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Crise na Venezuela ameaça abastecimento de fertilizantes para o Brasil
O Ministério da Agricultura monitora, com razoável preocupação, os desdobramentos da crise venezuelana sobre o suprimento de fertilizantes no Brasil, notadamente no que diz respeito à compra de ureia. O ministro Carlos Fávaro e seus assessores têm discutido medidas de proteção para o caso de redução ou, no pior cenário, de interrupção dos embarques de adubo vindos do país vizinho. A Pasta está mapeando estoques em portos e armazéns no Brasil. Há um fator adicional de atenção: a partir de março, inicia-se a janela de compra de adubo para a próxima safra de verão. Ou seja: há um pico de demanda logo ali na próxima esquina. Some-se o fato de que outro importante fornecedor de ureia para o Brasil é o Irã, que se encontra no meio de uma convulsão institucional. Tudo junto e misturado.
Por conta dessa perversa combinação, no Ministério já se debate a possibilidade de uma atuação diplomática para abrir rotas de fornecimento alternativo. Curiosamente, ou talvez nem tanto, um desses caminhos aponta na direção exatamente dos Estados Unidos, o algoz do governo de Nicolás Maduro. A indústria norte-americana já fornece algo como 7% dos fertilizantes nitrogenados consumidos pelo agronegócio brasileiro. E, nesse caso, desponta como uma potencial beneficiária caso o Brasil precise repor uma eventual queda na importação de fertilizantes da Venezuela. São os ganhos para a América da fumegante política externa de Donald Trump.
A Venezuela responde por cerca de 6% da demanda brasileira por ureia. Visto isoladamente, o número pode parecer relativamente pequeno. Mas há todo um efeito casca em jogo. A ureia representa mais de 60% do consumo de fertilizantes nitrogenados no país. Estes, por sua vez, correspondem a aproximadamente um terço do adubo usado nas lavouras brasileiras. Dada a brutal dependência do agronegócio em relação às importações, qualquer engasgo no fluxo comercial de adubo para o Brasil traz uma dose de risco ao mercado interno. O receio no Ministério da Agricultura é que a ruptura institucional em Caracas tenha impacto sobre a cadeia de produção de fertilizantes na Venezuela e consequentemente sobre os embarques para o lado de cá da fronteira. Para não falar de efeitos colaterais, como ruídos logísticos, encarecimento do frete e volatilidade de preços, isso em um mercado global já sensível a fatores geopolíticos, notadamente em razão da guerra entre Ucrânia e Rússia.
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