo de forçar uma revisão do Enamed, a prova aplicada pela Pasta para medir o desempenho dos formandos de faculdades medicina e que resultou em penalidades a 54 cursos reprovados no exame. As universidades questionam critérios de proficiência, a comparação entre cursos com realidades distintas e, sobretudo, a utilização de uma única avaliação como base para decisões com impacto econômico direto. A leitura é que há fragilidades metodológicas suficientes para sustentar pedidos de recalibração ou mesmo de suspensão parcial das penalidades. Essa é parte da pressão que aguarda pelo próximo ministro da Educação. No entanto, a reação mais incisiva e de curto prazo deverá vir pelos tribunais. Yduqs, Ânima e Afya avaliam o ingresso de mandados de segurança e ações anulatórias com pedidos de liminar para barrar os efeitos imediatos das punições. A eventual suspensão das sanções abriria caminho para outras faculdades punidas também acionarem a Justiça, formando um efeito-cascata. Os argumentos das empresas de educação giram em torno da desproporcionalidade das penalidades, da ausência de base normativa clara para parte das medidas e das supostas falhas metodológicas do Enamed. Procuradas pelo RR, Yduqs, Ânima e Afya não comentaram o assunto.
O pano de fundo dessa reação coordenada é uma mudança relevante de postura regulatória. O caso das punições do MEC aos cursos de medicina marca uma inflexão: o Enamed deixou de ser apenas um termômetro de qualidade e passou a funcionar como instrumento de intervenção econômica direta no setor. Em março, o MEC abriu processos e aplicou sanções a 53 instituições privadas e uma federal (a UFPA, do Pará) com desempenho insuficiente, incluindo suspensão de ingresso de novos alunos em parte deles e proibição de aumento de vagas. As penalidades impostas às universidades particulares incluíram ainda restrições ao Fies e ao Prouni e, em alguns casos, redução de vagas.
O estrago feito pelo Enamed deve reduzir em aproximadamente 2,5 mil vagas a oferta nos cursos de medicina, com perdas estimadas em R$ 300 milhões já a partir deste ano. A Yduqs foi, de longe, a mais afetada. O grupo terá de cortar 317 vagas, o equivalente a 15,4% da sua oferta de medicina, a vertical que gerou R$ 643 milhões de Ebitda em 2025 — ou 34% do resultado operacional da companhia. Na Ânima, que atua no segmento por meio da Inspirali, as sanções atingem cerca de 5,3% das vagas. Ressalte-se que os cursos de medicina responderam por 67% da geração de caixa da empresa em 2025. Na Afya, 5,6% das vagas foram impactadas.
A pressão está alta dentro da Cimed. O empresário João Adibe Marques, acionista controladora, quer dar uma rápida resposta ao mercado após os decepcionantes resultados de 2025. Há uma forte cobrança interna para a empresa acelerar a entrada em novos segmentos. O alvo principal é o ingresso no mercado de canetas emagrecedoras, a coqueluche entre os laboratórios farmacêuticos. Originalmente, a meta da empresa era lançar sua caneta em 2027, mas, no setor, já se fala que a Cimed corre para antecipar esse movimento para este ano. A quebra da patente da semaglutida (princípio ativo do Ozempic), no último dia 20 de março, disparou uma corrida desenfreada da indústria farmacêutica brasileira. A partir de agora, a disputa de todos é para ocupar espaço nas prateleiras antes do concorrente. No caso da Cimed, a ansiedade é aumentada exatamente pelo desempenho frustrante do ano passado: seu lucro caiu 30% em relação a 2024, de R$ 280 milhões para R$ 169 milhões. Além disso, por conta de investimentos e de custo financeiro, a empresa teve uma redução de caixa de R$ 263 milhões. Às canetas emagrecedoras caberá a missão de engordar os resultados da Cimed.
O governo discute alguma forma de subvenção ao frete no âmbito do Programa de Venda em Balcão (ProVB), iniciativa da Conab voltada ao fornecimento de milho a preços subsidiados para pequenos produtores rurais. A medida seria uma resposta à escalada do preço do diesel na esteira dos conflitos no Oriente Médio. Os estudos feitos pelos Ministérios da Fazenda e da Agricultura ocorrem em meio à forte pressão dos transportadores, que alegam inviabilidade econômica em manter os frentes com a disparada do custo do combustível. Sem algum tipo de auxílio, há um crescente risco de paralisação das entregas de milho a pequenos e médios criadores de animais atendidos pelo ProVB. Paralelamente, a própria Conab avalia algumas medidas de apoio aos caminhoneiros, como flexibilização de prazos, suspensão de multas e eventual reestruturação dos leilões de frete.
