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Venda de participação da Rumo sinaliza desmonte da holding Cosan
11/03/2026
Aridez orçamentária da ANA coloca sob risco gestão de recursos hídricos
11/03/2026A ANA (Agência Nacional de Águas) está evaporando. A escassez orçamentária tem levado o órgão regulador a um cenário de asfixia, colocando em risco o cumprimento de algumas de suas atribuições mais nevrálgicas. Os principais impactos do estrangulamento financeiro da ANA vêm se refletindo na gestão da Rede Hidrometeorológica Nacional (RHN), um espécie de sistema nervoso central dos recursos hídricos no Brasil. O RHN alimenta decisões críticas de engenharia, abastecimento de água, geração de energia e defesa civil em todo o país. A redução de recursos, segundo o RR apurou, tem limitado a manutenção de equipamentos, atrasado substituições e provocado falhas na transmissão de dados. O resultado é uma deterioração gradual da qualidade das informações hidrológicas do país — um problema que se traduz em modelagens menos confiáveis e maior risco em decisões que vão da operação de hidrelétricas a projetos de infraestrutura e sistemas de alerta de cheias. A RHN reúne cerca de 23 mil estações de monitoramento distribuídas pelo território nacional e operadas por diferentes instituições — empresas do setor elétrico, governos estaduais, universidades e centros de pesquisa. Cabe à ANA a gestão de aproximadamente 4.800 estações.
Em contato exclusivo com o RR, a ANA confirma que “tem enfrentado dificuldades frente às restrições orçamentárias”, embora ressalte que “não está deixando de cumprir suas competências por essa razão”. Segundo a agência, trazendo a valores atualizados pela inflação, o seu orçamento discricionário “estava em cerca de R$ 301,5 milhões em 2020”. Desde então, o volume de verbas vem caindo consistentemente ao longo dos anos. Atualmente, de acordo com a entidade, “o orçamento discricionário está em R$ 192,6 milhões. Ou seja, houve o aumento de competências da Agência, mas uma redução de cerca de 36% em seu orçamento entre 2020 e 2026”. E de quanto a ANA precisa para tirar a cabeça de dentro d’água? Segundo o próprio órgão regulador, seriam necessários R$ 94 milhões a mais em seu orçamento, ou seja, um aumento de 49%. “Essas estimativas levam em conta programas essenciais para a gestão de recursos hídricos, como programas que fomentam o fortalecimento do Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos (SINGREH), o monitoramento da qualidade da água e os alertas de secas e inundações. Também consideram a elaboração das normas de referência (NR) para o setor de saneamento básico dentro dos prazos estabelecidos pelo novo marco legal do saneamento”.
Em relação à Rede Hidrometeorológica Nacional (RHN), a ANA confirma que “a restrição de recursos impõe uma reavaliação contínua do número de estações e dos serviços necessários para a produção de dados confiáveis que representem a ocorrência da água no país”. A agência afirma, inclusive, ter repassado a operação de pontos de monitoramento de açudes para a gestão estadual. Em outras regiões, a ANA replanejou “o quantitativo de estações, a partir do que foi possível o repasse de estações aos estados e comitês de bacias, a incorporação de estações do setor privado e a desativação de algumas estações onde a sua perda foi compensada pela relocação de outras estações para setores mais representativos”. A entidade diz ainda que suprimiu “parte das campanhas de campo, espaçando visitas de manutenção e coleta de dados, de forma a poder manter as estações fundamentais em funcionamento”.
Embora seja uma das menores agências reguladoras federais em orçamento e quadro de pessoal, direta ou indiretamente a ANA atua sobre setores que, somados, respondem por algo próximo de 20% do PIB brasileiro — da geração hidrelétrica ao agronegócio irrigado, passando por mineração, saneamento e grandes projetos de infraestrutura. O quadro se torna ainda mais grave porque a limitação orçamentária da ANA coincide com a expansão do pipeline de concessões e PPPs de saneamento. O BNDES estima média anual de investimentos no setor entre R$ 42,4 bilhões e R$ 45,2 bilhões até 2029. Apenas em 2026, quatro grandes PPPs podem ir a leilão, com potencial de mobilizar R$ 20,3 bilhões em investimentos e atender 477 municípios
Como se não bastassem os seguidos cortes de verbas, a ANA sofre também com déficit estrutural de pessoal. A própria lei de criação da agência previa um quadro de, no mínimo, 395 servidores, número que nunca foi integralmente preenchido. Hoje a agência opera com cerca de 290 funcionários, segundo dados apresentados pela própria direção da autarquia em audiências no Congresso. E a situação tende a se agravar. Há previsão de que, até o fim desta década, 25 servidores, ou seja, quase 10% da força de trabalho, vão se aposentar sem previsão de recomposição. A ANA informou ao RR que “houve um pedido de concurso feito em 2025, mas ainda não obtivemos resposta quanto à sua autorização. À época foram solicitadas 40 vagas para o cargo de analista administrativo e 15 vagas para técnico administrativo”.
A ANA parece estar longe de figurar entre as prioridades do governo. Como se não bastasse o raquitismo orçamentário, a agência passa por um período de vácuo decisório. O mandato da então presidente, Veronica Sánchez, se encerrou em 15 de janeiro. Até o momento não há definição sobre o substituto definitivo. Por ora, a ANA vem sendo comandada mediante mandatos-tampões. A diretora Ana Carolina Argolo assumiu a presidência interina em 26 de janeiro e já deixará o cargo na próxima semana. Outro diretor será eleito para comandar a agência provisoriamente até que o Palácio do Planalto indique o novo presidente.
Recuperação extrajudicial do GPA é a pá de cal na era Casino
11/03/2026A recuperação extrajudicial do Grupo Pão de Açúcar (GPA), anunciada ontem, representa o fim da era Casino. O plano para renegociar cerca de R$ 4,5 bilhões em dívidas foi conduzido inteiramente à margem do grupo, que ainda mantém uma participação acionária de 22,5% na empresa. O isolamento é absolutamente calculado e faz parte da própria ação medicamentosa na tentativa de sobrevivência da rede varejista. Nos bastidores, a nova gestão do GPA, indicada pela família Coelho Diniz, hoje maior acionista, atribui a deterioração da companhia a uma sucessão de erros estratégicos, omissões operacionais e decisões financeiras desastrosas do Casino ao longo dos últimos anos. O legado deixado pelos franceses inclui ziguezagues estratégicos que desnortearam a companhia, desinvestimentos que reduziram sua musculatura operacional, incapacidade de reagir à migração do consumidor para formatos mais baratos e a insistência em uma estrutura de capital tóxica, que se tornou insustentável com a escalada dos juros. A crise, nessa leitura, não é só financeira. É também a conta atrasada de um ciclo de gestão marcado por perda de foco, destruição de valor e erosão progressiva da capacidade competitiva do GPA.
Os números mostram a profundidade do estrago. O GPA encerrou 2025 com capital circulante líquido negativo de R$ 1,22 bilhão e R$ 1,7 bilhão em vencimentos financeiros previstos para 2026. No curto prazo, cerca de R$ 400 milhões a R$ 500 milhões vencem em maio e outros R$ 1,2 bilhão a R$ 1,3 bilhão em julho, o que ajuda a explicar a pressa em costurar o acordo com os credores.
O estrago da era Casino se reflete na Bolsa. Apenas neste ano, o GPA perdeu mais de um terço do seu valor de mercado, hoje na casa de R$ 1,3 bilhão. Os próprios franceses sentem no bolso o derretimento da empresa. Em pouco mais de dois meses, o valor da sua participação caiu de R$ 424 milhões para R$ 275 milhões. E é justamente aí que se instala a especulação do mercado: o que o Casino fará com sua participação remanescente? Uma venda imediata em bolsa parece improvável, porque pressionaria ainda mais um papel já fragilizado. Uma saída negociada, em bloco, para um investidor estratégico ou financeiro, seria mais compatível com o momento. Outra hipótese é o grupo francês simplesmente esperar a poeira da reestruturação baixar para tentar se desfazer da posição em condições menos desfavoráveis. E, quando isso ocorrer, é provável que ninguém no Pão de Açúcar venha a sentir saudades.
JiveMauá prepara uma lanternagem na Sequoia
11/03/2026A JiveMauá prepara um plano de ataque na tentativa de solucionar as mazelas financeiras da Sequoia. A ofensiva mira simultaneamente três frentes: reestruturação do passivo, reforço de caixa e redesenho operacional do negócio. O plano também passa por corte de custos e racionalização da malha da companhia logística. Quatro centros de distribuição já foram devolvidos — Hortolândia, Jaboatão, Colombo e Salvador — e a administração colocou sob revisão o destino do mega sorter de São Bernardo do Campo, avaliando se o ativo será mantido como plataforma de “sorting as a service” ou usado de outra forma para gerar caixa. A JiveMauá assumiu o controle praticamente integral da Sequoia (99,6%) em fevereiro, ao converter cerca de R$ 421 milhões em debêntures em participação acionária. Colocou no bolso um papel que virou poeira: nos últimos seis meses, o valor de mercado da empresa caiu 97%.
A JiveMauá não quer ficar muito tempo nesse caminhão. O itinerário da gestora é claro: limpar o balanço, reestruturar a operação logística, recuperar valor do ativo e, no médio prazo, buscar a porta de saída. No entanto, a reorganização da companhia exigirá muitos quilômetros de estrada. Diga-se de passagem, por ora uma estrada mal iluminada – a empresa não divulga balanço desde junho do ano passado. No primeiro semestre de 2025, a empresa teve receita líquida de R$ 311 milhões, queda de 40% em relação a igual período em 2024. Ao menos, a companhia conseguiu amortecer seus prejuízos – as perdas caíram de R$ 240 milhões para R$ 20 milhões no comparativo do mesmo intervalo.
Governo já admite engavetar mudanças na importação de biodiesel
11/03/2026O governo já trabalha com a hipótese de engavetar a proposta de liberação parcial da importação de biodiesel. O motivo é a forte resistência política que se formou em torno do tema, comandada pela Frente Parlamentar da Agricultura. O modelo em estudo preserva 80% da demanda para produtores com o Selo Biocombustível Social, mas libera 20% restantes para importação. A bancada ruralista já ganhou o primeiro round. Ontem, o CNPE (Conselho Nacional de Política Energética) anunciou o adiamento da reunião que estava marcada para amanhã, quando haveria uma deliberação sobre a proposta. No que depender da força do agronegócio, a tal reunião jamais ocorrerá. Nos bastidores, a avaliação é que o Planalto e o Ministério de Minas e Energia preferiram retirar o assunto da mesa a comprar uma briga aberta com o agro. A bancada ruralista sustenta que o país tem oferta doméstica suficiente e que a abertura comercial ameaçaria investimentos, a agricultura familiar vinculada ao Selo Biocombustível Social e a própria cadeia nacional do biodiesel. Em ano de eleição, aí mesmo é que o Palácio do Planalto não está disposto a abrir novas frentes de fricção com o agronegócio.