A Plurix, braço de varejo do Pátria Investimentos, tem interesse na aquisição dos Supermercados Sonda. Há conversas em andamento com a família Sonda, acionista controladora da empresa, segundo informações que circulam em petit comité no setor. A companhia é avaliada em torno de R$ 3,5 bilhões. Com um faturamento anual superior a R$ 6 bilhões, o Sonda é um dos ativos mais cobiçados do setor supermercadista. Todas as suas 45 lojas, cinco delas com a bandeira Cobal, estão encravadas no maior PIB do país, o estado de São Paulo. No fim do ano passado, a rede esteve perto de ser negociada para o Advent, mas as negociações foram colocadas em banho-maria. O que se ouve no mercado é que a própria família Sonda não chegou a um entendimento sobre a venda da companhia. O capital é dividido entre os irmãos Delcir (50%) e Irani Sonda (25%), além dos dois filhos deste último. Procurados pelo RR, Plurix e Sonda não se manifestaram até o fechamento desta matéria.
Criada em berço esplêndido, o Pátria Investimentos, com seus mais de US$ 50 bilhões sob gestão, a Plurix tem feito M&As em série. O maior deles, em 2024, foi a compra do Grupo Amigão, à época com faturamento na casa dos R$ 4 bilhões. A aquisição permitiu ao braço varejista do Pátria praticamente duplicar seu tamanho. Hoje são aproximadamente 180 lojas e uma receita anual acima de R$ 10 bilhões. A disposição consolidadora da Plurix vai além das prateleiras do Sonda. Até porque o momento é particularmente oportuno para grupos varejistas com liquidez de sobra, como é o seu caso. Os juros elevados e o aumento da inadimplência das famílias têm levado o setor supermercadista a uma situação de estresse financeiro. Os exemplos estão sobre as gôndolas, à vista de todos. O Grupo Pão de Açúcar entrou em recuperação extrajudicial, com dívida de R$ 4,5 bilhões; o St Marche foi pelo mesmo caminho, com um passivo de R$ 530 milhões.
N.R. Após a publicação da matéria, o Sonda Supermercados entrou em contato com o RR, por meio de sua assessoria, para afirmar “de forma categórica que não mantém, neste momento, negociação com a Plurix, do Pátria Investimentos, nem com outro investidor. Não há tratativas em curso envolvendo a venda de participação ou controle da companhia. A empresa permanece concentrada em fortalecer suas operações e ampliar sua presença no varejo alimentar, sempre avaliando oportunidades que estejam alinhadas à sua estratégia de longo prazo.”
O RR mantém a informação publicada.
Os encaixes e desencaixes estaduais estão influenciando consideravelmente as candidaturas presidenciais no campo da direita. Primeiro foi Ratinho, que deixou a corrida ao Palácio do Planalto em grande parte pelo receio de entregar de bandeja o comando da política no Paraná para Sergio Moro, com o risco adicional de fragmentação do seu grupo local. Agora é Romeu Zema que enfrenta um dilema semelhante. Caso venha a concorrer à Presidência, Zema deixará o atual governador e seu ex-vice, Mateus Simões (PSD), em maus lençóis. Simões mantém uma relação de proximidade com o bolsonarismo. São milhões de votos que lhe interessam muito na campanha para a reeleição ao governo do estado. No entanto, se Zema lançar chapa própria para concorrer contra Lula e, principalmente, Flavio Bolsonaro, Simões ficará entre a cruz e a espada: como apoiar o ex-governador, seu aliado político, sem perder os votos do bolsonarismo? Como assegurar os votos do bolsonarismo sem cometer uma traição política a Zema? É uma equação difícil de ser resolvida. Na tentativa de colocar um pé em cada barco, não apenas Simões, mas o próprio Zema correm um risco político. Se o ex-governador disputar o Planalto, o clã Bolsonaro muito provavelmente despejará todo o seu apoio na campanha de Cleitinho Azevedo (Republicanos) ao comando de Minas Gerais. Nesse caso, Simões, que já está bem atrás nas pesquisas, não conseguiria mais virar o jogo. E Zema, a julgar pelas sondagens eleitorais, acumularia duas derrotas na mesma urna: a sua própria, na corrida à Presidência, e a do seu candidato no duelo pelo governo de Minas Gerais. Um dado que jamais pode ser ignorado: Minas é o grande espelho eleitoral do Brasil. Desde a redemocratização, todos os candidatos que venceram no estado foram eleitos presidente da República.
Todos os direitos reservados 1966-2026.